Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na Baixa

rabiscado pela Gaffe, em 31.03.16

Baixa Porto.gif

 Há demasiado tempo que não passava pela Baixa do Porto. Tinha saudades da velhíssima Rua das Flores onde, com a minha avó, visitava uma das suas ourivesarias favoritas. Perdido o nome da proprietária, recordo o seu espampanante penteado de um loiro demasiado artificial e as estupendas jóias que com cuidados mil depositava numa tira de veludo negro.

 

Já não existe a ourivesaria.

A Rua das Flores está alterada.

A Baixa do Porto tem um ar lavado, lavadinho.

As casas burguesas, e mesmo as da baixa nobreza, recuperaram as cores originais e exibem fachadas contrastantes, múltiplas, exuberantes ou mesmo gaiteiras e exibicionistas. O escuro foi abolido, a pedra raspada, os azulejos polidos, as rendas das varandas pintadas de fresco.

Estão à venda maioritariamente T0, T1, T2, a preços incomportáveis, inadmissíveis, porque nada distingue os seus interiores de outros apartamentos situados em lugares diferentes da cidade.

A alma das velhas casas burguesas e nobres foi estropiada. Na cidade que tem uma das mais prestigiadas Escolas de Arquitectura do mundo, nenhum arquitecto cuidou das estórias que cada corredor, cada lanço de escada, cada degrau, cada esquina ou recanto, cada baluarte, cada trave, cada parede, cada estuque ou cada portão, tinham para guardar. Foi desentranhado, estripado, demolido, o interior estupendo de cada uma delas. Ergueram-se compartimentos arejados e bonitos. Iguais aos outros todos. Iguais aos que existem em qualquer parte. Só que mais caros e que não consolidam a permanência dos moradores que não encontram maiores, os que permitem aumentar a família.  

São apartamentos banais. Sem qualquer especificidade, sem qualquer característica que os diferencie, sem qualquer respeito pela organismo que lhes deu origem e sobre o qual se ergueu a arrogância, a ganância, a avidez de lucro e a parolice mais tacanha.

 

É evidente que os turistas pululam, mas apercebemo-nos que não são os projectados. Alguns são nauseabundos, outros que de tão pindéricos inspiram compaixão e ainda os há a comprar Rosa e Júlia Ramalho de plástico, Bordalo Pinheiro de maçapão, Sabina Santos de resina ou Rosa Barbosa Lopes de plasticina. Há muita quinquilharia para escolher e tudo se esbardalha à frente das lojas, preso nas paredes, assobiado em inglês por galos de Barcelos porta-chaves. Faltam apenas os muito respeitáveis bandos peruanos que tocam El Condor Pasa com flautas de Pã e sintonizadores.

 

A Baixa do Porto, dizem as más-línguas, assemelha-se a um parque temático, a um sucedâneo barato de uma Disneyland desenrasca. Não é verdade! A baixa do Porto é um bazar atolado e já sem Flores.   

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe a lavrar

rabiscado pela Gaffe, em 30.03.16

Ao contrário do que se possa pensar, uma rapariga esperta, cosmopolita, urbana até à medula, capaz de arriscar a vida no meio de selvas de betão onde os lobos usam Trussardi de colarinho rígido e pasta de crocodilo, não resiste, esporadicamente é certo, à tentação de catrapiscar um rude rapagão isento de qualquer sofisticação ou diplomáticos maneirismos de circunstância, capaz de se tornar inconsciente ameaça ao politicamente correcto e bem composto, ao bon chic, bon genre habitual e exigido pelas criaturas de santas e boas famílias.

 

Há, pois, nas caves esconsas, dentro de cada mundana rebuscada, uma rapariga estonteada aos gritos de deleite desenfreado, a esbracejar de prazer rude e primário, pronta a esquartejar o mundo em cima de um fardo de palha, trucidando sem dó, nem piedade, um mocetão boçal e campestre, sem os aromas da Cartier, de musculatura convincente, que acredita que um Canto d' Os Lusíadas faz parte do léxico futebolístico.

