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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe angustiada

rabiscado pela Gaffe, em 25.11.15

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O dia emudece preso nos vidros duplos das janelas.  

Lá fora a minha Avenida fria passa por mim e entra no meu peito. Desenho no vidro da partida projectada a saudade que chegou precipitada. Sempre adiantada, a saudade em mim!  

O meu retorno a Paris não está agendado para breve, mas a minha irmã, ultrapassando todos os limites do razoável, começou, na semana passada, a insistir na urgência dos preparativos, esgravatando toda a minha vida, debicando os grãos de milho que mais lhe agradam. Vejo-a possuída pelo espírito da ordem e do método, a tentar ajudar-me a fazer as malas numa antecipação absurda, com a calma de quem está habituada a embalar a vida dos outros - a minha pequena vida pronta e recolhida nas Louis Vuitton que me emprestou - e enquanto a olho, arquitecta de viagens planeadas, descubro a indiferença que me invade a alma e sei que na mala não cabe o coração que não encontro, porque se afoga na saudade do mar que vejo em frente.


O contraste entre a azáfama nervosa e irrequieta da minha irmã e pacatez e absoluta indiferença do meu rapagão perante a partida combinada, chega a ser curioso, mas acorda em mim a nota mais subtil da angústia certa.

 

De olhos ternos e mãos nervosas, o rapagão senta-se comigo. Aproxima-se e sussurra leve ao meu ouvido:

- Eu vou contigo.

Enfureço-me. Descontrolo-me. Encarniço-me. Insurjo-me.

 

A minha alma pasma, não só porque a notícia me incomoda e me faz sentir responsável por fazer perigar a estabilidade do homem, todos os projectos que custaram tanto erguer da terra que até dói, mas porque me vejo a ser sincera na revolta.

- Não é por tua causa que decido. É por minha causa que vou. Descobri que era impossível ir e vir todos os dias e que não posso deixar de olhar para ti a todo o instante.

Depois, escondendo as palavras com os dedos, desviando os olhos doces e sorrindo meigo e calmo, acrescenta como quem suspira:

- Deixar de olhar por ti a todo o instante.

 

O que fazemos nós quando nos pousam nas mãos o Universo?!

 

Imagem - Keridwenn

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