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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e as raridades

rabiscado pela Gaffe, em 19.11.15

O que entrega a um homem uma sensualidade arrasadora, um desesperante apelo contido num desejo, a inolvidável voluptuosidade que nos deixa tombadas e a babar, não é por obrigação o resultado das horas de ginásio.

Há uma nuance que inicia a diferença entre um belo e musculado atleta bronzeado, de sorriso matador e olhos sem fundo que se aviste, capaz de nos levar ao céu cumprindo todas as nossas fantasias menos confessáveis e a quase brutalidade animal do homem que, satisfazendo os preceitos anteriores, é capaz de os aliar a uma capacidade milagrosa de nos fazer sonhar.

São raros e difíceis. Não tocam a banalidade corriqueira dos primeiros.

 

Exemplifiquemos com alguns detalhes:

 

- Não usam diminutivos quando se apresentam. Não são o Zé Tó, o Tó Manel, o Juca, o Pi, sobretudo quando a este diminutivo acrescentam o superlativo absoluto de inferioridade - o Beto ou o Cacá.

 

- Não nos chamam fofinha ou bebé ou outra barbaridade similar, porque sabem que não temos paciência para imberbes com saudades da mãe.

 

- Não falam ininterruptamente acerca das suas proezas inacreditáveis, porque sabem que queremos falar das nossas e que jamais acreditaremos no tubarão que lhe mordeu a prancha, quando adivinhamos que a prancha que possuem não é sequer digna da atenção de um chicharro.

 

- Não usam Hugo Boss. Preferem os aromas que escolhemos só para eles, indiferentes às notas altas que emanam no instante em que pressionamos a tampinha.

 

- Não arranjam as sobrancelhas, porque, para além de já existir para lamentar o sobrolho de Cristiano Ronaldo, sabem que um franzir de sobrancelha masculina tem de ser convincente e não parecer que pertence a uma dona de casa já entradota com um passado doméstico e um presente domesticado por novelas sucessivas.

 

- Não passam por nós de tanga colorida e exígua. Conhecem o valor do que trazem escondido e não se arriscam a fazer tombar inanimado o nosso entusiasmo quando se viram de costas.

 

- Não nos dão palpites triturantes acerca das imbecilidades com que nos deliciamos, nem nos olham como se não soubéssemos que os pindéricos berloques que usamos ao pescoço são os mais idiotas acessórios que a Mãe Terra e os seus amados filhos produziram.   

 

- Não atiram ácido retroactivo à ex-Presidente da Assembleia da República - rapariga esperta, sempre com ar de quem acaba de se erguer do leito matinal após uma noite mal dormida, com enxaquecas na coligação e um delicioso e discreto problema de dicção - pelo facto de ter tido um dia um ataque de histerismo e desatado a soltar metáforas muito pouco adequadas, citando Beauvoir como se a sartriana figura francesa fosse parva ou como quem quer arrasar a Amazónia à força de perdigotos.

 

- Não trazem o nó da gravata solto e lasso, numa imitação rasca da descontracção que produz exactamente o efeito contrário, nem usam ténis misturados com fatos de três peças quando são convidados para o casamento do ano. Aliás, nunca são convidados para nada e em ano nenhum, a não ser quando concordamos com o calendário ou o convite é o nosso.

 

- Não batem a porta do carro emproado com a força máscula dos deuses, para logo em seguida se agacharem à procura das mazelas deste gesto e não nos acusam, em momento algum, de largarmos migalhas de bolachas - com pepitas de chocolate - nos estofos ou teimarmos em ouvir Sinatra aos berros, só para evitar ouvir falar de novo nos gritos vencedores de Michelle Brito.

 

- Não perguntam se gostamos dos momentos que antecedem o cigarro que nos provoca náuseas disfarçadas, porque sabem que vamos mentir, não confessando que gostamos muito mais.

 

- Não nos fazem peso com o braço pousado nos nossos ombros durante uma conversa com um amigo só deles, como se fossemos cabides ou expositores, almofadas de descanso ou ortopédicas, porque desconfiam que esta indiferença nos leva a apreciar em surdina as qualidades mais visíveis do interlocutor desconhecido.

 

- Não amuam quando beberricamos a nossa preguiça sem sequer mordiscar com o canto do olho o esplendor bronzeado dos seus peitorais curtidos por sóis de paragens idílicas, porque a tez morena é devida apenas ao esforço dispendido ao sol para tentar salvar um bicho qualquer em vias de extinção, mesmo que o bicho nos meta um medo tenebroso.   

 

Existe um rol imenso de características apensas a este homem de sonho, sendo a principal, a mais luminosa, a mais deslumbrante e avassaladora, a paixão imensa que sente por ruivas de caracóis soltos e enlouquecidos. É o único que sabe que uma ruiva é um sol poente: Não provoca escaldões e cria sempre as paisagens mais apetecidas.

 

É tão raro e difícil como um deus.

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A Gaffe no Coliseu

rabiscado pela Gaffe, em 19.11.15

Utah Penitentiary, 1889.jpgRodrigo Leão, com o coro e orquestra Gulbenkian, ontem no Coliseu, foi uma enorme desilusão.

Uma entrada falsa com o som do piano do compositor alterado e riscado como um vinil encontrado no lixo, anunciou a perda da sonoridade inconfundível de Rodrigo Leão que é engolido pela orquestra, diluído pelo coro e pelos arranjos incaracterísticos que se encarregaram de tornar o concerto igual a outro qualquer de um bom compositor que se descuidou.

Uma sonoplastia deficiente do princípio até ao fim; uma escolha de imagens projectadas no fundo do palco que nos faz crer que estamos perante o monitor de um PC em repouso; um microfone demasiado fechado que transforma a voz de Selma Uamusse num som audível apenas de quando em vez; o apagar de Celina da Piedade misturada aos trambolhões na orquestra; uma linguagem melódica, poética, única, mas perdida e um público que sente o acidente, aplaudindo sem grande entusiasmo.

 

Valeu a pena ouvir André Barros, o compositor que chega da Islândia para oferecer a Rodrigo Leão e a uma plateia expectante, três composições para piano que, infelizmente, agudizaram a desilusão que chegou logo a seguir.    

 

Comprovando a minha decepção, a meio do concerto dou comigo distraída a pensar que Rui Moreira está cada vez mais elegante.

 

Uma noite friorenta, sem estrelas, que nos fez sentir que deve ser mais surpreendente o coro da prisão.   

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