 

O único pormenor a ter em conta, nesta calamitosa e recôndita tendência das mulheres de topo, é o que se refere à quantidade de matulões exigidos. Nestes casos bucólicos, mais vale dois na mão do que um a cavar.     

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe até aos tornozelos

rabiscado pela Gaffe, em 30.03.16

É de importância capital o que nós raparigas fazemos com as pernas.

Esquecemos frequentemente que são, por muito incompreensível que para nós seja, uma das armas que dispomos para reforçar vitórias.

São punhais, são serpentes e são rios por onde poetas e flaneurs fazem desfilar todas as palavras, traçando todas as rotas, deixando-se ferir por doces lâminas de carne e envenenar pelo néctar suave que desliza invisível rumo aos tornozelos.

As nossas pernas, minhas caras, são muito mais do que dois instrumentos que nos levam simples e directamente do ponto A para o ponto B. Neste percurso, cabem labirintos e o erro de os ignorar ou desbravar pode atingir-nos de forma fatal fazendo-nos perder dois magníficos trunfos.

 

No jogo, os homens conquistam usando artimanhas tontas, acreditando que o poder de uma gravata Gucci ou de um Armani perfeito, os torna eficazes. A guerra pelo poder no masculino é feita sobretudo com homens vestidos. A nudez masculina, quando usada na guerrilha, jamais acorrentará uma vitória ao tempo. Os homens lutam vestidos e nem sempre é segura a almejada conquista. As mulheres podem - devem - usar todos os recursos que um machismo idiota lhe entregou de mão beijada.

As pernas de uma mulher - mesmo quando vagamente cobertas por redes de seda - são, nos campos das batalhas pelo poder, dois dos mais possantes e incompreensíveis mísseis de que há memória. Sempre detectados pelos radares, mas nunca recusados pelo inimigo.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe inútil

rabiscado pela Gaffe, em 29.03.16

loading

Procuro na transparência oculta das palavras captar as imagens da vida dos outros, como quem apanha no ar, com afinco e quase desespero, as partículas mais visíveis do pólen que se espalha, que acabo por sentir que não faço sentido.  


Falo de quem amo e recolho com a angústia que advém da incapacidade de o fazer de modo mais perfeito, os pedaços, os farrapos, os lanhos e as fendas, os rasgos e os segundos que, da vida dos meus mais amados, se abrem nas memórias que deles quero ter.  
Mas acabo por me ver sentada ao longe, no camarote forrado e confortável, a observar o palco onde, sem sentido e com ruído, a vida dos loucos faz parte da minha, mas aquela que vivo é quase sempre alheia, passando nas margens do mundo dos outros sem tocar na água que corre nas almas.  


Que sentido tem não me ver sentir nas malhas do enredo alheio? Que argumento estranho a mim vale a minha vida?

 

Olho para mim e desconheço, de repente, se a minha vida é parte integrante da vida dos outros ou se apenas passo pela brisa da tarde sabendo que me roubaram fogo e asas e que os procuro no céu rasgado à força de tanto o olhar, mas que é céu dos outros.

Olho para mim de vez em quando e quando o faço apenas me vejo pronta a reter os mais irrisórios e os mais inúteis lampejos de luz da vida dos outros. Uma sequiosa atenta a todo o fabuloso e desmesurado génio que de súbito aflora a superfície da alma daqueles que mais quero.  

Hesito.

 

Se pensar mais alto acabo por descobrir a mais evidente das verdades:

Não interessa nada aquilo que aqui faço, especada frente ao monitor a carregar nas palavras e a narrar episódios patetas - patéticos também - que tropeçam e escorregam na minha vida, acabando espalhados nos meus braços.

 

Depois chega, no labiríntico tempo das nuvens e do vento, com a simplicidade doce do início de tudo, a natural conclusão oferecida pela tonta e inocente futilidade que saltita:

Não tenho a veleidade de acreditar que trago as chaves das catacumbas das catedrais da mente e nem sequer ouso falar das catedrais dos céus, porque há alguém a ouvir, interessado, a pedir para me ler, a piamente orar por mais uma palavra, a beber desesperado os despojos das sílabas que repenso, cruzo, entranço, misturo, embebo e torço.

