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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe altamente qualificada

rabiscado pela Gaffe, em 18.01.16

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Causa-me alguma perplexidade ouvir a toda a hora lamentar o êxodo da geração mais qualificada que foi parida em Portugal.

Não porque não lamente a necessidade de emigrar dos moçoilos e das moçoilas que se esbardalham contra a completa ineficácia de quem traça directa ou indirectamente parte dos seus destinos. Incomoda-me, isso sim, o modo como se caracteriza esta geração.

 

A geração altamente qualificada é entrevistada a cada passo e refere do alto das suas adjectivações que não vai votar nas presidenciais porque desconhece os candidatos, que não sabe quem é Paula Rego, porque não é de cá, mora na outra margem; que estuda anatomia dez horas por dia e que não está para se incomodar com aquele que viu uma ou duas vezes na TV e que provavelmente será o futuro Presidente da República; que diz prontus, a queima é para o desbunde; que nos atira à cara um sonoro a gente vamos às urnas quando morremos; que escreve o verbo haver sem vestígios de h, atrevendo-se a dizer quando corrigida que foi por engano ou por cansaço; que acredita que Camões é uma daquelas coisas de Pessoa e que Pessoa era um ardina que até tem uma estátua sentada; que desata a rir quando ouve referir A Montanha Mágica, por pensar que falamos da Feira Popular e que, depois de muito mais que não se diz por se ter vergonha, se despede com um fica bem desatando a cuspir promessas de banalidade nas ruas do nosso descontentamento.

 

É curiosa a confusão que se faz entre licenciado e qualificado. Portugal produziu nas últimas décadas um orgulhoso número de licenciados. O sistema de ensino enfiou uma quantidade avantajada de jovens em funis específicos, empurrou a carne amontoada e, conforme a cor do curso, a cor do funil, soltou um fio amorfo de engenheiros civis, engenheiros informáticos, engenheiros mecânicos, engenheiros seja do que for, enfermeiros, médicos, físicos, químicos, assistentes sociais, advogados, gestores, programadores e mais que aqui não lembra, que estudaram dez horas por dia um manual próprio ficando sem tempo para Thomas Mann. Licenciou-os, mas é discutível afirmar que os qualificou. Uma das componentes essenciais requerida por uma real qualificação é aquela que nos reporta ao entendimento global do que acontece, introduzindo nas licenciaturas uma visão humanista, uma abrangência do fenómeno vida, uma capacidade de comprometimento, de participação activa na acção de a melhorar. Infelizmente, o que permite uma, digamos para simplificar, atitude mais filosófica, ou se quisermos mais musical, perante a vida, não existe ou foi de tal modo menosprezada, tida como inútil e sem qualquer perspectiva de saída profissional, que acabou banida da área do conhecimento e do saber destes licenciados que se não passaram a ignorar por completo as chamadas Humanidades, as olham de binóculos como coisa bizarra avistada por uma curiosidade sobranceira, mas de interesse nulo ou não rentável. 

                         

Desatamos aos pinchos e aos gritos perante o sucesso internacional de um destes poucos jovens portugueses realmente qualificados - conheci um que lia Thomas Mann para tentar complementar o seu estudo na área das neurociências, outro que lia sucessivamente Crime e Castigo, porque entendia que Dostoiévski o ajudaria a compreender um paciente e ainda outro que acreditava que Bosh era um dos precursores da psicanálise e que tentava comprovar a sua tese perante a comunidade internacional de psiquiatria - e inchamos de orgulho patético e parolo, como se o triunfo de um deles fosse a coroa de louros da multidão que emigrou, como se a embaixada do país onde o jovem brilhou viesse no dia seguinte tocar-nos à campainha para nos dar os parabéns. Esquecemo-nos que ao lado de um português triunfante existe, sem notícia pomposa, dois russos, três alemães, quatro japoneses, sete polacos e dezenas e dezenas de outros portentos oriundos dos quatro cantos do mundo e que, sem eles, muito provavelmente não haveria a notícia do português na TVI.

 

Somos licenciados na pequenez direccionada para determinados objectivos demasiado concretos. Temos pequenos fins altamente definidos. Falta qualificarmo-nos para a interdisciplinaridade de modo a que deixemos de confundir um canudo, mesmo emigrado, com o canavial por inteiro. 

 

Foto - John Vink

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