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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe diz adeus

rabiscado pela Gaffe, em 29.04.16

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Na estrada que ainda me leva à infância, há uma estranha árvore que nunca perde folhas embora pertença, dizem, ao grupo das caducas.

Fica ruiva.

Adquire tons solares que rasgam a cobertura sombria, esverdeada e húmida, enevoada, dos caminhos.

Nunca parei para lhe tocar ou tentar decifrar aquela teimosia. Creio mesmo que sempre evitei olhar de frente para os ramos frágeis, quase quebradiços, onde pingavam minúsculas e ovaladas folhas luminosas. Às vezes percebia-a a ondular, a curvar ao vento, de copa rala a roçar e a riscar o chão. Outras era o choro a escorrer na fina desolação de se ver sozinha.

Soube, na manhã a jorrar sol nos braços, que a árvore será em breve derrubada para que se alarguem os caminhos.

 

Ontem percorri todas as distâncias que me separam da infância. Parei o carro e fui, ao entardecer, dizer-lhe adeus.

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Gavetas:

A Gaffe regressa a casa

rabiscado pela Gaffe, em 28.04.16

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1.º Andamento

No fim da alameda, ela espera.

A guardiã do eco, dos grãos de pó, das janelas fechadas, das cortinas corridas, condenadas. Aquela que ficou a envelhecer. A que me chamava do fim do corredor sempre que havia espaço para os meus olhos nos reinos das senhoras. Eu chego agora e fico a olhar para dentro com as mãos pousadas nas crostas do portão. No fim da alameda, a que ficou à espera, no exacto lugar em que a minha avó a deixou, a escolhida para zelar por tudo, à minha espera. 

Estava sempre a bordar! Lembras-te, avó?

Uma grande tela branca que ela ia picando e colorindo. Espetava-lhe ramos recurvos, folhas retorcidas e flores emaranhadas. Mal acabava uma rosa, vermelha como uma chaga de Cristo, cravava-lhe junto uma outra qualquer espécie botânica, prolongando o sofrimento do pano. Não ia acabar nunca aquela dor barroca! É certo que de raízes pouco ou nada existia no seu jardim de linhas. Talvez um caule mais tortuoso, um ramo mais retorcido. Os dedos da mulher acabaram substituindo os subterrâneos apêndices, afinal, era através deles que se nutria a flora descoordenada que espalhava no regaço.
Debruçava-se, encostando os olhos à agulha e injectava um fio de sangue para plantar mais rosas e um outro sangue afluía ao dedo picado.
Cinderela a lamber a polpa do dedo, maçã de outra história, ou uma das Parcas, a que corta fios?


 A casa, avó, adormeceu nesse bordado.

                      2.º Andamento

 

Não chores quando eu me aproximar. És tão pequena e tudo é já tão grande. Eu entro devagar e é tudo tão depressa. Deixa-me passar e não me fales. Sorrio uma vez só e olho para ti. Gosto de ti. Sempre gostei. Tinhas aventais repletos de aromas que eu já não conheço. Trazias flores no teu regaço, madressilvas, malmequeres e lírios. Flores a rodearem a cinta, a treparem pelas abas do avental. Cheiravas a lavado, fazias leite-creme e vinhas comigo, a arrastar os pés, quando eu tinha medo do escuro do meu quarto.

Defendeste a casa a tiro de espingarda? Bordaste-lhe o jardim? Correste com aqueles que cortaram as memórias e que deixaram secar as sardinheiras nos canteiros do jardim? Fechaste tudo, até o pó da tarde em que te deixaram só, de modo a que eu encontre o mesmo pó?

 

- Lembraste de mim?
- Não haveria eu de lembrar?! A minha menina pequenina! A menina dos olhos de prata.  
Agora que pisei a minha sala já podes descansar.

 

3.º Andamento


Não há sons. Já não existem os teus sons, avó. Mesmo o ranger do soalho, ainda encerado de quinze em quinze dias, parece diluído. Pesa de perfume o ar que não respiro agora, mas que me entra baço nas narinas e há escuro desperto nas rajadas de luz que entram pelas janelas. É Primavera. Não há vento, mas sinto as folhas esbaforidas a rodopiar. Estou cá dentro e sinto frio, como se tivessem aberto as portas todas e as correntes do ar enfurecidas viessem galopar o meu espaço. Onde fiquei? É mesmo aqui que existo?