 

Mas, como diz a Guiduxa Rebelo Pinto, Não há coincidências.

 

Folheio, neste instante, o labirinto da minha guerra e da minha paz e na vida de Nada que é a minha, recomeço a ouvir o velho russo: 

Narra a tua aldeia e narrarás o mundo. 

E bem ou mal, atarantada e trôpega, olho-me e vejo-me beijada.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe volta a desejar-vos

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.16

Gaffe

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe vê passar a procissão

rabiscado pela Gaffe, em 25.03.16

Numa aldeia do Douro há, de dois em dois anos, uma romaria em honra de uma Santa.

Senhora do Amparo, se me lembro, que das Angústia também podia ser.

Vários homens a sustentam, que o andor é pesado de velhice. Doze, ficando mais um de reserva para revezar o que vacile debaixo do maciço madeirame. A Santa sai oscilando da capela, como obeso pêndulo lento, de cachos negros e pastosos, manto de seda a oiro e de Menino ao colo, que não basta o sacrifício de carregar o peso da Senhora a fazer lembrar ao longe a Sevilhana ou a de Paris de Saint Eugène - mais pobre, muito mais pobre pois então, que o Douro não tem bolsa que sustente o luxo.

 

No ano em que lá fui, a procissão saiu organizada pela Didi, beata oficial e quase anã, que ali a desgraça vem aos pares.

De túnica branca, com uma concha ao peito, a imaculada mulher, no ano da Senhora, levantava suspeitas pelo adro, fazia cochichar o mulherio, com a ameaça de prometida inovação.

Suspeitas infundadas já se vê.
A Didi respeitava a tradição, contradizendo a túnica que usava ainda a cheirar a patchouli - que a Didi fez o Liceu no Porto -, embora o incenso lhe vá cobrindo agora a desvergonha.

A inovação anunciada não era portanto de maior ofensa à dignidade exigida pela Santa e pelo senhor pároco que rezava missa descampada no altar de renda e margaridas sobre madeira tosca e pregos fundos, construção dos mesmos homens que carregam aos ombros o andor, que o peso no Douro vem aos pares.

A modernidade consistia num mecânico funil que ao sinal beato da Didi e finda a missa, de padre a abençoar o povo, asas abertas e misericordiosas, disparava milhares de quadradinhos de papel, brancos e doirados, brancos e dourados, milhões deles pelo ar do adro, milhões de papelinhos a voar no pasmo dos fiéis que se benziam em incensados êxtases.

 

Fiquei à espera que o padre erguesse os braços e nos mandasse embora com Deus por companhia, para ver os quadradinhos de papel jorrar como um milagre.

O padre abriu os braços – Ide em Paz e que o Senhor vos acompanhe - e o rectângulo de brocado doirado que formou, avantajado mais do que o costume, que era dia santo e a Santa o merecia, tapou a Didi e o sinal combinado para o disparo.

O rapaz do funil mecânico, aflitos, ele e o funil, porque se completa o par com a aflição do moço e a da pança cheia da máquina que espera, esbugalha os olhos e no desespero de quem se vê à toa quando se espera o cumprir de um plano, agarra as rédeas do destino e carrega no botão já com o pároco a olhar de esguelha.

Dispara a inovação.

O povo tremeu com os quadradinhos de papel a vibrar no ar e houve quem se comovesse até às lágrimas.

Tão lindo! Ai, que é tão bonito, Deus nos valha!

 

Via milhares de papelinhos a voar e pensei trocar cada um que voa pela palavra amo-te.

 

Amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-teamo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-te, amo-teamo-te, até à eternidade do papel.

 

Humedeci os lábios e fiquei quieta. O quadradinho que me tocasse a boca, ficaria preso. Seria então a única palavra verdadeira, a derradeira sendo também primeira. Um amo-te branco ou doirado, que o amor, se chega, tanto faz.

