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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe vadia

rabiscado pela Gaffe, em 12.11.15

Paris.jpgSei que me alterei.

Já não é Saudade o que Paris me entrega. É outro som parecido. Uma outra voz que chega das ruas e vielas, das pontes, das esquinas e das casas, dos muros, dos cantos e ruelas, das arcadas.

Uma outra voz a percorrer-me a alma a dizer que me alterei, que não sou mais a rapariguinha que noutra voz ouvia a alma toda de Paris e que a desfez de encontro à luz que vinha nas tardes em que o som era só seu.
Paris já não terá a voz que vinha e eu não terei a mesma luz que ouvia.

 

Olho agora Paris como a mulher que descobre que o lugar imenso nos olhos da criança não passa de uma pequena esfera de poeira.

 

A memória é agora um lamento prolongado e manso, um suave entardecer inócuo, a manta na cadeira do café, uma tristeza que passa como se tivesse um corpo esmaecido e atravessasse a rua devagar, para o outro lado.

Paris, a que perdi, guardada no meu peito, esmoreceu na perda. Não distingo os traços dessa dor, já não a reconheço e trago um alfinete a picotar-me a alma por ter abandonado o espanto que foi sentir-me longe.

 

Sei que Paris é mais pequena agora do que dantes e que eu cresci no espaço desta míngua.

E no entanto, Paris paciente espera por mim, para me mostrar, mal chegada, a melancólica procissão de outra saudade composta só por mim, porque é de mim que a tenho, que a dor maior não se partilha e o andor que levo não tem peso ou tem o peso que os meus ombros dizem.

Sou menina despida que passa nua pelas avenidas sem ter o rapazinho que anuncia a ausência das capas de veludo.

 

Paris? Paris espera sempre pelas vadias.

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Gavetas:

A Gaffe em pecado

rabiscado pela Gaffe, em 12.11.15

Pergunto-me se alguma vez aqui falei de underwear.

É um assunto melindroso, tendo em consideração a matéria de facto e sobretudo trabalhoso, dada a quantidade da oferta.

Podemos sempre iniciar a conversa pelas peças que, não sendo susceptíveis de classificação nesta categoria, foram adaptadas ou sugerem as que a ela pertencem.

 

Se deixarmos de babar, pasmadas, para o homem estatelado da fotografia e evitarmos pensar que há maçãs com imensa sorte e que nem todas foram condenadas, fazendo a perdição de Eva e da Branca de Neve, conseguimos perceber que a t-shirt cinza-tempestade - dizem os especialistas - é, apesar do seu decote, uma subtil adaptação das camisolas interiores do meu avô. Minimal e de malha de seda que tomba e se amarfanha nos músculos que devemos, mais uma vez, tentar ignorar.

 

O que também aqui se retém, é o cinto displicente, de couro genuíno, atado com o desleixo estudado de que tanto gostamos, e são as calças fantásticas de cor brevemente azeitona - e não azeiteira -, de corte limpo, quase tradicional, quase retro, possivelmente chinos, eventualmente antifit, com botões, adaptada a silhueta do consumidor, com cintura relativamente baixa, quadril desestruturado e corte recto nas pernas. Não tem o aprumo do perfeito, ficando nos quadris dos rapazes com - pequenas nunaces - algum tecido que parece sobrar e que insinua, que sussura, o sonho em que se podem tornar as calças do cavaleiro.

Sublinho, com veemência, a dobra - linda! - no fundo das pernas das calças e a cor contrastante ou complementar, ou mesmos padronizada, com que pode surgir.

 

Meus caros, se Deus está nos detalhes, já podemos olhar para este pecado com maçã.

 

Nota - não sendo uma maçã, será uma bola, mas nesse caso os trocadilhos tornavam-se perigosos.

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