Talvez agora entre na luz filtrada azul e madrepérola.
Talvez suba as escadas.
Talvez consiga abrir gavetas e tocar no tempo que parado olha.
Talvez releia as tuas cartas, avó, que já sei de cor e pare por instantes na frase em que se ouve:

 

Esteja onde estiver, hei-de aqui voltar. Mesmo se morrer hei-de ficar aqui. Assim, tu vens e habitas-me.

 

Talvez consiga então descerrar os olhos, cegar e emudecer todos os móveis e pousar os livros.
Talvez desça depois e devagar agarre a minha chave. Aquela que tu deste à senhora do bordado.  
Talvez me deite na terra já despida e neste chão cave uma cova com os lábios, língua e dentes, como quem beija amantes ou estios.
Talvez deixe tombar lá dentro a minha vida.
Talvez lave com terra, depois, as minhas mãos, até a minha pele ficar de lama. Só depois.  
Talvez mergulhe a dor de dentro dos meus olhos, como um lanho, na água da cisterna até acordar o minúsculo coração que respira um barco, o Douro e o vento Norte.

Talvez consiga isto e muito mais.

Mas não consigo, avó, deixar de ter saudades. 

 

Ilustração - Daniel Merriam

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Gavetas:

A Gaffe a voar

rabiscado pela Gaffe, em 27.04.16

Todas as mulheres são pássaros.

Nem todas capazes de voos profundos ou de longo curso, mas todas com capacidade para escapar abrindo as asas.

O ditado que refere que mais vale um pássaro na mão do que dois em pleno voo, esquece, por ser apertado pelas margens do estereótipo, que há mulheres que voam parecendo estar presas nas mãos de quem as aperta.

Nem todos os homens sabem disso.

 

Imagem - Hiro (Getty Museum)

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A Gaffe desconfiada

rabiscado pela Gaffe, em 26.04.16

Making of Karl Lagerfeld Eyewear Campaign.jpgA Gaffe desconfia de quem lhe diz que há sempre um lugar ao sol para toda a gente. Normalmente é uma criatura que prefere ficar na sombra.

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A Gaffe num instante

rabiscado pela Gaffe, em 25.04.16

Rafael Ochoa.jpgContaram-me  depois de tantos anos:

 

Abril de 1975

A empregada veio de mansinho para provocar menos estragos no tempo de descanso da minha avó. Entrou, almofadada, embrulhando as mãos no avental florido.

A minha avó olhou-a e levantou-se.

Agarrou-lhe a blusa e afastou-a. Murmuraram na sombra, junto da janela, escondidas por portadas de madeira. As duas cinzentas. As duas vibrantes. Subitamente em redor delas o estremecer do ar, a subtil presença do alerta, o espasmo das presas que detectam o odor do predador de focinho a vibrar.

A rapariga desatou a chorar. De mãos erguidas, como um lenço sujo. A minha avó prendeu-lhe os braços, sacudiu-a e deu-lhe as ordens secas, pesadas como chumbo ou perfumes tombados da janela. A ameaça erguia-se. Escorria pelo soalho a pressa suada da partida. Por isso havia a urgência. Por isso seguravam nas adolescentes. Encaixavam-nas no fundo do carro.

A minha avó fechava as mãos da mulher mais velha sobre as chaves, no meio do barulho de malas atiradas.

Depois as portas e as janelas encerradas. O carro a trabalhar. A minha avó a descer o vidro e a assinar as ordens derradeiras.

Ninguém entra. Que tudo se mantenha como está.

Defende-me esta casa com a vida. Lembra-te sempre do que é bem mais forte do que qualquer tiro: a menina volta. Se não for esta, será a depois desta. Custe o que custar, uma menina volta.


Abril 2016

Abres-me as portas agora?

 

Imagem - Rafael Ochoa

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A Gaffe receita

rabiscado pela Gaffe, em 22.04.16

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Segundo uma especialista as mezinhas coleccionadas pela avó e que descobrimos encadernadas em sépia no sótão da nossa infância revisitada, às vezes oferecem os resultados que prometem.

