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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a meditar

rabiscado pela Gaffe, em 08.02.16

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A Gaffe detesta gente que medita.

Detesta gente que se enfia numa sala, crava o rabo no chão, cruza as pernas, coloca as mãos nos joelhos com as palmas viradas para cima, começa a respirar de modo suspeito como se estivesse a bufar em balões e que lhe diz que medita.

 

Medita em quê?!

 

Geralmente respondem que esvaziam a mente. Este processo é improvável dado o estado de sítio deserto das mentes que meditam desta forma. Outros referem a paz que atingem na comunhão com o seu Eu interior e no extravasar desse Eu para o envolvente - a Gaffe jura que tiveram a lata de lhe espetar isto na frente.

 

As pessoas que meditam desta forma geralmente decoram os apartamentos com tralha que se quer exótica, mas que se pode comprar por tuta e meia numa loja indiana, vestem-se como o Kadafi e cheiram a coisas que podem levar à prisão ou a ficar com vontade de vomitar para toda a vida. Também os há minimalistas, mas esses meditam apenas em cima de tapetes brancos ou de colchões fofinhos e gostam de se exercitar em câmara lenta. Não há paciência para o sexo tântrico.

 

Apesar de não ser o mesmo - a Gaffe não é tão estúpida ao ponto de confundir as coisas - esta rapariga foi a uma aula de iniciação ao yoga a convite de um amigo - que entretanto deixou de o ser também por causa disso - e descobriu que também se medita muito nas aulas de yoga. O professor era um rapagão magro, seco e todo propenso à meditação, capaz de se equilibrar com o dedo mindinho espetado no chão e o resto do corpo no ar, todo torcido.

Sublinha-se que era uma aula de iniciação. No entanto, a Gaffe observava em pasmo absoluto o homem a contorcer-se feito macaco articulado com a corda toda e a dizer, ao mesmo tempo que levantava a perna direita para a enfiar por detrás do braço esquerdo que já se tinha enfiado na bochecha direita do rabo que por sua vez se tinha cravado no olho esquerdo, que o essencial era a apreensão da respiração e o caminho de meditação que conduz à aquisição deste controlo inspirado!

 

A Gaffe sentiu que o senhor se estava descaradamente a exibir.

 

Muito sentadinha no chão, com os joelhos a doer e os pés todos torcidos, mirrada de humilhação, decidiu mandar o tipo apanhar florinhas e desandou dali para fora. Nunca mais confiou em tipos que usam fralda, meditam muito, respiram melhor ainda e se contorcem até dizer chega com as miudezas todas comprimidas.

A Gaffe passou a desconfiar de gente que medita.

Pensar já basta.

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Gavetas:

A Gaffe a bater portas

rabiscado pela Gaffe, em 08.02.16

O título do post não é dos melhores, concordo. Permite visualizar uma tresloucada a esbardalhar-se contra diques e represas, mas depois do Madrugada Suja do meu querido Miguel Sousa Tavares todos os títulos são permitidos, mesmo parecendo que vão ofender as toxicodependentes.

Depois, confessemos, todas nós, raparigas intempestivas e com sangue na guelra, já saímos disparadas e furibundas, escacando a madeira dos lambrins, de um qualquer compartimento onde as portas são apenas um minúsculo obstáculo a transpor e a rebentar pela nossa indignação incendiada.

 

A última vez que uma porta sem metáforas bateu com a parca força desta rapariga ruiva foi perante a demoníaca recusa da minha avó em me comprar uns tamancos com uma tenebrosa rampa de cortiça. Tinha-os visto na sapataria do senhor Francisco, que vendia também palmilhas ortopédicas e almofadas para calos. Já lá vão uns anitos repletos de saudade.

 

Abençoada seja a minha avó!

 

Nessa ruidosa altura, tive de retroceder e voltar a abrir a porta batida, porque me tinha esquecido da carteira pindérica e ranhosa, mas com um inestimável valor afectivo já que tinha sido comprada com as entranhas do porquinho dos meus quinze anos.

Acabamos as duas as gargalhadas, abraçadas e a desfazer com a tesoura da troça, pedaço a pedaço, tira a tira, centímetro a centímetro, as socas, os tamancos, os obuses, os torpedos, que tanto queria calçar.

 

Bater portas é relaxante, catártico e não produz hematomas. Após a nossa saída empenachada e divinal, há sempre a possibilidade - mesmo que a porta seja fechada por nós com um vaudevilliano aloquete -, de ficarmos com a chave para regressarmos emplumadas, sobretudo se nos trocarem os tamancos de cortiça por uns Jimmy Choo de alta estirpe.

Bater com portas é um exercício bastante eficaz que, embora deselegante, não deixa de ser altamente rentável, fazendo-nos pensar que nenhum ginásio, por muito que tente, nos entregará a silhueta que sempre desejamos e que nos é dada de modo rápido por esta prática tão subvalorizada. Depois, o que se produz durante a operação é só ruído e uma data de mosquitos estropiados com a deslocação do ar.

 

Por tudo isto, meus caros, aconselho vivamente o bater com portas como método e arma de persuasão ou de ressurreição. Temos apenas de ter o cuidado de salvaguardar os dedos ou arriscamos ficar com as falanges do outro lado do assunto.

 

Imagem - Nikita Kovalev

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Gavetas:

A Gaffe e o escritor

rabiscado pela Gaffe, em 08.02.16

 Cruzei-me, na Zara Home, com walter hugo mãe.

Uma rapariga esperta habitua-se a ler determinado autor e, de forma um bocadinho irresponsável, cria dele uma imagem física muito nítida que sente que corresponde à sua escrita. Quando este lapso se alia ao facto de não se ter em conta que a figura que passa no televisor está alterada e filtrada por demasiados ornamentos, o resultado só pode ser uma desilusão, não literária, mas literal.

O autor é mais atarracado do que imaginava, tem uma barriga proeminente e uma cabecinha inesperadamente minúscula, ou então contrasta com o ventre. Baixinho e com ar usado, não tem propriamente um pescoço de cisne e faz lembrar um papa-formigas careca e ligeiramente presunçoso.   

Uma decepção!

 

Este erro que se comete quando se vai criando uma imagem do Outro à medida das nossas ilusões, dos nossos destemperos, das nossas falhas ou faltas e até dos nossos azulejos, a partir de dados que são apenas processados pela capacidade de criarmos mitos, produz inevitáveis desapontamentos.

A realidade acaba por ser o sonho que montamos com peças que encaixam apenas no nosso desejo imenso de encontrar a complementaridade e a plenitude, a unificação e a harmonia. É um real falacioso, capaz de nos trair aquando do confronto, nu e cru, com a verdade que jamais se compadece com a fantasia.

Há, no entanto, o verso da moeda - existe sempre! -. A fantasia que não se compadece com a realidade e que a supera, transfigura, transforma e converte, tornando-a essencial e única escolha possível no processo quotidiano do viver.

 

A escrita de valter hugo mãe faz dele o homem espadaúdo, másculo, alto, ágil, elegante, atraente, viril, sensual e sedutor.

Talvez por isso sinta sem a mínima hesitação que na Zara Home me cruzei com um papa-formigas de sonho, absolutamente irresistível. 

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