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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a lavrar

rabiscado pela Gaffe, em 30.03.16

Ao contrário do que se possa pensar, uma rapariga esperta, cosmopolita, urbana até à medula, capaz de arriscar a vida no meio de selvas de betão onde os lobos usam Trussardi de colarinho rígido e pasta de crocodilo, não resiste, esporadicamente é certo, à tentação de catrapiscar um rude rapagão isento de qualquer sofisticação ou diplomáticos maneirismos de circunstância, capaz de se tornar inconsciente ameaça ao politicamente correcto e bem composto, ao bon chic, bon genre habitual e exigido pelas criaturas de santas e boas famílias.

 

Há, pois, nas caves esconsas, dentro de cada mundana rebuscada, uma rapariga estonteada aos gritos de deleite desenfreado, a esbracejar de prazer rude e primário, pronta a esquartejar o mundo em cima de um fardo de palha, trucidando sem dó, nem piedade, um mocetão boçal e campestre, sem os aromas da Cartier, de musculatura convincente, que acredita que um Canto d' Os Lusíadas faz parte do léxico futebolístico.

 

O único pormenor a ter em conta, nesta calamitosa e recôndita tendência das mulheres de topo, é o que se refere à quantidade de matulões exigidos. Nestes casos bucólicos, mais vale dois na mão do que um a cavar.     

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A Gaffe até aos tornozelos

rabiscado pela Gaffe, em 30.03.16

É de importância capital o que nós raparigas fazemos com as pernas.

Esquecemos frequentemente que são, por muito incompreensível que para nós seja, uma das armas que dispomos para reforçar vitórias.

São punhais, são serpentes e são rios por onde poetas e flaneurs fazem desfilar todas as palavras, traçando todas as rotas, deixando-se ferir por doces lâminas de carne e envenenar pelo néctar suave que desliza invisível rumo aos tornozelos.

As nossas pernas, minhas caras, são muito mais do que dois instrumentos que nos levam simples e directamente do ponto A para o ponto B. Neste percurso, cabem labirintos e o erro de os ignorar ou desbravar pode atingir-nos de forma fatal fazendo-nos perder dois magníficos trunfos.

 

No jogo, os homens conquistam usando artimanhas tontas, acreditando que o poder de uma gravata Gucci ou de um Armani perfeito, os torna eficazes. A guerra pelo poder no masculino é feita sobretudo com homens vestidos. A nudez masculina, quando usada na guerrilha, jamais acorrentará uma vitória ao tempo. Os homens lutam vestidos e nem sempre é segura a almejada conquista. As mulheres podem - devem - usar todos os recursos que um machismo idiota lhe entregou de mão beijada.

As pernas de uma mulher - mesmo quando vagamente cobertas por redes de seda - são, nos campos das batalhas pelo poder, dois dos mais possantes e incompreensíveis mísseis de que há memória. Sempre detectados pelos radares, mas nunca recusados pelo inimigo.

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