 

Beber um copo com água tépida onde diluímos uma colher de chá de mel e uma colher de chá de canela em pó, meia hora antes do pequeno-almoço e meia hora antes de deitar, faz com que a nossa pele, a médio prazo, irradie luz e adquira a textura do veludo.

 

A Gaffe experimentou uma primeira vez e aconselha, em alternativa, o vapor de água de uma banheira com testosterona a flutuar. Sem horário.

 

Deixemo-nos de mariquices.   

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A Gaffe num quarto

rabiscado pela Gaffe, em 21.04.16

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A Gaffe compreende que seja necessário um tempo substancial para que as meninas descolem os olhos do rabiosque deste rapagão.

A Gaffe demorou mais do que o previsto na Lei e solidariamente espera que arranquem as pupilas esbugalhadas do descuido do adormecido.

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Posto isto, minhas queridas, urge fazer algumas considerações.

Por muito empobrecedor que seja, não são les petites choses mais badaladas ou mais edificantes que, incensadas por nós, definem um homem.

Por muito que desgoste as mais puristas, as mais moralizadoras ou as mais velhas, não são as árvores que plantaram, os livros que escreveram ou o Bugatti que conduzem o que permite o desvendar de um homem.

 

É o seu quarto.

 

Evidentemente que os decoradores minimalistas nos confundem.  Um inteligente despojamento – sobretudo o que custa os olhos que finalmente conseguimos desencravar do rabo da imagem - é sempre uma ocultação de planos de intimidade mais subterrâneos, apesar de não ser de todo inócuo, por fazer pressentir no dono um desapego caro, uma quase indiferença pela memória, um despido alerta de possível solidão futura.

 

Podemos fazer o que quisermos do rabo minimalista, tendo sempre a porta de saída como ponto de foco.

 

São os quartos mais povoados que nos falam do seu habitante.

 

A Gaffe exemplifica aproveitando o cubículo onde se encontra o rabinho do rapaz.

Observemos apenas cinco pormenores que próximos estão do que nos distrai:

I

Um urso de peluche.

Fujam de homens que dormem com bonecos – sobretudo bonecos que se barbeiam e que não descem a tampa da sanita. São homens que usam diminutivos parvos que substituem os nossos nomes. Num instante passamos a ser Gabi, Liluzinha, pipoquinha ou, na pior das hipóteses, morzinho.

Um peluche na cama de um homem, é uma ordem de fuga. Convém que a acatemos antes do rapaz telefonar a mãe a relatar-lhe o dia.

II

A colecção de fotografias colada à cabeceira da cama.

Se não apreciamos o espírito de missão – sejamos subtis – que nestes casos nos permitiria olhar para o tecto, - acabamos a comparar as nossas maminhas com os opulentos melões esbardalhados no estuque. Temos de admitir que não é de todo excitante ter um bando de senhoras nuas, muito dadas, a mirar-nos sorridentes, enquanto fazemos de conta que pertencemos ao Cirque du Soleil.     

Não é seguro acreditar que se as fotos forem do John Wayne ou de Stephen Hawking altera o desconforto. Para quem é fã do ménage à trois ou em multidão, as fotos das meninas, apesar de tudo, são mais produtivas. Um homem que é capaz de nos mostrar a cabeceira povoada por cartazes mamalhudos, tem debaixo da cama revistas pornográficas e espreita a vizinha pelo telescópio.

III

Os crocs!

Sendo a mais foleiras das criações da humanidade, os crocs são o fundo do poço. Ninguém, rigorosamente ninguém – incluindo cães pequenos e gatos anafados - deve ir para a cama com um homem capaz de usar aberrações nos pés. Se certo é que vários estudos referem que um rapagão que mantém as peúgas calçadas enquanto nos mostra do que é capaz aquilo que vimos, é mais bafejado – não há bons amantes de pés frios, - e se a bem da Nação nos conformamos com esta ciência, não podemos relevar uns crocs no chão.  