 

Nenhum tocou.

 

Percebi que guardamos a palavra com o pudor dos mansos e da espera e que esta espera tem o pudor dos tímidos. Não a dizemos à toa de papel, nos adros disparados pelas aldeias de toda a nossa vida, nas romarias das almas sem Didi, ou pelos ares à solta como pássaros. Afunilamos a palavra e temos medo, enchendo panças tristes de funis, na esperança de um sinal que faça o tempo certo e tempo de disparo. Não percebemos que não há nas nossas missas descampadas nenhum aceno que nos faça saber que o momento acaba de chegar.

 

Calamo-nos e vamos em paz com um deus qualquer por companhia.

 

Na foto - Procissão de St. Eugène e Stª Cécile – Paris

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe vaidosa

rabiscado pela Gaffe, em 24.03.16

Frederic Varady..jpg

Uma rapariga pode saber que é, nos olhos de quem a ama, a mais esplendorosa das deusas do Olimpo, mas quase sempre requer uma segunda opinião.

 

Este pequeno defeito, esta minúscula incerteza, esta dúvida constante, esta necessidade de afirmação e de segurança, confunde-se largas e amiúdes vezes com Vaidade exacerbada.


- Não passam de fenomenais vaidades! – Murmuram tristes, com olhos quase resignados.  


Mas o que é a vaidade senão o tique das mulheres que temem a sua própria nudez?

 

Ilustração - Frederic Varady

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe sorridente

rabiscado pela Gaffe, em 24.03.16

Palabras dulces, palabras locas, palabritasPALABROTAS, palabras cálidas, palabras graciosas, palabras blandas, palabrejas

Las palabras viajan y cuando vuelven ya no se las entiende.

 

 

Enfim, não ouvir é como deixar de regar as plantas. 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe "et des choses des femmes"

rabiscado pela Gaffe, em 23.03.16

WD.jpg

Entra em cena a minha irmã, desta vez com os lábios a tremer e chispas de alegria nos olhos: 
- Tens de ter mais cuidado com o modo como deixas o teu gabinete. 

A senhora da equipa de limpeza é ucraniana e não entende a minha habitual desarrumação.

Estancou no meio do corredor, declarando solenemente que se recusa a limpar o meu esclitóris.

 

Em contrapartida, numa azáfama muito pouco inusual, a Mélinha desenfreada dispara ordens à frente do balcão, no bar. Foi ontem, pela segunda vez na vida, à ginecologista e está nitidamente preocupada.

- Olhe, nem lhe sei dizer! Não devo estar nada bem. A médica até me mandou fazer uma pitologia!

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe animada

rabiscado pela Gaffe, em 23.03.16

gf.jpg

A Gaffe decide hoje sugerir vinte formas de colorir os dias cinza que vão tombando nos telhados do nosso tédio mais persistente ou fornecer um pontinho negro à monótona e quotidiana alvura do rebanho.

 

1. Na sua hora de almoço, sente-se no seu carro estacionado, ponha os óculos escuros e aponte um secador de cabelos para os carros que passam. Veja se eles diminuem a velocidade;

 

2. Sempre que alguém lhe pedir para fazer alguma coisa, pergunte se quer batatas fritas a acompanhar;

 

3. Encoraje os seus colegas de gabinete a fazerem uma dança de cadeiras sincronizada consigo;

 

4. Coloque o seu recipiente do lixo sobre a mesa de trabalho e escreva nele entrada de documentos;

 

5. Desenvolva um estranho medo aos agrafadores;

 

6. Ponha café descafeinado na máquina de café durante três semanas. Quando todos tiverem perdido o vício da cafeína, mude para café expresso;

 

7. No verso de todos os seus cheques escreva referente a suborno;

 

8. Sempre que alguém lhe disser alguma coisa, responda isso é o que tu pensas;

 

9. Termine todas as suas frases com de acordo com a profecia;

 

10. Ajuste o brilho do seu monitor para o nível máximo de forma a iluminar toda a área de trabalho. Insista com os outros de que gosta assim;

