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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e as lambe-montras

rabiscado pela Gaffe, em 05.11.15

Embora avessa a classificações, odiar ficheiros e arquivos, não me custa etiquetar as minúcias do quotidiano. Confesso que não resisto a, no mínimo, caracterizar, ainda que de forma breve, os brócolos que me acontecem pelos caminhos que percorro distraída.

 

A elegância, minhas queridas, não se colhe nos pomares, nem se encontra em promoção no Pingo-Doce, não resulta do uso do último grito, ou do último guincho, dado pelos responsáveis pelas Casas que nos fazem pensar, de quando em vez, que, por alguma razão, usamos uns trapos nauseabundos, ultrapassados e corroídos pela estação que já passou. A elegância é como um dente do siso que não podemos extrair. Pode existir no recôndito das nossas gengivas, sem jamais eclodir, com a diferença de que, quando dói, é sempre porque irrompeu nos maxilares das outras.

 

Há mulheres que confundem o estado inato de elegância com a capacidade que possuem de estar a par do que se usa.

Estar a par é das expressões mais ilusórias e patéticas que conheço, sobretudo quando se refere à serpente a que se convencionou chamar moda. Ninguém deve estar a par do que quer que seja. É falta de imaginação. É similar à raquítica ambição de algumas mulheres que desejam ser como os homens. O importante é estar sem par, ser-se única.

 

Existem pelas ruas desta amargura as chamadas lambe-montras.

 

 

São criaturas que plagiam tudo aquilo que serve às mulheres que se deixam photoshopar nas revistas da especialidade e que acreditam desgraçadamente que o resultado impresso é a reprodução fiel daquilo que projectam no espelho e nos olhos dos seus pequenos mundos.

Esta espécie usa normalmente sacos gigantescos com alças do mesmo calibre, que batem nos tornozelos e onde dispersam uma gama inútil de tralha que vai desde o arsenal completo de make-up, passando pelos dossiers cor-de-rosa que chegaram apensos às revistas e acabando naqueles inúmeros apetrechos inimagináveis que vão dar um substancial volume ao, de contrário, úbere vazio e deprimente.

Embora exista, dentro das goelas deste monstro, um pequeno aconchego para o telemóvel, a lambe-montras jamais o larga da mão. Colorido ou com pequenos focos de luz intermitente, o aparelho é transportado como se estivéssemos na eminência de uma catástrofe ou a ameaça de ataque terrorista fosse concreta e um SMS de velocidade estonteante nos livrasse da morte.                    

Usam quase sempre pumps, normalmente de plástico envernizado, com cores apelativas e irritantes. Deixam de rastos a reputação destes maravilhosos acessórios que, em determinadas situações - sobretudo aquelas que nos fazem estar paradas ou sentadas, com pernas até ao pescoço, cruzadas discretamente - e bem acompanhados pela discrição de peças sumptuosas, quase invariavelmente de corte retro, são um fascínio, mas que arrasam e arrastam para a lama toda a réstia de bom senso quando são o fim de umas calças que de tão justas e de tão apertadas nos causam a sensação de asfixia.

Os casaquinhos - o diminutivo é importante - são complementares à imagem arruinada e procuram, debalde, a já irremediavelmente perdida inocência perversa de Lolita. 

Procuram actualizar de modo compulsivo os seus conhecimentos acerca do que se está a usar e encontramo-las a lamber montras admirando quase sempre os objectos que jamais se enquadrarão na imagem plagiada ou decalcada de qualquer estrela pop de segunda categoria.

 

A elegância está a anos-luz da reprodução literalmente pindérica do que é idolatrado por estas mulheres.

Como diria o velho senhor, sejamos únicas, porque todos os outros lugares estão já ocupados.

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