Um homem que é capaz de usar crocs, aparece de bermudas e T-shirt no jantar da Cruz Vermelha, só para justificar o sorriso de Charlene.

IV

Um Instrumento musical.

É certo que aquela guitarra eléctrica vai guinchar e ganir, mais cedo ou mais tarde.  É certo que vamos ter de ouvir o mix a cover ou o remake de coisas estranhas enquanto esperamos que seja outra a versão a fazer-nos vibrar. Os homens que nos forçam a testemunhar o talento que não têm, merecem que tentemos despejar as garrafinhas de água na tomada onde ligaram o instrumento - que não é exactamente aquele que as meninas nestas alturas se limitam a esperar.

V

A ausência de livros.

Só devemos ir para a cama com um homem que está a ler um bom livro ou que o acabou de fazer.

 

Cinco pormenores decisivos para o disparar do alerta vermelho. Se não fugirmos depois de os conhecer, é porque o rapagão é o da imagem e, apesar de tudo, mais vale sempre mais um rabo daqueles na mão do que um quarto decorado pelo Querido mudei a Casa.

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A Gaffe e o Ken

rabiscado pela Gaffe, em 20.04.16

 A Gaffe não simpatiza com os metrossexuais.

 

Não é de todo agradável perceber que o rapaz que lhe prometeu no dia anterior viagens alucinantes pelo universo da masculinidade mais renhida e empedernida, lhe surge na manhã seguinte usando os cremes que lhe surripiou, escancarando as portas do armário onde se escondiam da demanda sorrateira do patife.

 

Uma rapariga fica sempre amorosa enfiada numa banheira de espuma, el cuerpo caliente, um dolce farniente sem culpa nenhum, com duas rodelas de pepino cravadas nas olheiras e a cobri-lhe a face uma pasta esverdeada que a torna, ainda que temporariamente, o Fantasma da Ópera.

Ao som de Vivaldi, a Primavera dos unguentos, das pastas, dos óleos, dos cremes, das essências, das loções, dos hidratantes, dos esfoliantes, dos depiladores, dos amaciadores, dos condicionadores, dos rejuvenescedores e de todas as outras dores que nos arrancam o tempo a pinças e tiras de cera quente, é sagrada. Jamais abdicaremos do nosso estético intervalo masoquista.

 

Não é contudo muito agradável apanhar logo pela manhã desprevenida  - em que é suposto o pequeno-almoço ser servido na cama por um matulão com a barba por fazer, de calças de pijama e tronco nu, que não se esqueceu de lavar os dentes antes de acordarmos e depararmos com esta cerimónia com um travo cliché - o susto tenebroso de termos ao lado a rígida, hirta, tesa, petrificada e esquálida face de um homem que se lembrou de estucar a cara com os cremes que usamos no aconchego da nossa mais esconsa intimidade e de vazar os olhos com as rodelas de algodão embebidas em essências que prometem a aniquilação de todas as rugazinhas que trazem pés.

Não é nada encantador, sobretudo se pensarmos que, de acordo com a Lei das compensações, se rígida está a cara do rapaz, solidificados os cremes hidratantes, é limpo que outras miudezas ficam frouxas.

 

Depois, é um desalento insípido uma rapariga ir de encontro aos peitorais de um rapagão sem que o embate seja amortecido por uma discreta e subtil almofada de pêlo ou pensar, no abrigo de um sono adivinhado, que as pernas masculinas onde se enrosca estão melhor depiladas do que as dela. A destruição do delicioso atrito causado pelos pêlos masculinos no veludo da nossa pele macia e depilada deveria ser excomungada ou exorcizada pelo Papa, repudiada pelo Dalai Lama e condenada publicamente pela Isilda Pegado - e a barba crescida não conta como atenuante.  

 

A Gaffe lamenta a ensandecida fúria, a cruzada destruidora, a guerra aberta travada nos campos de batalha de azulejo e mármore - de Carrara ou daqui perto - dos WC das suites masculinas, contra toda a pilosidade que subsiste. Perdoa aos pecadores o desertificar, o desbravar, o arrotear, o desmoitar, das costas - não vá pensar-se que gosta de peluches, - mas não absolve os homens que a fazem pensar que acordou com o Ken XL enfiado na cama.    

