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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e a "ecomommy"

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.16

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Não sou grande fã de bebés. Não é uma coisa bonita de se dizer, mas é a verdade.

Deitadinhos de costas, com os bracinhos no ar e a gemer de vez em quando, confesso que os prefiro passados uns bons 20/30 anos. Fazem praticamente a mesma coisa, com mais alguns extras que surpreendem, com a vantagem de não usarem fraldas nem nos vomitarem com tanta frequência.

 

Mas o que eu não suporto são as mamãs dos bebés! Sobretudo as modernaças.

Ontem estive com uma dessas. Casou com um rapagão podre de rico. Tão podre que já se nota no hálito. É muito ecológica. Aquilo é muito yoga, muita meditação, muito artesanato, muito Tibete, muito concerto para relaxamento do bebé, muita massagem pueril, muito contacto, muita apalpação, muita beringela.

Anda com umas porcarias ao peito feitas por ela, todas mal acabadas, quando podia perfeitamente furar-nos os olhos com um valente alfinete Dior. Toda artesanato, compra trapos nas lojas alternativas que cosem os tecidos com cordel e rematam as costuras com os dentes. Toda esguedelhada, com folhas secas, mortas, putrefactas, no cabelo, muito outonal, muito tom terra, muito planeta, muito budismo. Toda defensora dos golfinhos, dos mais giros e que até dão saltos, porque dos morcegos e das osgas haverá quem trate. Toda desbotada, toda esbardalhada, a debicar sementes importadas que sabem a papel e a papagaio, compradas numa loja muito vegan, mas que se alcança a pé e sempre a pé, não vão os gases destruir o vento.

 

Massajadora compulsiva das carnes do bebé ao som de sinos e demais sininhos, a criatura verde seco e terra, azul planeta, mostra o rebento amassado e triste.

- Quando é que te decides a escrever ao Pai-Natal a pedir um igual?! - Questão pertinente, tendo em conta que não os posso ter. 

- Só quando tiver o envelope que tu tens e for o teu marido a lamber o selo. - Respondo com pouco critério.

Meteu o miúdo na enrolada tira de tecido em batik tribal e, botas de couro com tiras atadas, desandou trombuda.

 

Sorrio ao seu amuo, colado no rabo roliço como um post-it amarelo, e suspiro de alegria só por saber que uso o Gmail.  

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A Gaffe intrigada

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.16

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De que são feitos os homens?

Os que nos querem e os que queremos realmente; aqueles que nos fazem indiferentes a qualquer libertação feminista, porque a deixam sem sentido, inútil e escusada; os que nos abraçam como se nos fizessem entrar em catedrais ou em cabanas onde as traves do tecto e do soalho são de madeira cortada, polida e cravada com a própria alma, que depois nos entregam para que a guardemos dentro do peito; os que nos trazem gargalhadas para casa, sonoras gargalhadas, trovejantes gargalhadas, e que não tremem quando trazem lágrimas; aqueles que nos dizem que não leram Pessoa, Eco, Proust ou Lobo Antunes, mas que nos desassossegam sempre que demoram, perdidos no tempo que buscam em nós, entrando tão depressa por essa noite escura, e que sabem de cor, de coração, os nomes de todas as rosas; os que dão nome aos nossos cães e atravessam temporais para os fazer correr atrás da chuva; os que não falam de amor, porque nos deixam acabar todas as frases; aqueles que nos abrigam quando há escuro e monstros dentro dos armários e se deixam recolher nos nossos braços depois do medo que sentem com um ranger de portas carcomidas.

 

Os que sabem que é a terra, a água e eu as três únicas claridades que conhecem.

 

De que são feitos os homens que nos amam?

