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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe poderosa

rabiscado pela Gaffe, em 26.01.16

Geof Kern.jpg

A ausência da minha irmã faz de mim uma espécie estranha de testa de ferro ou uma variante absurda de escudo humano.
Quando há uma alteração - por demais minúscula - a qualquer decisão por ela tomada, correm os rapazes e, reverentes, recolhem a minha mais leiga opinião e a minha mais inútil anuência. Desse modo poderão sempre pousar amavelmente as culpas da eventual asneira na idiota da mana, na irresponsável concordância da ruiva ao serviço de Sua Majestade.
Não que me incomode. Apesar de me cansar e ocupar em demasia, sei que todas as correcções são competentes e certeiras ou obedecem a normas previamente estabelecidas.  

Retenho, aparentemente, e só nestes momentos, a capacidade de decidir se está correcto um traço, se vale o esforço um risco, se é viável um rabisco, se não entra em colapso e em colisão com o inicialmente previsto, se rompe com o sonhado uma alteração de última hora a uma sentença erguida pela minha irmã.


No entanto, descubro que o poder não é, como é boato, afrodisíaco!


Hoje entrou aqui o mais belo rapaz que por estes corredores rodopia solto.

 

Tem olhos oblíquos e escuros e um riso branco e cristalino que faz esmagar completamente os guinchos desequilibrados e atolambados que, de quando em vez, vão tentando assombrar-me a vida.
Tem um torso largo de gravata louca, coxas retesadas, grossas e gulosas e um rabo divino preso e asfixiado.

 

Rodeou, conversou, solicitou, cercou, circundou, circulou, chamou, convidou, torneou, poliu e contornou, só para obter o meu sim relativo à modificação de um pormenor idiota na decisão que lhe deixaram agarrada ao colo.
Estava disposto a lutar por aquilo! Custe o que custar, tenha de dar o que tiver de ser.
Levanta-se descontraído e leve, distraído e fresco, ignorando que a braguilha sorrateira sorria na declaração de intenções.

O poder deixa-me nervosa e demasiado céptica em relação ao desejo que brilha nos olhos mais oblíquos.
Quero ser cortejada apenas porque existo e sem o menor rasto de razões mais fortes.


Disse que NÃO.

A tudo.

 

Fotografia - Geof Kern

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Gavetas:

A Gaffe e as Fashion Trends

rabiscado pela Gaffe, em 26.01.16

Sou informada que aquilo a que os especialistas chamam Fashion Trends - para os mais pindéricos, tendências de moda -, não passa basicamente de uma operação relativamente complicada que reúne instruções de algumas fontes, nomeadamente sociológicas, antropológicas, societais, sociais e sobretudo industrias, que orientam e manipulam de forma inteligente a população que querem tornar alvo.

 

Não me canso a desenvolver o assunto, apesar de me parecer bastante interessante tentar compreender, todos os anos e em quase todas as estações, para que lado vira o vento e qual a tralha em stock que se é obrigado a impingir, custe o que custar, usem-se as armas que forem necessárias.

Seria reconfortante compreender, por exemplo, como é que a paleta aqui apresentada reúne as cores imprescindíveis a quem se quer usável e visível. Reconfortante, mas não imprescindível, que nestas coisas muitas vezes a inteligência está adormecida nos domínios aveludados e fofinhos das mentes criativas. 

 

 

Acontece que, para lá das colorações, há, acompanhando-as, agrupados de linhas, formas, inspirações, geometrias, volumes e mais uma parafernália de conceitos que são traçados para conjugar o que parece evidente ao especialista e que transforma em bois aqueles que olham para estes palácios.

Determinada cor, em determinada estação, servirá determinada tendência a que atribuem um nome, simples ou rebuscado, mas sempre coadjuvante. O verde-macieira - o nome da cor é de importância capital e quanto mais indecifrável, melhor - estará portanto apenso à orchard-trend, por exemplo.

 

O interessante é que estas malabaristas operações trazem incomodativas constantes no seio de tanta inventividade.

Cada um destes grupos, quase sempre quatro, serve tipos bem definidos de consumidores. Assim, uma mulher cuja profissão a obriga a permanecer na direcção executiva de uma Empresa, tem um nicho, uma tendência, um quadro, um universo, especialmente pensado para a servir e a fazer consumir e que é naturalmente diferente daquele que a vizinha, artista plástica, ligeiramente tresloucada, com alguma propensão para fumar o que tolda o papagaio e faz tombar o gato.

Há sempre, e mais uma vez como exemplo, uma vertente étnica nesta aparente variedade bianual. Padrões inspirados nos usados pelas quenianas, formas desenhadas pelas nigerianas, acessórios baseados nos habitualmente pendentes nas raparigas de uma ilha qualquer da Indonésia ou volumes antárcticos que nos lembram o gelo de Amundsen.

 

Sejamos práticas! Exageremos.

Ficaremos definitivamente fashion, estaremos sem sombra de dúvida a seguir uma das propostas, seja em qualquer ano ou estação, se surripiarmos o colar que aqui vos mostro. É de uma tribo qualquer - nestas coisas com glamour deixa de interessar o nome da origem - e é suficientemente grande e majestoso para que nenhum fashion adviser coloque hesitação ou torça no que quer que seja.

É evidente que, para o usar com alguma elegância, temos de ter mais de 1.80 de esqueleto ou tropeçamos nas contas e nunca, mas nunca, ousar colocar este colosso sobre as túnicas de Cesária Évora ou sobre os sacos de serapilheira usados pela Dulce Pontes

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Temos, apesar de tudo, de ser comedidas e evitar internamentos compulsivos.

 

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