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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e a "ecomommy"

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.16

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Não sou grande fã de bebés. Não é uma coisa bonita de se dizer, mas é a verdade.

Deitadinhos de costas, com os bracinhos no ar e a gemer de vez em quando, confesso que os prefiro passados uns bons 20/30 anos. Fazem praticamente a mesma coisa, com mais alguns extras que surpreendem, com a vantagem de não usarem fraldas nem nos vomitarem com tanta frequência.

 

Mas o que eu não suporto são as mamãs dos bebés! Sobretudo as modernaças.

Ontem estive com uma dessas. Casou com um rapagão podre de rico. Tão podre que já se nota no hálito. É muito ecológica. Aquilo é muito yoga, muita meditação, muito artesanato, muito Tibete, muito concerto para relaxamento do bebé, muita massagem pueril, muito contacto, muita apalpação, muita beringela.

Anda com umas porcarias ao peito feitas por ela, todas mal acabadas, quando podia perfeitamente furar-nos os olhos com um valente alfinete Dior. Toda artesanato, compra trapos nas lojas alternativas que cosem os tecidos com cordel e rematam as costuras com os dentes. Toda esguedelhada, com folhas secas, mortas, putrefactas, no cabelo, muito outonal, muito tom terra, muito planeta, muito budismo. Toda defensora dos golfinhos, dos mais giros e que até dão saltos, porque dos morcegos e das osgas haverá quem trate. Toda desbotada, toda esbardalhada, a debicar sementes importadas que sabem a papel e a papagaio, compradas numa loja muito vegan, mas que se alcança a pé e sempre a pé, não vão os gases destruir o vento.

 

Massajadora compulsiva das carnes do bebé ao som de sinos e demais sininhos, a criatura verde seco e terra, azul planeta, mostra o rebento amassado e triste.

- Quando é que te decides a escrever ao Pai-Natal a pedir um igual?! - Questão pertinente, tendo em conta que não os posso ter. 

- Só quando tiver o envelope que tu tens e for o teu marido a lamber o selo. - Respondo com pouco critério.

Meteu o miúdo na enrolada tira de tecido em batik tribal e, botas de couro com tiras atadas, desandou trombuda.

 

Sorrio ao seu amuo, colado no rabo roliço como um post-it amarelo, e suspiro de alegria só por saber que uso o Gmail.  

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A Gaffe intrigada

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.16

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De que são feitos os homens?

Os que nos querem e os que queremos realmente; aqueles que nos fazem indiferentes a qualquer libertação feminista, porque a deixam sem sentido, inútil e escusada; os que nos abraçam como se nos fizessem entrar em catedrais ou em cabanas onde as traves do tecto e do soalho são de madeira cortada, polida e cravada com a própria alma, que depois nos entregam para que a guardemos dentro do peito; os que nos trazem gargalhadas para casa, sonoras gargalhadas, trovejantes gargalhadas, e que não tremem quando trazem lágrimas; aqueles que nos dizem que não leram Pessoa, Eco, Proust ou Lobo Antunes, mas que nos desassossegam sempre que demoram, perdidos no tempo que buscam em nós, entrando tão depressa por essa noite escura, e que sabem de cor, de coração, os nomes de todas as rosas; os que dão nome aos nossos cães e atravessam temporais para os fazer correr atrás da chuva; os que não falam de amor, porque nos deixam acabar todas as frases; aqueles que nos abrigam quando há escuro e monstros dentro dos armários e se deixam recolher nos nossos braços depois do medo que sentem com um ranger de portas carcomidas.

 

Os que sabem que é a terra, a água e eu as três únicas claridades que conhecem.

 

De que são feitos os homens que nos amam?

 

Foto - Richard Prince, 1999

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