 

Foto - Richard Prince, 1999

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A Gaffe de opereta

rabiscado pela Gaffe, em 28.01.16

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Reconheço que me afecta a prevista alteração do meu viver. O meu regresso a Paris - por birra ou mimo -, invocando o desconforto das obras por concluir, desgasta-me a solar luminosidade dos acordes dos meus dias e começa a provocar em mim a sensação de mergulho nas mais internas catacumbas da alma. Sinto-me a escorregar para dentro, como se o chão do meu sentir fosse de vidro ou gelo e o mover da minha vida um trôpego e incipiente patinador sem o deslumbre das melodias que o rodopiam.

 

Desço amiúde as escadas do sentir-me e não encontro no último degrau ninguém, a não ser eu, espectral, à espera. Em mim, cá dentro, há uma partitura de ópera com fantasma e no barroco corredor que desce, uma mulher que não sabe o que é crescer, porque saber e querer não vivem juntos.

 

Desço e diminuo, como se a descida alargasse o muro, reconstruísse a pauta, fazendo do que tomba apenas um corpúsculo, minúscula colcheia que se perdeu no ritmo.

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Gavetas:

A Gaffe dúbia

rabiscado pela Gaffe, em 28.01.16

Leni Riefenstahl 1998.jpg

A Gaffe ouve condenar as mulheres que têm duas caras.

Um disparate!

Não há nada errado em termos duas caras, desde que uma delas seja desumanamente bela.

 

Na foto - Leni Riefenstahl, 1998

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A Gaffe espantada

rabiscado pela Gaffe, em 27.01.16

Empire State Building, New York, c.1942 Photo by W

Hoje está sol. Prefiro o vento e a chuva que me arejam as noites. Mesmo de noite o sol faz suar. Suei toda a vida. A vida foi madrasta e sempre fui tratada como um trapo. Trapos são os velhos. Velhos são os trapos. Não uso trapos caros. Visto-me com simplicidade e aproveito tudo o que tenho até ao fio. Tenho um fio de ouro que herdei, mas que não posso usar, porque tenho medo que me julguem rica. Ricas são aquelas que chuparam o sangue dos que se esforçaram. Fazer esforços faz-me mal, que sou doente. Há doenças que nos apanham sem contarmos. Eu conto o dinheiro que gasto e sei que não chega para grandes festas. As festas das ricas afrontam os desgraçados. É uma desgraça o que a vizinha faz aos bichos. Há animais que são melhores que os donos. A dona da tasca é uma galdéria. Galdéria é também a vizinha que diz palavrões a toda a hora. As horas que passo a roer os ossos, não lhes vejo fim. O fim está próximo e todas morremos. Morremos sem nada e deixamos tudo. Tudo o que temos são umas cuecas honestas e por estrear e o dia-a-dia. No dia-a-dia temos de ser como o vento que nos levanta as saias, mesmo quando usamos uns saiotes fortes. Fortes são os comprimidos que deixei de tomar e que me acalmavam. A calma faz falta e ajuda a ter paz. Nunca tenho paz, porque todos me odeiam e acham que sou gorda. Gordas são as ricas, mesmo as mais fininhas. O fino que bebi na tasca do lado fez-me azia. A Ásia vai mal e há terrorismo. O terror é o mal nos meus tornozelos desde que incharam. Não incho porque sou humilde e sei que sou pouco. O pouco que sou é melhor que o muito daquelas flausinas que se acham boas. Boas verdadeiras são as que se dedicam a causas que valem a pena. Pena é que não olhem para mim porque viam como sou talentosa e muito esperta. Esperta como um rato. Os ratos são nojentos e prefiro gatos. Os gatos são livres e só ligam à casa. A casa da vizinha é uma pocilga. Há pocilgas que estão mais limpas do que a casa da outra. A outra não comenta aquilo que faço. Faço tanta coisa e ela não vê como sou bondosa. A bondade é boa. Boa como milho. O milho são as pérolas das porcas. Porcas? Ai! que lhe vou ao focinho que a mulher já me insultou!

Hoje faz sol e eu sou insultada!  

 

Há gente que vive assim!      

