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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe "par délicatesse"

rabiscado pela Gaffe, em 24.02.16

Par délicatesse.jpg

Amamos e somos delicadas.

 

Delicadamente nos tornamos ideais. Resguardamos os compartimentos anteriores a nós por onde a alma do amado vagueia nas tardes dos sentidos que não acompanhamos por termos acabado de chegar. Damos lugar ao gato, ao periquito e à iguana, mesmo quando somos arranhados pelo felino desgrenhado, mesmo quando se nos inflamam as articulações ouvir o timbre do pequeno pássaro ou mesmo quando nos repugna até ao vómito a textura do réptil.

Somos ideais e retiramo-nos da alma da criatura amada quando as portas se abrem às investidas do passado onde não estivemos e que, por respeito, não queremos conspurcar com os nossos passos trémulos, mesmo percebendo que é impossível atravessar aquele espaço saltando sobre as mesas com os tacões dos sentidos já despertos.

 

Emudecemos, civilizadamente, enquanto os outros recriam a multidão de sons que ensurdecem.

Obedecemos aos semáforos.

Atravessamos as ruas quando há passadeiras.

Não espirramos no centro de uma ópera.

Não tombamos cadeiras nas palestras.

 

Por amor, somos delicadas e mesmo quando os beijos que damos à criatura amada deixam de ser o que por nós respira, somos educadas, correctas, dignas, respeitáveis e inventamos um choro à parte, um choro disfarçado, um uivo no bico de um pobre periquito.

A farsa convincente e oportuna, civilizada, urbana, culta, cortês, gentil, polida.

Amamos e inventamos um espaço que supera e invade e substitui aquele que é o nosso por direito. Um lugar de delicadeza irresistível onde o Amor não é um animal, um instinto básico, um cataclismo bruto e natural, um turbilhão de carne e de pedaços de alma e mesmo sabendo que Amar é como cometer um crime e não fugir - para não ter de voltar - da alma onde acontece. Escolhemos a cortesia de forrar as armas com veludo.

Não atacamos. Ficamo-nos pelo esgrimir de facas protegidas pela bainha de uma inventada ladainha cómica, patética.

 

Acabamos irremediavelmente a chorar dentro do espaço desenhado a prumo pelo nosso pulso, com rigor amável e elegante, delicado, ou próximas de um sketch bastante convincente, porque lhe entregamos uma verosimilhança vagamente perturbante que confunde aqueles que olham apenas o que recriamos.

 

Par délicatesse, j'ai perdu ma vie. É Rimbaud que se revê nesta comédia.

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