 

Na foto - Juan Betancourt - Tom Ford for men

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A Gaffe atrapalhada

rabiscado pela Gaffe, em 20.04.16

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A Helena propôs-me um desafio que dá um trabalhão monumental!

Para além de ter de esbardalhar a imagem que encarna a provocação, há que referir 11 factos relacionados comigo, responder a 10 questões e apontar os canhões para uma data de blogs que responderão caso aceitem - e o convite não é de todo um ultimato - a 10 perguntas feitas por mim, perpetuando esta maldade.

 

Por muita boa vontade que tenha - e não é assim tanta - enumerar os malditos 11 factos acaba por ser repetir pormenores que estão espalhados por estas avenidas. Toda a gente sabe que sou ruiva, que morro de amor pela cozinha tradicional do Norte de Portugal, que não consigo engordar um grama mesma que passa o dia a saciar a gula, que as minhas costelas não são oriundas do mesmo país, que a minha página no Facebook durou dois meses e morreu por inanição ou que sou a irmã mais nova de dois portentos talentosos que não nos fazem sentir amor à primeira vista.

 

Torna-se  portanto mais engraçado responder de imediato às questões que me couberam em sorte.

1 - Primavera ou Outono?

Disseram-me um dia que existem pessoas noctívagas que contrastam, ou completam, as que são luminosamente diurnas e dentro deste último grupo, vivem as que se acomodam apenas à manhã e as que pertencem à tarde. Provavelmente as estações dividem de igual forma.

Seja como for, sou claramente do Outono e, contrariando o poeta que quer fazer comigo o que a Primavera faz às cerejeiras, escolho frutos secos.

 

2 - Qual é o teu passatempo favorito?

Creio que não tenho tempo para passar! O tempo passa por mim sempre a correr.

Se tivesse de escolher um passatempo, passava o tempo a admirar a pressa com que o tempo passa.

 

3 - O que fazes quando ninguém te vê?

Cometo crimes! Bocejo sem colocar a mão na boca, arranjo as copas do soutien e tiro as cuecas do rabo. Às vezes aproveito e canto como uma tresloucada ao som do primeiro chuveiro que encontrar.

 

4 - Uma memória feliz.

O meu avô.

 

5 - Um sonho ainda por cumprir.

Aquele que sei que não se cumprirá jamais. Não tem importância se continua um sonho.

 

6 - O que farias se soubesses que de certeza corria bem?

Atirava a Joana Vasconcelos para cima da Margarida Rebelo Pinto e esperava que depois o resto corresse mal. 

 

7 - Quem te põe um sorriso nos lábios só de pensar (nessa pessoa)?        

Apenas duas criaturas conseguem que abra sorrisos na alma dessa forma: o meu rapagão e o meu Gigante. Os sorrisos são diferentes… o primeiro, normalmente acaba num suspiro ou numa pequena morte abençoada, o segundo principia na saudade.

 

8 - filme ou música que te tenha marcado.

Não sou muito propensa a ser marcada pela música e nunca fui de fitas.

 

9 - Qual seria o próximo destino de férias ideal?

Férias?! Onde?! Em Petra!

Já retirei da mochila o meu Iphone e o meu Ipad, não vá passar por refugiada.

 

10 - O que tens sempre contigo?

A vontade de viver.

              

É chegada a altura de imolar algumas das minhas companheiras de infortúnio - os meninos desta vez ficam de fora. Sublinho que estas nomeações não vinculam ninguém, mas seria muito interessante ouvir a Filipa, a Catarina, a MJ, a Maria Araújo, a Fatia, a Magda, a Neurótika, a Mula, a Azulmar, a Miss X e a Sara a responder a isto!

 

1 - Quais são, segundo os teus critérios mais íntimos, as três palavras mais belas da Língua Portuguesa? 

2 - Quem escolherias tu para Presidente do Mundo?

3 - Dos teus cinco sentido, qual o mais e o menos importante para ti? Porquê?

4 - Qual (e justifica a escolha) o blog que levarias contigo para uma ilha deserta?

5 - O que farias se fosses invisível durante 24 horas?