 

Fotografia - Weegee (Empire State Building, NY, 1942) 

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A Gaffe e uma moeda

rabiscado pela Gaffe, em 27.01.16

As raparigas estão sentadas lado a lado.

A diferença de idades é irrisória.

Possuem o mesmo tipo físico. Os genes aproximaram-nas, fornecendo a ambas a estatura alta e corpulenta, cabelos longos e aloirados, mãos de gigante, maciças, quase brutas e a amplitude dos rostos, claros e serenos.

Comportam-se da mesma forma, indiferentes a tudo o que não passa pelos aparelhos que ligaram aos ouvidos e barraram as hipóteses de comunicar, a não ser quando sentem o vibrar curto dos telemóveis caros. Nessas alturas, retiram os fios que as ligam ao som dos aparelhos e substituem-nos pelo objecto preto por onde vagamente se faz notar a voz que as quer ouvir.

 

Uma delas não tem história.

 

Usa, ao contrário da outra, que a prendeu com um gancho banal no cimo da cabeça, uma repa que lhe esconde os olhos. Os lábios carnudos, apagados, e a lentidão do gesto que torna nítido o peso de cada movimento. Baça, passa despercebida.

A outra, de madeixa presa por um gancho no cimo da cabeça, mostra as insolentes sobrancelhas em arco definidas e nos olhos percebem-se desafios ainda desbravados, incipientes ou por aceitar. Tem a boca ligeiramente maior e mais desenhada. É fácil mostrar desdém com bocas assim recortadas. Basta uma inclinação ou um breve empurrar dos lábios que de súbito se fecham com mais força e dispara o desprezo.

 

As duas, lado a lado, são idênticas e, no entanto, se a vida as ferir ao mesmo tempo, sei que apenas uma delas se tornará maior do que a chaga. A Dor acabrunhará apenas uma. Cuidará da ferida aberta com desvelo e haverá lamentos e choro interminável. A outra, a de insolentes sobrancelhas, agarrará os cornos do que vem e a cicatriz que depois ficar do embate será adicionada a uma história imperceptível que produz o indizível fascínio das mulheres que subitamente domaram o que na dor restou.

 

Talvez seja este um dos mais intrigantes mistérios da Beleza. Se quando em nós a Dor sentida se traduz em história que desbrava histórias nos que subitamente a olham, então no bicho pardo, lamacento e nulo em que se abriu a ferida, cresce a estranheza de o reconhecermos Belo.

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A Gaffe poderosa

rabiscado pela Gaffe, em 26.01.16

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A ausência da minha irmã faz de mim uma espécie estranha de testa de ferro ou uma variante absurda de escudo humano.
Quando há uma alteração - por demais minúscula - a qualquer decisão por ela tomada, correm os rapazes e, reverentes, recolhem a minha mais leiga opinião e a minha mais inútil anuência. Desse modo poderão sempre pousar amavelmente as culpas da eventual asneira na idiota da mana, na irresponsável concordância da ruiva ao serviço de Sua Majestade.
Não que me incomode. Apesar de me cansar e ocupar em demasia, sei que todas as correcções são competentes e certeiras ou obedecem a normas previamente estabelecidas.  

Retenho, aparentemente, e só nestes momentos, a capacidade de decidir se está correcto um traço, se vale o esforço um risco, se é viável um rabisco, se não entra em colapso e em colisão com o inicialmente previsto, se rompe com o sonhado uma alteração de última hora a uma sentença erguida pela minha irmã.


No entanto, descubro que o poder não é, como é boato, afrodisíaco!


Hoje entrou aqui o mais belo rapaz que por estes corredores rodopia solto.

 

Tem olhos oblíquos e escuros e um riso branco e cristalino que faz esmagar completamente os guinchos desequilibrados e atolambados que, de quando em vez, vão tentando assombrar-me a vida.
Tem um torso largo de gravata louca, coxas retesadas, grossas e gulosas e um rabo divino preso e asfixiado.

