Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe selvagem

rabiscado pela Gaffe, em 01.12.15

1.1.gif

A Gaffe acredita que existe em determinados homens um apelo sensual fortíssimo que tem origem numa animalidade latente, numa irracionalidade incomum encharcada de feromonas e numa brutalidade misturada com a ingenuidade da natureza em todo o seu esplendor. Normalmente não são bafejados pela inteligência, mas quem se importa com pormenores quando o tamanho do exterior nos faz esquecer a casca de noz no interior.

São homens que nos fazem tremer as pernas, arrepiar o cabelo, pestanejar de perplexidade comprometida e gulosa e outras pequenas miudezas que não se dizem aqui por ser verdade.

São brutamontes inocentes que fazem com que desejemos ser agarradas – Deus e o Demónio sabem como! - e que nos permitem adivinhar que seremos, tarde ou cedo, transformadas em testes de resistência de uma parede.

Uma desgraça muito pouco digna de uma feminista que se preze.

A única forma de lhes resistir é vendo-os a comer, metáfora para o modo como nos comem a nós.

 Arranca-nos a vida como quem morde um fruto depois de o partir ao meio. Lambuzam-se com a indiferença de quem acredita que está sozinho e que sucumbir à boca da inevitabilidade é uma das normas inscritas no mapa do nosso destino.

1.2.gif

Mastigam-nos com a brutal inocência dos puros primitivos. Nada neste triturar bestial é propositado, porque tem origem ancestral. É arquétipo este natural moer. Provém da pré-história, lugar pouco afastado deste nosso macaquinho que crê, sem dúvidas a sombrear o seu instinto, que sempre foi assim por tradição e nada salvará as chocas das touradas.

1.3.gif

Acabado o repasto, besunta-se com o que restou das nossos dias, porque nada há de mais atractivo, porque nada há de mais apelativo, do que aromas de mulheres impregnados no corpo de um predador inconsciente. A naturalidade com que o faz é a mesma com que esquece que existiu uma feminilidade esbardalhada.

1.4.gif

O modo como prepara nova investida, passa pelo apagar de réstias do passado nos cantos da boca ainda com memória.

 

São tão lindos!

 

São absolutamente animalescos e, no entanto, todas nós sabemos que um bichinho por muito selvagem que seja, acaba sempre a ronronar nos braços de uma rapariga esperta, com uma coleira de nuvens, uma trela extensível e um açaimo que apenas é usado para intimidar as rivais.   

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe enojada

rabiscado pela Gaffe, em 01.12.15

S..jpg

Há, ali no Douro, duas tasquinhas que distam uns bons kms da casa.  
Há uma que fecha nos dias do costume. A outra tem cheiro a coisa envelhecida e um homem sinistro, de camisa ao xadrez, avental encardido seguro por um gancho e um sorriso preso pelos cantos.

 

O discretíssimo beijo que o meu rapagão me pousa no ombro antes de me deixar - espero ali ao fundo, sim? -, não passa despercebido a um minúsculo carrapato de bigode fino, cabelo lambido, pele esverdeada, cigarro colado ao lábio e olhos de ratazana míope, sentado no escuro de um canto da vida, a jogar à bisca com mais três ou quatro. 

Entro e procuro um dos bancos demasiado altos próximos do balcão. As minhas pernas não se conseguirão encaixar de modo confortável no espaço exíguo, mas tudo é melhor do que o assento sebento das cadeiras.  
Aproximo-me e quando rodo o tampo do banquinho e me proponho pedir a água tentando evitar a todo o custo o olhar incómodo do homenzinho raquítico, sinto-me empurrada e ouço o nojento e esganiçado cigarrito sem filtro que numa referência à minha ousadia feminina que invade o espaço destinado aos homens espirra a idiotice costumeira.  
Olho para baixo. O bigodito sentado do hominídeo mal me chega ao umbigo. Um estalo meu e engole o tabaquito, mas aprendi com as mulheres bravas do Douro a repreender os cachopos ranhosos e mal-educados. Basta agarrar com força o cabelito que nasce na nuca e, presa uma pequena madeixa, puxar com força rumando em direcção ao céu onde as luzinhas de lancinante dor descem e invadem todos os sistemas, nervosos ou não. 
O homúnculo ganiu e depois de o largar resmungou baixinho trincando a beata apagada. 
Saí com a água e com as facas dos olhos dos homens cravadas nas costas.  


Ainda hoje não sei como retirar dos dedos a sensação de que toquei num verme.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:


foto do autor




  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD