Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de 2016

rabiscado pela Gaffe, em 31.12.15

canvas.png

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe espia

rabiscado pela Gaffe, em 31.12.15

varanda.jpg

No outro lado da rua, as janelas das vivendas brancas continuam encerradas.

São iguais. As persianas brancas e cerradas todo o dia nas janelas iguais umas às outras.

Quase a terminar a rua existe uma casa com persianas cor de chumbo.

A casa, sem orquídeas tristes e ressequidas na varanda e de desenho minimal, geométrico e austero, retalha o uniforme novo-rico da rua sossegada.

Ontem, fui comprar pão de manhãzinha onde me tratam por menina e cheira a forno antigo.  

Ao descer, estavam erguidas as persianas cor de chumbo. Vi o homem a atravessavar o quarto, de tronco nu e toalha vermelha nas mãos. Corei. Senti-me coscuvilheira e intrometida.

Quando me apercebi do portão da garagem a abrir, já assumida e vergonhosamente bisbilhoteira, corri e descobri que o homem é atraente, sozinho, que usa óculos de massa que não lhe ficam bem, barba rasa de dois dias e cabelo negro e muito curto.  

À noite, na casa de persianas cor de chumbo, consigo ver a luz intermitente da televisão, coada por cortinas. Fico parada e encostada à parede da varanda da casa onde me escondo destes dias tristes e invento histórias para aquele homem que não vejo.

É pacífica, simples, lógica, fácil e evidente a solidão da luz intermitente, como se nada houvesse mais para viver; como se tudo de tão previsível, ordeiro, tranquilo e mais sereno, fosse o banal, o inevitável sintoma de haver Paz; como se a solidão não existisse ou existisse apenas para quem olha as luzes intermitentes coadas por cortinas que chegam da vida de quem se desconhece.

É fácil apaixonar-me pela luz que vem coada por cortinas na noite em que me encosto à intermitência nua da varanda.

 

Sempre fomos atraídos por aquilo que nos outros se assemelha à Paz, quando dentro de nós o mesmo, exactamente o mesmo, nos faz sentir que teremos apenas a luz intermitente que escapa da nossa desabitada espera sem cortinas.      

 
 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe em obras

rabiscado pela Gaffe, em 30.12.15

Dentro de nós há lugares que desconhecemos por completo.

A dor abre-lhes as portas e só então percebemos que existiam desde sempre. Visitamos estes compartimentos revelados, povoamo-los de bricabraques de memórias e deixamos que o sol os invada e levante a poeira que continham.

A dor é desta forma similar a uma chave que sempre esteve na palma da nossa mão sem o sabermos. Os espaços abertos são redutos ignorados, ou bunkers invioláveis, até ao momento em que os percebemos nossos desde o início do tempo.

Creio que a ampliação da alma se faz apenas através da dor.

A felicidade é somente um corredor sem história por onde caminhamos sempre de costas voltadas para os nossos mais soturnos sofrimentos.    

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe veste a verdade

rabiscado pela Gaffe, em 30.12.15

 

Creio que não seria de todo má ideia se usassemos, de vez em quando, uma peça que nos lembrasse com alguma insistência pequenas verdades que todos gostamos de esquecer.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe a acenar

rabiscado pela Gaffe, em 29.12.15

lisbeth zwerger.jpg

Ter saudades é como ter nos olhos uma ferida, um pedaço enegrecido de um penedo ou a voo de uma ausência que se consome e apaga contra o vento em que se tornou a alma.

 

Ilustração - Lisbeth Zwerger

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe quádrupla

rabiscado pela Gaffe, em 28.12.15

piano.jpg

 

Primeira neta


Quando os netos atingiram os dezoito anos, a avó ofereceu-lhes a mesma coisa:
Às raparigas uns brincos.

Ao rapaz uns botões de punho.

Os brincos variam no formato. Os da minha irmã, por exemplo,são um rectângulo de brilhantes que suportam uma belíssima pérola.