 

11. Não use pontuação nos seus textos;

 

12. Sempre que possível, salte em vez de andar;

 

13. Pergunte às pessoas de que sexo são. Ria, histericamente, depois de ouvir a resposta;

 

14. Quando for à Ópera, cante com os actores;

 

15. Vá a um recital de poesia e pergunte por que é que os poemas não rimam;

 

16. Descubra onde o seu chefe faz compras e compre exactamente as mesmas roupas. Use-as um dia depois do seu chefe as usar. Tem ainda mais impacto se o seu chefe for do sexo oposto;

 

17. Mande e-mails para o resto da empresa dizendo o que está a fazer em cada momento. Por exemplo: Se precisarem de mim, estou na casa de banho;

 

18. Coloque um mosquiteiro à volta da sua secretária e ponha um CD com sons da floresta, durante o dia inteiro;

 

19. Quando sair dinheiro da caixa multibanco, grite desalmada;

 

20. Ao sair do jardim zoológico, corra na direcção do parque de estacionamento aos gritos: Salve-se quem puder! Eles estão soltos!

 

 

Verá que a vida se torna muitíssimo mais movimentada!

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe dolorosa

rabiscado pela Gaffe, em 22.03.16
A Dor é fotogénica.

A ausência dela raramente conta histórias que fascinam.
A aliança não estranha, embora ocasional, entre felicidade e a ausência de Dor, amolece e amortece, atenuando o instinto de sobrevivência que é um dos motores da criatividade humana.


A Dor aristocratiza.
Há uma face estética na Dor que a torna, muitas vezes, no lugar-comum dos artistas.
A arte pode ser uma confissão discreta de uma Dor imensa, mas pode resvalar, metamorfoseando-se na mise-en-scéne sentimental de alguém.


Estou amiúde sentimentalmente céptica em relação aos que exprimem bem a sua Dor. Sobretudo daqueles que fazem dela um Poema.


Os grandes trágicos são mudos e choram no silêncio. 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe piscatória

rabiscado pela Gaffe, em 21.03.16
.

São os homens talentosos os únicos capazes de provocar alguma instabilidade numa empedernida e astuta rapariga esperta.

São naturalmente homens maduros, trintões ou quarentões, desesperantes. O talento é lapidado com as mesmas ferramentas que o tempo vai usando para aguçar a inteligência, inevitável cúmplice de qualquer dom. Os jovens rapagões são apenas espertos. Os velhos são apenas génios.

 

O cuidado displicente que uma rapariga deve ter com os homens banais não se aplica aos talentosos. Deve ser dobrada a atenção e deve duplicar a vigilância com que se evita os ténues fios de seda com que nos envolvem de repente.

O talento actua como um bruto TGV que quase nos trespassa quando na gare vemos passar apenas os regionais. Somos atraídas, contra o seu corpo acelerado, pela deslocação do ar provinciano e parco em aventuras.

 

Embora seja difícil resistir a um homem talentoso, não é de todo impossível identificar o modo como os mecanismos que lhe fornecem a capacidade de criar abismos de sedução estão activos. Alguns são de imediata detecção e transformam-se em sinais de alerta, minúsculos faróis acesos no cume da negrura dos rochedos:

 

1 - Rodeiam-se inevitavelmente de um cardume de mulheres que, fascinadas e rendidas, guardam a secreta esperança de se tornarem únicas, senhoras do senhor que as subjuga imperceptivelmente.

 

2 - Insinuam, ao ouvido de cada uma delas, sombras de promessas ambíguas onde a elevação ao lugar de eleita está implícita, sem nunca assinarem o decreto.

 

3 - No escuro dos cantos onde a vida dorme solitária, procuram fazer crer que estão rendidos aos lugares-comuns, às patetices, à poesia de cordel, de mel e malmequeres, que cada uma delas vai atirando às rodopiantes águas onde pesca.