6 - Qual seria primeiro Decreto que assinarias se fosses uma Ditadora implacável e impune?

7 - O que defendes com paixão, mas que na realidade nunca te preocupou grande coisa?

8 - Escolhe um(a) amigo(a). O que dizes quando falas nele(a)?

9 - Escolhe UM dos teus blogs favoritos. Qual seria o presente ideal que lhe oferecerias?

10 - Qual foi o primeiro pensamento - sério - que tiveste hoje ao acordar?

 

Minhas queridas, resta-me desejar-vos trambolhões de paciência.

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Gavetas:

A Gaffe mínima

rabiscado pela Gaffe, em 19.04.16

La coiffeuse, Paris, 1950, a photo by Robert Doisn

Sofro daquilo a que poderemos chamar Síndrome da Irmã Mais Nova.

 

Passemos a explicar:

Vivo rodeado de gente com talento em várias áreas. Acabo por apagar qualquer centelha, qualquer brilho minúsculo, qualquer vislumbre de potencial criativo que possa eventualmente possuir.
Apagam-se os meus luzeiros perante as fogueiras e os incêndios que se me deparam.
Não desenho, não fotografo, não pinto, não escrevo, não danço, não cozinho, não me visto de modo irrepreensível, não canto, não construo miniaturas de barcos do século XV, não planto coisas, não componho música, não aprecio ópera, não projecto edifícios, não gosto de casas minimalistas, não toco nenhum instrumento, não me perco com paisagens, não arranjo as unhas e não vou ao cabeleireiro.


E vejo mal ao longe.

 

Foto - La coiffeuse, Paris, 1950, Robert Doisneau

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Gavetas:

A Gaffe diferente

rabiscado pela Gaffe, em 19.04.16

IRL.jpgNão há muito tempo, à saída do aeroporto, Pequim na mira, fui abordada por dois chineses velhíssimos que excitados suplicavam que tirasse ao lado deles uma fotografia.

Acedi.

Percebi pela alegria gestual das milenárias criaturas que era o facto de ser ruiva a razão do alarido. Provavelmente seria como captar uma imagem ao lado de um unicórnio ou, mais prosaicamente, de um orangotango aos caracóis que ruivos deveriam ser também. A verdade é que, em contrapartida, os obriguei a posar comigo, numa recordação só para mim. Não podia perder a oportunidade de registar o momento em que me cruzei com duas múmias da dinastia Ming.

 

Não há muito tempo, na Irlanda, passei despercebida.

Um país absolutamente indiferente à minha cor, porque é o local do planeta onde existe a maior concentração de ruivos por metro quadrado. Mais uma, menos uma, é coisa de pipocas.

Para além de ruivas e de ruivos – há que respeitar todos os blocos, - a Irlanda tem cavalos, ovelhas, cães, muita erva e um tempo desgraçado. A conjugação destes factores provoca saudades da China, onde pelo menos encontramos alguma excitação a tentar não atropelar ninguém no meio da cortina de névoa envenenada.

 

Este confronto com tão diferentes conceitos de normalidade deixa-me siderada.

É maravilhoso o modo benigno como neste planeta a diferença é às vezes olhada! É extraordinário perceber que é apenas a lei das maiorias a definir a regra e, em consequência, a provocar o preconceito – origem básica de todo o erro do julgar, - mas que, ao mesmo tempo, é capaz de acolher quase de forma divertida a fuga aos que dela escapam.

 

É encantador compreender que nos portamos todos como tontos num planeta povoado pela diferença, como somos ingénuos e teimosos quando incensamos o nosso umbigo fornecendo-lhe o estatuto de vedeta e de modelo único e que, ao mesmo tempo, ali bem perto, consideramos que uma fotografia ao lado da dissemelhança merece ser mostrada aos netos como triunfo sobre o quotidiano.

 

É esplêndido porque nos faz vislumbrar que no meio da paisagem irlandesa apetece muito e é tão bom poder encontrar dois velhíssimos chineses para lhes suplicar uma foto em conjunto.  

