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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na Baixa

rabiscado pela Gaffe, em 31.03.16

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 Há demasiado tempo que não passava pela Baixa do Porto. Tinha saudades da velhíssima Rua das Flores onde, com a minha avó, visitava uma das suas ourivesarias favoritas. Perdido o nome da proprietária, recordo o seu espampanante penteado de um loiro demasiado artificial e as estupendas jóias que com cuidados mil depositava numa tira de veludo negro.

 

Já não existe a ourivesaria.

A Rua das Flores está alterada.

A Baixa do Porto tem um ar lavado, lavadinho.

As casas burguesas, e mesmo as da baixa nobreza, recuperaram as cores originais e exibem fachadas contrastantes, múltiplas, exuberantes ou mesmo gaiteiras e exibicionistas. O escuro foi abolido, a pedra raspada, os azulejos polidos, as rendas das varandas pintadas de fresco.

Estão à venda maioritariamente T0, T1, T2, a preços incomportáveis, inadmissíveis, porque nada distingue os seus interiores de outros apartamentos situados em lugares diferentes da cidade.

A alma das velhas casas burguesas e nobres foi estropiada. Na cidade que tem uma das mais prestigiadas Escolas de Arquitectura do mundo, nenhum arquitecto cuidou das estórias que cada corredor, cada lanço de escada, cada degrau, cada esquina ou recanto, cada baluarte, cada trave, cada parede, cada estuque ou cada portão, tinham para guardar. Foi desentranhado, estripado, demolido, o interior estupendo de cada uma delas. Ergueram-se compartimentos arejados e bonitos. Iguais aos outros todos. Iguais aos que existem em qualquer parte. Só que mais caros e que não consolidam a permanência dos moradores que não encontram maiores, os que permitem aumentar a família.  

São apartamentos banais. Sem qualquer especificidade, sem qualquer característica que os diferencie, sem qualquer respeito pela organismo que lhes deu origem e sobre o qual se ergueu a arrogância, a ganância, a avidez de lucro e a parolice mais tacanha.

 

É evidente que os turistas pululam, mas apercebemo-nos que não são os projectados. Alguns são nauseabundos, outros que de tão pindéricos inspiram compaixão e ainda os há a comprar Rosa e Júlia Ramalho de plástico, Bordalo Pinheiro de maçapão, Sabina Santos de resina ou Rosa Barbosa Lopes de plasticina. Há muita quinquilharia para escolher e tudo se esbardalha à frente das lojas, preso nas paredes, assobiado em inglês por galos de Barcelos porta-chaves. Faltam apenas os muito respeitáveis bandos peruanos que tocam El Condor Pasa com flautas de Pã e sintonizadores.

 

A Baixa do Porto, dizem as más-línguas, assemelha-se a um parque temático, a um sucedâneo barato de uma Disneyland desenrasca. Não é verdade! A baixa do Porto é um bazar atolado e já sem Flores.   

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