 

4 - Fazem acreditar que, no meio do cardume cintilante, existe apenas uma sardinha que querem para a sua brasa e vão nadando à volta de todas as escamas, procurando não desfazer a totalidade prateada do conjunto.

 

Cedo ou tarde, o homem talentoso desilude. É nessa altura que percebe que, no meio do cardume de sardinhas, nadava uma sereia que escapou.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe coulrofóbica

rabiscado pela Gaffe, em 18.03.16

Lon Chaney.jpg

Para além do escuro das esquinas nocturnas do meu quarto, tenho um medo indizível de palhaços.

 

Afirmam os que sabem que este bichinho sedento tem origem nos meandros mais obscuros das nossas infâncias em que, nas tardes ensolaradas, nos levavam ao Circo, onde um palhaço nos arrastava para a arena, mimando o cómico dos nossos bibes e humilhando as nossas dignas poses de infantas sem reinos, mas nunca a minha infância me levou ao Circo. Adivinhava ela o medo atroz que sentiria ao ser destronada.

 

Arrasto este medo, quase meninice, e sou capaz de rodar avenidas só para não cruzar com homens pintados, vestidos de cor e de trapos largos, que oferecem balões à gente que passa. Não ouso sequer olhar mesmo ao longe.

 

No entanto, a todo o instante brigo, sem ter sombra, com outros palhaços do Circo idiota que chegou à vida e que nela ergueu a tenda maior. Dizem que essa luta se vence também a brincar com valentia. Talvez seja assim, mas eu sou uma menina de bibe mimado e a minha coragem não usa o trapézio.

 

Na foto - Lon Chaney 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe amorosa

rabiscado pela Gaffe, em 17.03.16

Dos verbos mais gastos que usamos, aquele que parece ser o corroído é o gostar.

 

Colhemo-lo por todos os cantos e esquinas da vida. Surge espontâneo e bravo como pequenas violetas selvagens, perfumadas e aguerridas. Fornece-nos o minúsculo conforto que nos protege quando à volta se multiplicam os cardos. Entrega-nos a sensação de pertença e de pequenas cumplicidades essenciais à solidão que tanto nos arrasa. Ensina-nos a sorrir devagarinho. Solta-nos o coração, deixando-o sem fronteiras férreas que o limitam e sussurra-nos promessas de voos simples, mas felizes.

 

É um verbo tranquilo e seguro, sobretudo quando conjugado no presente. É quase um verbo infantil. Um verbo de brincar. Um verbo que deveria ser conjugado apenas por crianças, porque apenas elas o deixam cristalino, perene e sentido do modo exacto e acreditado eterno.   

 

Gostar é o carrossel colorido de uma infância, o doce de avelã da nossa avó, a pulseira de cordel atada à esperança, o sol a bater brando numa manhã de janelas acordadas, o aroma da terra molhada depois da canícula, as histórias de fadas e de monstros no colo da ama ou a carteirinha que não dá com tudo e que abriga apenas um sonho minúsculo.

Gostar é a almofada onde se pode encostar o nosso mais pequeno coração  - e temos tantos!

É um verbo deslumbrante, mas exíguo. Rola na nossa mão como um berlinde.

 

O globo inteiro e sem medida está no verbo amar

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe gregária

rabiscado pela Gaffe, em 16.03.16

h.jpgÀs vezes lamento a solidão.

Na essência de qualquer vida subjaz o desejo de partilha, de contraponto ou de contraditório.

 

Raros são os que vivem indiferentes à possibilidade de repartir com outros até o que é escrito depois de pensado. 

 

Somos bichinhos gregários e, mesmo através de um teclado, ousamos querer dividir, somar, multiplicar, deixando a subtracção como manobra escusada.

 

Às vezes sinto que o pó das asas que não tenho se pode expandir e voltear, criando o amontoado de palavras frágeis e tontas que - iguais a todas as que já foram ditas e apesar disso -, atapetam de insignificantes, minúsculas e efémeras cores os segundos que de vez em quando olhamos distraídos.

Às vezes esqueço-me de que duro um dia.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

Pág. 1/2






  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD