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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe inútil

rabiscado pela Gaffe, em 29.03.16

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Procuro na transparência oculta das palavras captar as imagens da vida dos outros, como quem apanha no ar, com afinco e quase desespero, as partículas mais visíveis do pólen que se espalha, que acabo por sentir que não faço sentido.  


Falo de quem amo e recolho com a angústia que advém da incapacidade de o fazer de modo mais perfeito, os pedaços, os farrapos, os lanhos e as fendas, os rasgos e os segundos que, da vida dos meus mais amados, se abrem nas memórias que deles quero ter.  
Mas acabo por me ver sentada ao longe, no camarote forrado e confortável, a observar o palco onde, sem sentido e com ruído, a vida dos loucos faz parte da minha, mas aquela que vivo é quase sempre alheia, passando nas margens do mundo dos outros sem tocar na água que corre nas almas.  


Que sentido tem não me ver sentir nas malhas do enredo alheio? Que argumento estranho a mim vale a minha vida?

 

Olho para mim e desconheço, de repente, se a minha vida é parte integrante da vida dos outros ou se apenas passo pela brisa da tarde sabendo que me roubaram fogo e asas e que os procuro no céu rasgado à força de tanto o olhar, mas que é céu dos outros.

Olho para mim de vez em quando e quando o faço apenas me vejo pronta a reter os mais irrisórios e os mais inúteis lampejos de luz da vida dos outros. Uma sequiosa atenta a todo o fabuloso e desmesurado génio que de súbito aflora a superfície da alma daqueles que mais quero.  

Hesito.

 

Se pensar mais alto acabo por descobrir a mais evidente das verdades:

Não interessa nada aquilo que aqui faço, especada frente ao monitor a carregar nas palavras e a narrar episódios patetas - patéticos também - que tropeçam e escorregam na minha vida, acabando espalhados nos meus braços.

 

Depois chega, no labiríntico tempo das nuvens e do vento, com a simplicidade doce do início de tudo, a natural conclusão oferecida pela tonta e inocente futilidade que saltita:

Não tenho a veleidade de acreditar que trago as chaves das catacumbas das catedrais da mente e nem sequer ouso falar das catedrais dos céus, porque há alguém a ouvir, interessado, a pedir para me ler, a piamente orar por mais uma palavra, a beber desesperado os despojos das sílabas que repenso, cruzo, entranço, misturo, embebo e torço.

 

Mas, como diz a Guiduxa Rebelo Pinto, Não há coincidências.

 

Folheio, neste instante, o labirinto da minha guerra e da minha paz e na vida de Nada que é a minha, recomeço a ouvir o velho russo: 

Narra a tua aldeia e narrarás o mundo. 

E bem ou mal, atarantada e trôpega, olho-me e vejo-me beijada.  

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