A minha irmã perdeu um.
Gemeu, ginchou, berrou, ganiu, chorou... e finalmente, para aplacar a consciência, declarou que tinha sido roubada. Quando quer, consegue ser uma psicopata obcecada, maníaca e compulsiva. É mais simples assim e nada de inusual nesta família.
O brinco, um e não o par, só podia ter sido furtado evidentemente por Van Gogh.

A avó, dias depois, encontrou-o abandonado e declarou que o iria colocar num dos lugares mais inacessíveis deste Universo, à prova de toda a tentativa de roubo, perda ou desvio.


A Bórgia pertencia à minha avó e era a mais medonha doberman do planeta.
Assassina em série, feroz, voraz e aterrorizante, babava ódio por tudo o que se mexia dentro do seu larguíssimo território. Premiada, Miss, Campeã e com mais pedigree do que toda a minha família junta, Bórgia apenas obedecia à voz da minha avó e dilacerava tudo e todos que por incauto lhe roçavam levemente o corpo.
Era inevitavelmente presa quando havia visitas, mesmo aquelas que a cadela devia considerar habituais. Ninguém se atrevia a arriscar.
Bórgia era uma assassina nata.
Tínhamos o vício de a irritar, mal chegávamos. Sabíamos que as grades nos separavam dela e que a fúria aterrorizadora da cadela mordia apenas o ferro.
Na nossa última visita, a surpresa emudeceu-nos.
Nada nos fez provocar a cadela que nos desprezou com olhos papais.
O nosso espanto, a nossa mais desmesurada surpresa, a nossa mais paralisante estupefacção, foi ver numa das orelhas demoníacas de Bórgia, cintilar um dos mais belos brincos de Cartier, um rectângulo de brilhantes a guardar a pérola. Bórgia pavoneava-se indiferente e sobranceira.

 

A minha avó tinha pedido ao veterinário que colocasse com segurança acrescida o brinco na orelha do demo.

- Como vês, minha querida - murmura a avó ao ouvido da minha irmã paralisada -, mesmo sabendo que lhe falta um brinco, a cadela porta-se como uma senhora.

 

 

 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe sem regresso

rabiscado pela Gaffe, em 27.12.15

Lauren Marx.jpgFalta-me o que juntas já tivemos.  

A sombra dos teixos a crescer nas pedras e as tranças de água dos olhos e da lua aberta.
A claridade a crescer nos dias.

As penas brancas do estilhaçar das nuvens.

Um fio de pérolas no pescoço das tardes, inevitável como os enxames de abelhas no regaço do tempo.

O teu amor de sossegos mútuos ou de terra ou da mais íntima placidez da seiva.

A espera dormindo.

O sossego.

 

Só tu sabias.

Só tu sabias que as palavras olham os abismos e espreitam as vertigens sem fazer vibrar o ar que rodeavas, porque trazias secretos recantos onde a tua voz se ouvia claramente e os teus olhos volteavam dentro deles.

Sabias do sabor de terra a florescer e de pólen espalhado nas toalhas.

 

Dos meus olhos escorrem papoilas descerradas e no abandono dos dias dormem as deslumbradas e ácidas manhãs das luzes e das casas que tu agora desabitas.

Vou, como quem anda numa alameda de árvores decepadas, sem esperar voltar, porque o regresso era a tua mão. 

   

Fazes-me falta, avó.

 

Ilustração - Lauren Marx

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe deseja-vos

rabiscado pela Gaffe, em 23.12.15

christmas carol.jpg

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe sem palco

rabiscado pela Gaffe, em 22.12.15

MD.jpg

 

Tens de sair da vida a agradecer os aplausos.

Se ainda não os ouves, ensaia mais ou então veste-te melhor.  

Avó

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe em tons pastel

rabiscado pela Gaffe, em 16.12.15

A velha máxima de preto, eu nunca me comprometo, não é de todo aplicável a alemãs poderosas.