 

Rodeou, conversou, solicitou, cercou, circundou, circulou, chamou, convidou, torneou, poliu e contornou, só para obter o meu sim relativo à modificação de um pormenor idiota na decisão que lhe deixaram agarrada ao colo.
Estava disposto a lutar por aquilo! Custe o que custar, tenha de dar o que tiver de ser.
Levanta-se descontraído e leve, distraído e fresco, ignorando que a braguilha sorrateira sorria na declaração de intenções.

O poder deixa-me nervosa e demasiado céptica em relação ao desejo que brilha nos olhos mais oblíquos.
Quero ser cortejada apenas porque existo e sem o menor rasto de razões mais fortes.


Disse que NÃO.

A tudo.

 

Fotografia - Geof Kern

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A Gaffe e as Fashion Trends

rabiscado pela Gaffe, em 26.01.16

Sou informada que aquilo a que os especialistas chamam Fashion Trends - para os mais pindéricos, tendências de moda -, não passa basicamente de uma operação relativamente complicada que reúne instruções de algumas fontes, nomeadamente sociológicas, antropológicas, societais, sociais e sobretudo industrias, que orientam e manipulam de forma inteligente a população que querem tornar alvo.

 

Não me canso a desenvolver o assunto, apesar de me parecer bastante interessante tentar compreender, todos os anos e em quase todas as estações, para que lado vira o vento e qual a tralha em stock que se é obrigado a impingir, custe o que custar, usem-se as armas que forem necessárias.

Seria reconfortante compreender, por exemplo, como é que a paleta aqui apresentada reúne as cores imprescindíveis a quem se quer usável e visível. Reconfortante, mas não imprescindível, que nestas coisas muitas vezes a inteligência está adormecida nos domínios aveludados e fofinhos das mentes criativas. 

 

 

Acontece que, para lá das colorações, há, acompanhando-as, agrupados de linhas, formas, inspirações, geometrias, volumes e mais uma parafernália de conceitos que são traçados para conjugar o que parece evidente ao especialista e que transforma em bois aqueles que olham para estes palácios.

Determinada cor, em determinada estação, servirá determinada tendência a que atribuem um nome, simples ou rebuscado, mas sempre coadjuvante. O verde-macieira - o nome da cor é de importância capital e quanto mais indecifrável, melhor - estará portanto apenso à orchard-trend, por exemplo.

 

O interessante é que estas malabaristas operações trazem incomodativas constantes no seio de tanta inventividade.

Cada um destes grupos, quase sempre quatro, serve tipos bem definidos de consumidores. Assim, uma mulher cuja profissão a obriga a permanecer na direcção executiva de uma Empresa, tem um nicho, uma tendência, um quadro, um universo, especialmente pensado para a servir e a fazer consumir e que é naturalmente diferente daquele que a vizinha, artista plástica, ligeiramente tresloucada, com alguma propensão para fumar o que tolda o papagaio e faz tombar o gato.

Há sempre, e mais uma vez como exemplo, uma vertente étnica nesta aparente variedade bianual. Padrões inspirados nos usados pelas quenianas, formas desenhadas pelas nigerianas, acessórios baseados nos habitualmente pendentes nas raparigas de uma ilha qualquer da Indonésia ou volumes antárcticos que nos lembram o gelo de Amundsen.

 

Sejamos práticas! Exageremos.

Ficaremos definitivamente fashion, estaremos sem sombra de dúvida a seguir uma das propostas, seja em qualquer ano ou estação, se surripiarmos o colar que aqui vos mostro. É de uma tribo qualquer - nestas coisas com glamour deixa de interessar o nome da origem - e é suficientemente grande e majestoso para que nenhum fashion adviser coloque hesitação ou torça no que quer que seja.

