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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num sussurro

rabiscado pela Gaffe, em 12.04.16

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Como se a mansidão atapetasse os corredores do tempo e a brandura dos gestos se tornasse corpo decifrável, as manhãs em que ele chega tornam-se palpáveis. Como se o silêncio fosse mais pesado. Como se o som da minha vida estendesse mantas de veludo nos meus olhos.  
O sorriso do rapagão ao meu lado, calmo, reflecte a melodia terna da bonança e de súbito eu cresço e sou melhor do que eu ao lado dele, maior do que eu, igual a mim, maior do que seria ser sem o ter ao lado.  
Chega e eu fico a ver até que a mão gigante toca a minha. Os dedos agitados à procura da memória dos meus, do meu corpo que se lembra.

 

A melodia no espaço. A noite com frouxos farrapos de frio e de cristal e a voz de Jacinta. 

Mesmo à flor das águas 
Noite marinheira 
Vem devagarinho 
Para a minha beira 

 

Fico de pé a ouvir.  
Lento o braço dele vem demorar-me nos ombros. Na minha nuca o calor da boca e o meu sussurro igual ao do piano que lamenta a solidão que sente por não ter ao lado o som do saxofone.  
E a noite vem beijar a alvorada que murmuro: 

 

Dorme meu menino a estrela d'alva 

Já a procurei e não a vi 
Se ela não vier de madrugada 
Outra que eu souber será p’ra ti

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A Gaffe que passa

rabiscado pela Gaffe, em 12.04.16

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- Cala-te, minha vaca, que eu arranco-te a pedra dos dentes à chapada!

- Porca! atreve-te a tocar-me e até ficas sem a cabeça dos dedos!

 

É tão reconfortante, no início da manhã e da Avenida, ser brindada com a ternurenta oportunidade de me espantar com a vida!

As duas pequenas que ainda há instantes jogavam à macaca no pavimento da Foz são agora duas rapariguinhas feitas e mimosas.

Quem diria que namoram já?! Parece que com o mesmo, pelo desaguisado.

E basta vê-lo encostado à pedra para compreender as razões que assistem às duas donzelas: de braços cruzados e músculos morenos, de pernas traçada e sorriso macho, encolhe os ombros e bufa entre dentes um fumo fininho, carimbando a cena como inevitável.

 

Como o tempo passa quando é apenas o tempo a passar!

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