Há razões que subjazem a esta limitação. O preto foi, durante determinado período, a cor bélica escolhida por uma facção do exército alemão com características inqualificáveis. Esta é uma das causas que de tão tenebrosa não pode e não deve ser tratada neste cantinho fútil.

A segunda, mais consonante com o espírito tonto deste blog, passa pela senhora Merkel.

A Chanceler é pastel.

Embora as cores que povoam o seu monótono guarda-roupa não espelhem a tenacidade, a inflexibilidade, a rigidez e a ausência notória de jogo de cintura - compreensível, já que a não tem -, a repetição da peça, o blazer com corte minimalista, um tanto ou quanto severo, escolhida como sua imagem de marca, em suaves, cordiais e simpáticos tons maioritariamente esbatidos e atenuados, fornecem à ríspida senhora um ar brando que engana os mais incautos.

A senhora Merkel pode ser um buraco negro vestido de estrela. Absorve o que dela se aproxima, fazendo-nos pensar que ilumina.

É evidente que se tivesse a silhueta da rapariga da imagem, estou convencida que a maioria esmagadora da população europeia, na qual me incluo prazenteiramente, não se incomodava muito com o preto apertar de cintos, sobretudo se este esticão fosse dado pessoalmente. Poucas seriam as criaturas que desdenhariam ser apertadas, para além das suas possibilidades, por uma menina alemã com as características deste exemplar.

Esta situação prova que não está de todo comprovada a correcção da máxima referida.

 

O preto compromete, e de que maneira.

 

Se Merkel embrulhasse a massa corporal e toda a sua potência num preto retinto e total, tornar-se-ia declaradamente ameaçadora e orgasmo dos tontos queridos, ligeiramente sinistros, que a tentam colar a ideologias nada recomendáveis. Comprometeria desta forma a capacidade e a possibilidade de gerir como gere a barraca europeia, eventualmente erguendo memórias de um passado recente e medonho. O modo sobranceiro como trata Lagrade, que se comporta como serviçal irrepreensivelmente chic, tornar-se-ia demasiado visível e destruiria, logo à superfície, a imagem de sintonia que as duas constroem, se preso na lapela internacional do Chanel da presidente do Fundo.

Já a menina da imagem poderia, mesmo sendo apenas Presidente da Junta de uma freguesia a extinguir, dominar com relativa facilidade grande parte da Europa a partir do seu pequeno e mimoso Ipad protegido a negro.

 

A cor é uma arma inteligente. Há que reconhecer e repensar o uso que lhe damos, até porque, por muito que se enfarpele de tonalidades pastel, o futuro é de um preto comprometido, difícil de lavar, porque desbota.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe e Moby Dick

rabiscado pela Gaffe, em 16.12.15

Uma rapariga esperta gosta de sonhar com valorosos marinheiros perdidos nos ventos desastrosos da sorte, arrogantemente desafiadores do perigo e de olhos repletos de enigmas, dignos descendentes do destemido herói de Herman Melville.

Nem todos correspondem a estes parâmetros de exigência, mas os sonhos das raparigas podem ser implacáveis e corroer com facilidade a corda que prende os homens à ilusão de as ter.

Apesar de tudo, somos condescendentes. Não exigimos um universo romanesco formado por ventos sem bússola, mastros de absoluta segurança e velas desfraldadas a desfazer as nuvens, mas, recordem, rapazes, que convidar-nos para jantar e passar a noite a falar das quedas da bolsa ou de remates falhados nos intestinos das finanças, não vos vai ajudar em nada a navegar, mesmo à bolina.