É evidente que, para o usar com alguma elegância, temos de ter mais de 1.80 de esqueleto ou tropeçamos nas contas e nunca, mas nunca, ousar colocar este colosso sobre as túnicas de Cesária Évora ou sobre os sacos de serapilheira usados pela Dulce Pontes

.

Temos, apesar de tudo, de ser comedidas e evitar internamentos compulsivos.

 

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A Gaffe bailando

rabiscado pela Gaffe, em 25.01.16

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A Gaffe sente-se uma debutante que aguarda o início da valsa para rodopiar nos braços do presidente eleito príncipe do baile.

Confessa o nervosismo que se vai agravando por saber que a todo o instante no meio de Strauss pode irromper um fox trot trepidante, um tango de tanga, ou mesmo a marcha fúnebre, mas acredita que a saída do palácio das duas vassouras de piaçabas rígidos e hirtos que durante dez anos o varreram, os foguetes e o fogo de artifícios vão disfarçar a perda do último sapato que nos resta.

 

A Gaffe espera bailar o tempo que durar o principado, até entrar já experiente, depois de uma década a viver de rodopios, no baile a inaugurar por Paulo Portas.

 

Ilustração - Wilkenfeld

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A Gaffe eleitora

rabiscado pela Gaffe, em 24.01.16

voto.JPGJá foram votar?

A Gaffe espera que não se esqueçam que o único voto útil que existe é apenas o que reflecte o que acreditamos e que nos aproxima daqueles que podem representar o que, estamos seguros, deve ser defendido.

A outra utilidade apenas nos prova que partimos do princípio que seremos sempre derrotados e que é a resignação que escolhe trocar as nossas convicções pelo medíocre do mal, o menos.

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A Gaffe num abandono

rabiscado pela Gaffe, em 22.01.16

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Encostamos o corpo à parede. Deixamo-nos cair. Depois esperamos que anoiteça.

Ficamos com os olhos abertos até sentir agulhas em brasa na retina. Até sentir a água apagar os incêndios nos olhos. Ficamos com frio. Com muito frio. Até sentirmos o corpo tremer. Até sentirmos os dedos roxos. Até ficarmos sem força para segurar a cabeça.

Depois deitamo-nos.

 

Abandono é isto: atravessar a noite de olhos abertos até queimar as retinas e tiritar de frio, fingindo que não se chora de desgosto e que não se treme de medo.

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A Gaffe subvencionada

rabiscado pela Gaffe, em 21.01.16

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Rosa Albernaz é, por descuido próprio, o rosto das subvenções.

A Gaffe considera uma injustiça arrasar as costas da discreta senhora com um fardo destes.

 

Rosa Albernaz sempre foi uma criatura abnegada. Durante décadas cedeu lugar aos companheiros de jornada parlamentar, mantendo-se a um canto, discreto, sossegado, longe da ribalta, quando, caso afastada do bulício do Parlamento, poderia com grandeza ser uma das figuras femininas a ter em conta pela Forbes ou pela Times.

O brilhantismo de Rosa Albernaz foi emudecido pela sua capacidade de nos fazer mudar de canal quando subia ao púlpito. Conhecedora deste facto, Rosa Albernaz encarou o Parlamento como um lugar de meditação conventual, entregando-se muitas vezes a um silêncio digno dos mártires, dos desprendidos ou mesmo das santas incensadas de moral.

Detentora de uma lógica inatacável, de um sentido de justiça inigualável e de um incorruptível compromisso com a Constituição, Rosa Albernaz declara - vamos ser básicas – que se o salário mínimo aumenta 30€, depois de se ter reunido a CIP, a CGTP, o Conselho de Estado, a UGT, as associações de moradores, o condomínio, o Circo Chen, a Autoridade para a Concorrência, a TVI, a Teresa Guilherme, o falecido Ballet Gulbenkian e outros que tais que não convém referir por secretismo - deixando ofendidíssimas as entidades que não receberam convite -, os deputados podem e devem ser tratados de forma igual. Está no livrinho.