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A Gaffe feminina

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.16

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O facto de me tentarem exigir um esforço adicional para atingir determinadas metas, de subtilmente procurarem provas do meu mérito ou atribuírem os louros que esporadicamente recolho ao facto de ser mulher, deixa-me descaradamente insensível ou é olhado com relativo humor.

 

Na mesma linha, os meus fracassos são observados com lupa e as hipérboles surgem constantes - embora não haja dano, porque ninguém como eu para empolar as minhas lamentáveis falhas.

 

Tudo, porque sou feminina.

 

Ser-se feminina ao contrário do pensado, pode não ser vantagem séria. O facto de se ser mulher serve muitas vezes de desculpa e de álibi ao fracasso do macho e há sempre a possibilidade de encontrar no caminho a irónica exigência de apresentação de capacidades acrescidas para reter o que é nosso, por direito ou por esforço, mas que é visto sempre atenuado ou esbatido, visto como sucedâneo muito provável daquilo que somos fisicamente.

 

Nunca tal me fez agitar mais do que o devido.

Nunca permiti que me exigissem fosse o que fosse para além daquilo que forçoso seria de esperar.

 

O estratagema usado pelos meus rapagões, rivais na profissão, apenas me desperta a consciência do corpo e, se o ser feminina é uma poderosa arma - de que me esqueço nos campos de batalha onde pensar é ordem de serviço, - quem a dispara é sempre o acusador.

 

Às vezes, possuir a arma da feminilidade não significa necessariamente que a usemos, mas é provável que o façamos no meio de sacanas, quando o inimigo nos lembra que ela existe.

 

Na foto - Virna Lisi

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A Gaffe e os cavalheiros

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.16

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 Gosto muito de cavalheiros.

 

Homens que se levantam quando nós entramos ou que nos oferecem um lugar na primeira fila e se deixam esmagar pela multidão enlatada dos balcões nos concertos com menos distinção. Acontece que hoje cavalheirismo é deixar a mulher ter o orgasmo primeiro. Nada mais. É de lamentar, até porque só somos verdadeiramente mulheres quando aprendemos a mentir na idade, no número que vestimos, no peso e na maioria dos orgasmos. Este último dado limita imenso a área de acção do actual cavalheiro e falseia a classificação. Temos um orgasmo primeiro do que eles, porque também aprendemos a fingi-lo com eficácia quando tudo se torna muito cansativo.

 

Não nos entreguemos à ilusão. Acreditar que ainda sobram cavalheiros é como confiar num creme anti-celulite ou num homem lindo, solteiro, com mais de 40 anos e que recusa todos os nossos convites. Em ambos os casos - creme e homem - acabamos sempre deprimidas. Achamos, no primeiro acidente, que talvez necessitemos de botox, porque não nascemos ontem e, no segundo, que talvez o senhor não seja gay, nós é que estamos uns cangalhos.

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A Gaffe mafiosa

rabiscado pela Gaffe, em 15.04.16

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 Quando está tudo em reboliço, atolado em trabalho e a rebolar por tudo quanto é lado e eu sentada na poltrona a olhar as unhas, arranjam-me sempre qualquer coisa desagradável para fazer.

 

Hoje a minha irmã, completamente tresloucada, de papéis na boca e olhar de psicopata assassina, encarregou-me de ligar ao cabeleireiro com o objectivo de marcar um corte de cabelo a um cliente a que prevê drenar a carteira.

Não é política da casa agendar bricolage, mas a predadora sabe perfeitamente como lançar armadilhas, sobretudo quando as presas têm contas offshore. O corte de cabelo não passa, portanto, de um golpe certeiro. Alguém ia ser abatido através do fascínio exercido indirectamente pela minha irmã usando o prestígio de um cabeleireiro premiado pela Vogue.

 

Telefonei cerca de quatro vezes e, nessas quatro vezes, ninguém atendeu. Depois esqueci-me.

