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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num adeus nomeável

rabiscado pela Gaffe, em 06.01.16

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How lucky I am to have something that makes saying goodbye so hard.

A. A. Milne - Winnie the Pooh

 

A manhã gelada.

Há uma névoa escura a subir escadas que vai toldar a luz que mal nasceu.

Ouvem-se os ruídos comuns a todas as partidas.

Que tudo está em ordem, que não se fecharam as janelas de cima; que não se esqueçam do guardar os livros que foram preteridos aquando da remessa dos objectos; que os quartos maiores devem ser todos os dias bem arejados; que os jardins ninguém lhes toque que cuidará deles o João; que lhe obedeçam; que aos relógios é sempre de dar corda.
Os carros já chegaram. A minha irmã levará os pais e eu terei o meu irmão só para mim.

Procuram apressar o meu lentíssimo adeus que repisa o olhar por todo o canto.


- Tens frio? - Digo que sim e subo para trazer o xaile antigo e regravar memória.

Perfilam-se os homens e as mulheres ao fundo da alameda onde curvamos encaminhando o carro para a saída que nunca ninguém viu até agora como um portal de adeus.

 

O carro já na curva está parado. Os homens cegam as mãos. As mulheres de mãos em cruz sobre os regaços. Abraço os velhos e chama-os pelos nomes. Domingos. Àlvaro. José. António. Joaquim. Como se os abraços fossem baptizados.

Outros. Mais quatro ou cinco que me dói ouvir.

As mulheres são poucas que elas choramingam e neste adeus não há lugar para o choro.


Por entre as saias e lenços sobre os ombros, a minha velha, velha, velha amiga, a que ficou para mim, sempre à minha espera, espera de mãos guardadas nas grutas do avental. Tem pedras na garganta.

É a última da fila.

- A menina volta?

Eu parada, de olhos líquidos. Um vento frio deu-me lágrimas.

Ela insiste:

- A menina volta?

Tiro-lhe as mãos dos bolsos do avental, inclino-me e beija uma. E depois outra. Eu sei que não e digo :

-  A tua menina nunca sai daqui.

E ao entrar no carro olho-a e repito o que talvez só eu agora entenda e mais ninguém:

 

- Há um adeus, minha querida, que faz da nudez da alma uma caverna. Outro há que dela faz um céu aberto, mas é o nosso último adeus o que tem o rosto da inocência. É o único que não se dissipa no escuro.

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