- Ou há moral ou mamam todos – sussurra ao microfone a desvergonha.

 

A Gaffe reconhece que se a reforma do Presidente da República mal chega para as despesas, as despesas de uma deputada portuguesa, cinco vezes abaixo das europeias - essas invejosas -, obrigam a uma reforma que se veja.

 

Dizem à Gaffe que as subvenções são uma obrigação constitucional. A Gaffe franze as ruivas sobrancelhas e suspeita que o caso, não padecendo de maleita legal, é apesar disso, um transtorno do foro ortopédico. Trata-se de um problema de coluna.

 

Ilustração - Diana Dementeva

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A Gaffe jogadora

rabiscado pela Gaffe, em 20.01.16

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A Gaffe fez uma aposta.

 

David Cameron, Primeiro-Ministro de Sua Majestade Betty II, decidiu propor que sejam deportadas todas as muçulmanas a residir em Inglaterra que não aprendam inglês custe o que custar e rapidinho. Dos muçulmanos não há notícia. São as burkas e os véus não poliglotas que causam transtorno.

 

Por um lado, a Gaffe considera uma medida ajuizada que António Costa deveria adoptar, deportando a inglesada vestida de hippie que no Algarve a viver há mais de vinte anos, vai sobrelotando a lota à procura de feishe  - única palavra portuguesa que conseguem pronunciar. Muniam-se os algarvios de paus com pregos na ponta para empurrar esta gentinha suspeita que os obriga a falar como o Zezé Camarinha e a esbardalhar nos menus fevers, a tradução das suas boas fêveras.

 

Por outro lado, a adopção desta medida pelo governo português, para além de implicar a deportação da senhora Directora do Museu de Serralves - que dá entrevistas em inglês para português ver, porque a única palavra portuguesa que conhece é exactamente Saurrrrauva -, obrigaria a uma requisição de transatlânticos, submarinos e paquetes de luxo, despesa incomportável nesta conjuntura.

 

Por um lado, sim. Por outro lado, não.

 

A Gaffe ganhou a aposta! Conseguiu imitar Marcelo Rebelo de Sousa.   

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A Gaffe criticada

rabiscado pela Gaffe, em 20.01.16

Acabo de viver uma experiência que jamais sonhei poder acontecer!

 

Os meus primeiros quinze minutos da manhã são passados num pequeno e agradável café, com imensa gente sossegada espalhada pelas mesas ainda sonolentas. Leio as notícias e consulto a minha agenda, atrasando o acordar.

Normalmente as mesas estão todas ocupadas e há pouco espaço, mas é um lugarzinho acolhedor e muito pouco ruidoso apesar disso.

A única mesa disponível era a que se encontra quase colada à minha. Um par de belíssimas velhotas simpáticas e matinais tinha-a desocupado depois de ter beberricado um chá e mordiscado uma torrada.

O jovem casal entrou e sentou-se. Ficaram de costas para mim. Ele, um yuppie vagamente ultrapassado, de fato apertado, azul nocturno, gravata regimental e sapatos bicudos. Ela, loiríssima, a arrastar a asa para o platinado, bonita, barulhenta.

A proximidade fez com que visse o monitor do rectângulo digital preso nas unhas nacaradas da rapariga. Tocava no ecrã com a perícia de um indicador treinado e de mindinho erguido.

 

Foi inevitável ver o que o que ela via.

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A Gaffe e as Avenidas ocupava o ecrã e o dedo atentíssimo da menina.

Os brincos, dois mochos de pechisbeque, baloiçavam escandalizados perante a desfaçatez que era lida e a irritação provocada pelos posts ruivos disparou no momento da cotovelada nos rins do rapazinho.

- Não entendo como gostas desta tipa!

O homem encolheu os ombros, olhou de soslaio as Avenidas que a companheira de infortúnio percorria e sem qualquer entusiasmo espalhou na mesa:

- Não gosto. Acho piada.