Quando o senhor chegou percebi que bastaria o barbeiro da esquina para o deixar de rastos, desde que o referido barbeiro usasse o secador no mínimo, e desligasse a ventoinha. O senhor, redondo e baixinho, que recusava a ser careca e que por isso se penteava como se trouxesse uma aranha gigante, preta, agarrada ao ovo da cabeça, declarou-se muito agradecido e explicou:

- A menina sabe: lá em cima - a minha irmã não faz a mínima ideia do que se passa lá em cima, embora suspeite que é perita no que se passa lá em baixo - não há coisa que preste e o meu filho é um jovem muito moderno. Percebi então:

 

1 - Que o cabelo era o do filho moderno daquele senhor e não o bicho que o senhor trazia na cabeça;

 

2 - Que ninguém se tinha lembrado que o cabeleireiro da minha irmã nunca está às Sextas-feiras;

 

3 - Que, mesmo que estivesse, não havia marcação nenhuma em lado nenhum, porque EU me tinha esquecido por completo do caso.

 

A minha irmã só não me atiçou o estagiário, mandando-o torcer-me os mamilos até jorrar sangue pelo nariz, porque suspeitou que o rapazola poderia querer trocar de lugar comigo. Mas tudo se resolve quando está em jogo um jovem moderno como aquele. Juntamos esforços e o meu irmão, cúmplice da máfia, agendou um corte de cabelo para hoje às 18 horas, mas no barbeiro dele, a velha guarda da tesoura e pente.

Apanhamos, depois da feliz notícia, com o cliente a sorrir alarve enquanto, durante quase uma hora, o filho jovem e moderno, desancava nos cabeleireiros bichas em particular, e insultava, aviltava, massacrava, arrasava, destruía, abatia e espezinhava a homossexualidade em geral. O rapaz babou-se, riu, esgadanhou-se, fez de mimo, cantou, recitou, contou anedotas, - com um acentuado travo sopinha de massa, - aplaudiu-se e enojou-se. Tudo para se mostrar de costas viradas a essa doença. A minha irmã plantou na cara o seu mais perfeito sorriso enquanto lhe ia espetando nas nádegas as tesouras dos olhos, e eu ia imaginando o pai do jovem moderno, todo nu, a dançar o fandango, com um cacho de bananas na cabeça e o retrato de rapaz pendurado na pila.

Valha-nos Deus!

 

Hoje às 18 horas há corte de cabelo e o meu irmão já tem no telemóvel mais de dez mensagens do jovem moderno que deseja muito, muito, muito, muito, jantar com ele. Ah! que ele quer tanto! tanto! tanto!

 

Só espero que o cabeleireiro lhe faça umas tranças, ou então uns totós. Sou uma rapariga perversa e sempre fantasiei ver o meu irmão a jantar um rapazinho mascarado de liceal ... muito moderna.

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A Gaffe do Gigante

rabiscado pela Gaffe, em 15.04.16

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Vou procurar em todos os olhos das ruas o que te quero dizer e hoje, exactamente hoje, no dia dos teus anos, a nudez das coisas será completa e nos tecidos destas pontes vou procurar o que queria ter para te entregar.

 

Gostava tanto!

 

Durante a minha vida toda aproximei-me daqueles a quem bastava o amor para se entregarem e como se fossem lagos, nas vidas que se cruzam com a minha, mergulho as mãos dos olhos.

Então a minha vida deixou-se aquietar, mas na quietude arde-me o teu olhar de ver a vida, afogueando os ninhos dos meus braços, deixando os outros a morar em mim, que me inquieto se não acreditar ter à minha volta, à espera, os teus abraços.

Tenho restos de velas e de lenços e de capas e de mantos e de trapos que roubei, rompi e que não sei vestir, que não são meus. Sou carteirista, ladra, vadia e vagabunda de almas. Também sou peregrina dentro delas.

Pensava não ter gente. Pensava só ter olhos.

Nunca me senti capaz ou merecedora de recolher nos braços a impossível claridade de me sentir amada sem motivo ou corpo.

 

Hoje vou procurar por todo o lado uma palavra que não sei sequer pronunciar por dentro. Queria-a amarrada a mim, para ta entregar comigo atada, e ao descer em mim, que não a vejo fora, encontro-te inteiro num abraço.

 

Gostava tanto!          

 

Descubro assombrada que te quero sempre aqui, assim, em mim, cá dentro.

Se eu chorar agora é de mansinho por descobrir que tenho os braços habitados por ti e que se a vida me deu olhos foi só para te olhar o coração.

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