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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe espantada

rabiscado pela Gaffe, em 27.01.16

Empire State Building, New York, c.1942 Photo by W

Hoje está sol. Prefiro o vento e a chuva que me arejam as noites. Mesmo de noite o sol faz suar. Suei toda a vida. A vida foi madrasta e sempre fui tratada como um trapo. Trapos são os velhos. Velhos são os trapos. Não uso trapos caros. Visto-me com simplicidade e aproveito tudo o que tenho até ao fio. Tenho um fio de ouro que herdei, mas que não posso usar, porque tenho medo que me julguem rica. Ricas são aquelas que chuparam o sangue dos que se esforçaram. Fazer esforços faz-me mal, que sou doente. Há doenças que nos apanham sem contarmos. Eu conto o dinheiro que gasto e sei que não chega para grandes festas. As festas das ricas afrontam os desgraçados. É uma desgraça o que a vizinha faz aos bichos. Há animais que são melhores que os donos. A dona da tasca é uma galdéria. Galdéria é também a vizinha que diz palavrões a toda a hora. As horas que passo a roer os ossos, não lhes vejo fim. O fim está próximo e todas morremos. Morremos sem nada e deixamos tudo. Tudo o que temos são umas cuecas honestas e por estrear e o dia-a-dia. No dia-a-dia temos de ser como o vento que nos levanta as saias, mesmo quando usamos uns saiotes fortes. Fortes são os comprimidos que deixei de tomar e que me acalmavam. A calma faz falta e ajuda a ter paz. Nunca tenho paz, porque todos me odeiam e acham que sou gorda. Gordas são as ricas, mesmo as mais fininhas. O fino que bebi na tasca do lado fez-me azia. A Ásia vai mal e há terrorismo. O terror é o mal nos meus tornozelos desde que incharam. Não incho porque sou humilde e sei que sou pouco. O pouco que sou é melhor que o muito daquelas flausinas que se acham boas. Boas verdadeiras são as que se dedicam a causas que valem a pena. Pena é que não olhem para mim porque viam como sou talentosa e muito esperta. Esperta como um rato. Os ratos são nojentos e prefiro gatos. Os gatos são livres e só ligam à casa. A casa da vizinha é uma pocilga. Há pocilgas que estão mais limpas do que a casa da outra. A outra não comenta aquilo que faço. Faço tanta coisa e ela não vê como sou bondosa. A bondade é boa. Boa como milho. O milho são as pérolas das porcas. Porcas? Ai! que lhe vou ao focinho que a mulher já me insultou!

Hoje faz sol e eu sou insultada!  

 

Há gente que vive assim!      

 

Fotografia - Weegee (Empire State Building, NY, 1942) 

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A Gaffe e uma moeda

rabiscado pela Gaffe, em 27.01.16

As raparigas estão sentadas lado a lado.

A diferença de idades é irrisória.

Possuem o mesmo tipo físico. Os genes aproximaram-nas, fornecendo a ambas a estatura alta e corpulenta, cabelos longos e aloirados, mãos de gigante, maciças, quase brutas e a amplitude dos rostos, claros e serenos.

Comportam-se da mesma forma, indiferentes a tudo o que não passa pelos aparelhos que ligaram aos ouvidos e barraram as hipóteses de comunicar, a não ser quando sentem o vibrar curto dos telemóveis caros. Nessas alturas, retiram os fios que as ligam ao som dos aparelhos e substituem-nos pelo objecto preto por onde vagamente se faz notar a voz que as quer ouvir.

 

Uma delas não tem história.

 

Usa, ao contrário da outra, que a prendeu com um gancho banal no cimo da cabeça, uma repa que lhe esconde os olhos. Os lábios carnudos, apagados, e a lentidão do gesto que torna nítido o peso de cada movimento. Baça, passa despercebida.

A outra, de madeixa presa por um gancho no cimo da cabeça, mostra as insolentes sobrancelhas em arco definidas e nos olhos percebem-se desafios ainda desbravados, incipientes ou por aceitar. Tem a boca ligeiramente maior e mais desenhada. É fácil mostrar desdém com bocas assim recortadas. Basta uma inclinação ou um breve empurrar dos lábios que de súbito se fecham com mais força e dispara o desprezo.

 

As duas, lado a lado, são idênticas e, no entanto, se a vida as ferir ao mesmo tempo, sei que apenas uma delas se tornará maior do que a chaga. A Dor acabrunhará apenas uma. Cuidará da ferida aberta com desvelo e haverá lamentos e choro interminável. A outra, a de insolentes sobrancelhas, agarrará os cornos do que vem e a cicatriz que depois ficar do embate será adicionada a uma história imperceptível que produz o indizível fascínio das mulheres que subitamente domaram o que na dor restou.

 

Talvez seja este um dos mais intrigantes mistérios da Beleza. Se quando em nós a Dor sentida se traduz em história que desbrava histórias nos que subitamente a olham, então no bicho pardo, lamacento e nulo em que se abriu a ferida, cresce a estranheza de o reconhecermos Belo.

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