- O que ela precisa sei eu. – Roncou a candidata a platinada.

- Se calhar é do que tu tens a mais. – Insinua o yuppie mal disposto, afagando a testa com os dedos.

Atrás deles, à distância de um voltar de cabeça, está a tipa que merece o desdém irritado daquela mulher e que desperta um vago interesse no homem que não morre de amor pelo que lê. Perdi-me por completo a saborear a delícia extraordinária de me sentir olhada sem que o observador desse disso conta. Experimentei, naquele instante, o sabor que a Gaffe tem e dei conta da possibilidade que, embora irrelevante e muito ténue, um blog tonto tem de irritar projectos de platinadas que sabem, com a certeza que é construída pela experiência, que aquilo que preciso é o que esbanjam à toa e em todo o lado e de provocar um qualquer sorriso pouco empático num homem de sapatos bicudos, vítima dos dispersos exageros que a companheira pensa que me faltam.

 

Foi uma delícia sentir a Gaffe manuseada por estranhos!

 

Nota - Aproveito a oportunidade, pois decerto me lerá, para lhe sugerir, minha cara, que troque de brincos. Os mochos de pechisbeque abanavam demasiado e ameaçavam soltar-se do poleiro e a si, querido leitor que me acha piada, devo aconselhar o abandono definitivo das peúgas camufladas em tons de verde tropa.

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A Gaffe ferroviária

rabiscado pela Gaffe, em 19.01.16

Creio que os únicos homens que entendem vagamente o que as mulheres pensam, são os gays e o meu cabeleireiro.

 

Não é de todo desprestigiante, humilhante ou redutor, quer para o masculino orgulho, quer para os fabulosos e divertidos tontos que conheço e que acabo por considerar amigos do peito - ou dos peitos - mesmo sabendo que tendem a apreciar os objectos de desejo que são meus. Não é sequer desagradável para aquele fantástico e famoso cabeleireiro assexuado que consegue perceber e descodificar o tom do meu cabelo, tocando-lhe e depois lambendo, de forma um bocadinho nojenta, admito, a ponta dos dedos.  

 

Os homens desconhecem por completo o que realmente atravessa o cérebro das mulheres.

 

Por muito que jocosamente joguem com alvitres brejeiros, não fazem sequer a mínima ideia da razão que leva as raparigas à casa de banho sempre aos pares e desconhecem em absoluto o motivo que transforma, em segundos, a nossa maior amiga numa ameaça biológica ou porque nos apaixonamos pelo cinquentão professor de Linguística, quando à nossa porta bate o recordista olímpico -100 metros barreiras - ou um nadador de alta competição.

 

Somos um mistério. Um enigma perene que gostamos de manter com a indiferença que nos caracteriza em relação às mais rebuscadas explicações masculinas. Mantemos esse poder de uma forma eficiente e eficaz, porque não pensamos em como o alimentar ou conservar vivo. Sabemos que os homens, façam o que fizerem, não entenderão jamais as nossas mais ínvias e esconsas, simples e banais das reacções.

Esta perversa incapacidade masculina não é susceptível de despertar em nós qualquer motivação para a colmatar ou remediar. Usamo-la em nosso proveito, com um maquiavélico prazer quase inconsciente. Somos uma espécie de locomotiva que em alta velocidade passa e provoca a incredulidade e a perplexidade no homem que espera apenas ver surgir o comboio regional, aquele que encalha em todas as estações e apeadeiros previsíveis, envolto em vapores do XIX, espartilhado e depois laçado por mimosas e delicadas fitas.

Se a máquina parar e abrir as portas, pode permitir que o homem entre, atraído pela força que provoca, mas, mesmo assim, ficará sem perceber o porquê desta paragem inopinada e a desconhecer completamente as manivelas, os sinais, os manípulos, os símbolos, os trilhos, as marcas e os botões que são accionados e que a fazem retomar a sua marcha.

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