Procurem trazer no olhar o cintilar capaz de esmorecer a luz das velas e tenham consciência que a crueldade bolsista, ou a das bolsas do quotidiano cru, vos vai apagando a chama da aventura - mesmo a da ilusão -, mais tonta e pateta ou mais ousada e destemida, mas essencial para iluminar faróis.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe de lanterna

rabiscado pela Gaffe, em 15.12.15

Aladino.jpg

A Gaffe sempre considerou Pinóquio a sua história favorita – não é todos os dias que se encontram mentiras capazes de nos agradar imenso -, até encontrar este Aladino com ar de quem nos tira o tapete e nos atira para o chão; de quem consegue esfregar a lâmpada até dela soltar o génio que há em toda a rapariga esperta que não precisa de fadas para perder os sapatos e que ansiosa aguarda o bater da meia-noite para finalmente ficar sem vestido.

aladino2.jpg

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe com patê

rabiscado pela Gaffe, em 14.12.15

Phaté Duarte.gif

Felipe Pathé Duarte, para além de um rapaz bastante interessante, é Doutor em Ciência Política e Relações Internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Foi investigador visitante na Universidade de Oxford - Saint Antony’s College - e no Center for Strategic and International Studies - Homeland Security and Counterterrorism Program -, em Washington DC. É investigador integrado no Instituto de Direito Penal e Ciências Criminais da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e investigador associado no Centro de Investigação e Desenvolvimento sobre Direito & Sociedade – Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e no Centro de Investigação do Instituto de Estudos Políticos – Universidade Católica Portuguesa.

 

Um currículo esmagador.

 

A Gaffe não entende a antipatia que sente por este menino. Uma coisa inexplicável.

Todas as vezes que surge, a entortar ligeiramente a boca, com um allure que nos aproxima do cliché do tradicional professor universitário inglês, a Gaffe fica irritada e não consegue acreditar em nada que o rapagão diz usando uma velocidade digna de um TGV.

Maliciosamente, insidiosamente, malevolamente, a Gaffe suspeita tudo o que Felipe Pathé Duarte diz, muito sôfrego e a um ritmo que sugere que tem de dizer tudo de uma vez, é inventado, porque sabe que ninguém depois de o ouvir disparar o demasiado que conhece acerca da porcaria do ISIS, vai levantar o rabinho do sofá para ir confirmar pessoalmente.

 

A Gaffe acredita piamente que este menino recebe toda a informação de fontes altamente fidedignas, mas não consegue deixar de sentir, enquanto vai deixando de o ouvir, que lhe apetece imenso mandar Filipe Pathé Duarte dar uma voltinha de lambreta pelo deserto.    

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe de 2015

rabiscado pela Gaffe, em 11.12.15

2015.gif

 Esta menina já escolheu.

Esta menina é muito isabelina como já se tinha referido algures, mas há que aplaudir todas as escolhas.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe musicada

rabiscado pela Gaffe, em 11.12.15

chet baker.jpg

A minha Neurótika preferida decidiu colocar-me numa posição embaraçosa, desafiando-me a satisfazer a sua curiosidade. Não posso passar despercebida, embora reconheça que não sou grande ouvinte e que todas as melodias que ouço são sempre oferta de um Amigo que percebe que apesar de deslumbrante sou surda como uma porta.

 

1 - Qual é a música que descreve melhor o teu estado de espírito? Porquê?

Porque a saudade que vem devagarinho com a primeira luzinha da manhã está exactamente aqui.

 

2 - Preferes pop ou rock?

Eu é mais bolos.

 

3 - Que música te faz lembrar o amor?

Deveria responder aquela que ouço nos gestos das mãos dele, mas não será isso que se pretende. Posso sempre substituir a frase por esta versão do meu amor.

 

4 - Que música te faz dançar?

Danço ao som de tantas vozes, mas não consigo resistir quando surgem todas juntas.

 

5 - Qual é a música que te acalma?

O som da chuva e o de um coração.

 

6 - Qual é a melhor música para ouvir pela manhã?

Os tambores que chegam nas nuvens das promessas.

 

Vou pedir à  prendadíssima Maria Araújo e a minha querida Paula  - que me acompanham sempre nos passeios por estas Avenidas -  e a incontornável MJ, que me digam:

 

Qual a música que escolheriam para banda sonora deste e dos respectivos blogs?

 

Na foto - Chet Baker & Donyale Luna por William Claxton

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

Pág. 1/2



foto do autor




  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD