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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem pérolas

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.16

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A minha irmã arrefece os cigarros. Vício e hábito que chega da adolescência em que a ameaça da mãe não vasculhava o frigorífico.

Fecha-os numa cigarreira de prata e coloca-a lá dentro.


As nossas relações foram sempre bastante parecidas com esses compridos e frios tubos de nicotina.


Ontem entrou na sala onde o meu pobre irmão sentado brincava com um livro. Retirou o isqueiro da carteira e fez surgir a chama várias vezes como quem brinca com um coração.


- Vens convidar-me para um jantar de gala?Arriscou o incauto.
-
Andas pela vida fora com jeans coçados, t-shirts brancas deformadas e botas quase podres. Passas pela vida dessa forma, como se a vida fosse um campo de férias e tu um turista acidental. Por favor, meu querido! Na vida nunca venhas à vontade. Faz sempre cerimónia. Veste-te a rigor. Sempre. De contrário, todos os teus jantares serão de galo.


Levantou-se e acendeu finalmente o cigarro frio.
Foi nesse instante que vi baloiçar o magnífico e pesado colar de pérolas que herdou da minha avó e percebi então como aquela jóia pode ser apenas um adereço a mais no pescoço errado.  

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Gavetas:

A Gaffe sinalizada

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.16

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A Gaffe decidiu adoptar o sistema das CPCJ quando o que previu correr mal lhe entrega o infeliz troféu da razão. Passará, em consequência, a substituir o irritante eu avisei! Pela profissionalíssima expressão já estava sinalizado pela CPCJ.

 

Por muito esforço que faça para afastar de si uma certa curiosidade mórbida, a Gaffe não resiste e tenta a todo o custo imaginar em que consiste o sinalizar CPCJotiano.  Acaba a imaginar a Assistente Social a sair do automóvel, a trocar os tacões pelas sabrinas - não vá pisar nada que conspurque o verniz -, a sacudir os rebuços do casaquinho e a retirar da carteira um autocolante redondinho e pequenino que vai colar na porta onde se suspeita existir violência, seja ela qual for e tome as formas que tomar. Feito o serviço, a Assistente Social troca as sabrininhas pelos tacões, enfia-se no carro e, chegada à sede, abre um dossier onde escreve o que fez, colocando-o depois na estante ao lado dos outros, alinhados e com cores harmoniosas, que as colegas vão coleccionando até se esgotarem as rodinhas coloridas.

 

A Gaffe fica sempre espantada quando se depara com uma criança que sofre sevícias tais que a deixam estropiada ou que a acabam por matar. Estava sinalizada, valha-nos Deus! Ninguém denuncia a empresa de autocolantes que os fabricam sem adesivo suficiente!

A Gaffe fica sempre boquiaberta quando lhe dão a entender que os autocolantes não são de grande qualidade, porque para quem é, bacalhau basta. Ninguém se lembra de sinalizar uma criança de doze ricos anos que exige ser defendida por uma das maiores e mais caras firmas de advogados do país no processo de divórcio dos seus progenitores-vedetas. No entanto, o facto de lhe chamarem Dinis Maria consubstancia já suspeita de agressão.

 

Um escândalo.

 

O autocolante luminoso, quando colocado devidamente, é acompanhado por procedimentos que podem ser efectuados no aconchego do gabinete. A Assistente Social senta-se na sua almofada contra as hemorróidas e envia aos médicos e aos professores um papel onde se solicita, respectivamente, informação clínica e académica relativa à criança que está no dossier, não se esquecendo de traçar com uma cruzinha feita a marcador fluorescente, que o acompanhamento está a ser executado como manda a Lei.

Havendo casos em que, por exemplo, os médicos - que nunca detectaram a mínima pevide de qualquer anomalia que indiciasse maus tratos e que são perfeitamente competentes e mais do que capazes de a denunciarem se perceberem que ocorre - ficam atolados com estas solicitações, depreende-se que existem CPCJ cujos gabinetes devem parecer um arquivo do Ministério da Justiça da República das Bananas, mas arrumadinho. Uma criança que espirre sem que a mãe a transporte em braços rumo ao 112, é caso de autocolante e posterior dossier que se for anafado prova que há trabalho feito e missão cumprida.

 

A Gaffe suspeita que existem casos sinalizados pelas CJCP que mereciam ser denunciados, não havendo penalização para a coscuvilhice mais sórdida ou para oportunismos carreiristas, como crime de abuso de confiança e de poder.

 

Às vezes, o autocolante fica tão bem cravado e a sinalização é tão zelosa que se torna excessiva e arranca seis crianças aos pais, enfiando-as em Instituições amorosas em que cada petiz albergado rende determinada quantia. Normalmente estes casos são notícia quando o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem reverte a decisão, anunciando que o amor nunca esteve em causa e que não é agradável afastar das famílias crianças que são amadas, porque se ignora ou não se quer acudir à situação de precariedade social e carência económica em que vivem.

 

É evidente que a Gaffe não conhece os casos em que as crianças foram realmente acudidas, mas pela quantidade de inutilidade a que se assiste, não é de admirar a ausência de parangonas sensacionalistas.

 

A Gaffe não admite, nem em pesadelo, colocar em dúvida a necessidade de supervisão do bem-estar infantil, mas perante o que vê, fica chocada com a quantidade de autocolantes que não funcionaram e intrigada com a inexistência de Equipas que não se limitam a lamber o selo do eu bem que avisei!

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