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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe mafiosa

rabiscado pela Gaffe, em 15.04.16

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 Quando está tudo em reboliço, atolado em trabalho e a rebolar por tudo quanto é lado e eu sentada na poltrona a olhar as unhas, arranjam-me sempre qualquer coisa desagradável para fazer.

 

Hoje a minha irmã, completamente tresloucada, de papéis na boca e olhar de psicopata assassina, encarregou-me de ligar ao cabeleireiro com o objectivo de marcar um corte de cabelo a um cliente a que prevê drenar a carteira.

Não é política da casa agendar bricolage, mas a predadora sabe perfeitamente como lançar armadilhas, sobretudo quando as presas têm contas offshore. O corte de cabelo não passa, portanto, de um golpe certeiro. Alguém ia ser abatido através do fascínio exercido indirectamente pela minha irmã usando o prestígio de um cabeleireiro premiado pela Vogue.

 

Telefonei cerca de quatro vezes e, nessas quatro vezes, ninguém atendeu. Depois esqueci-me.

Quando o senhor chegou percebi que bastaria o barbeiro da esquina para o deixar de rastos, desde que o referido barbeiro usasse o secador no mínimo, e desligasse a ventoinha. O senhor, redondo e baixinho, que recusava a ser careca e que por isso se penteava como se trouxesse uma aranha gigante, preta, agarrada ao ovo da cabeça, declarou-se muito agradecido e explicou:

- A menina sabe: lá em cima - a minha irmã não faz a mínima ideia do que se passa lá em cima, embora suspeite que é perita no que se passa lá em baixo - não há coisa que preste e o meu filho é um jovem muito moderno. Percebi então:

 

1 - Que o cabelo era o do filho moderno daquele senhor e não o bicho que o senhor trazia na cabeça;

 

2 - Que ninguém se tinha lembrado que o cabeleireiro da minha irmã nunca está às Sextas-feiras;

 

3 - Que, mesmo que estivesse, não havia marcação nenhuma em lado nenhum, porque EU me tinha esquecido por completo do caso.

 

A minha irmã só não me atiçou o estagiário, mandando-o torcer-me os mamilos até jorrar sangue pelo nariz, porque suspeitou que o rapazola poderia querer trocar de lugar comigo. Mas tudo se resolve quando está em jogo um jovem moderno como aquele. Juntamos esforços e o meu irmão, cúmplice da máfia, agendou um corte de cabelo para hoje às 18 horas, mas no barbeiro dele, a velha guarda da tesoura e pente.

Apanhamos, depois da feliz notícia, com o cliente a sorrir alarve enquanto, durante quase uma hora, o filho jovem e moderno, desancava nos cabeleireiros bichas em particular, e insultava, aviltava, massacrava, arrasava, destruía, abatia e espezinhava a homossexualidade em geral. O rapaz babou-se, riu, esgadanhou-se, fez de mimo, cantou, recitou, contou anedotas, - com um acentuado travo sopinha de massa, - aplaudiu-se e enojou-se. Tudo para se mostrar de costas viradas a essa doença. A minha irmã plantou na cara o seu mais perfeito sorriso enquanto lhe ia espetando nas nádegas as tesouras dos olhos, e eu ia imaginando o pai do jovem moderno, todo nu, a dançar o fandango, com um cacho de bananas na cabeça e o retrato de rapaz pendurado na pila.

Valha-nos Deus!

 

Hoje às 18 horas há corte de cabelo e o meu irmão já tem no telemóvel mais de dez mensagens do jovem moderno que deseja muito, muito, muito, muito, jantar com ele. Ah! que ele quer tanto! tanto! tanto!

 

Só espero que o cabeleireiro lhe faça umas tranças, ou então uns totós. Sou uma rapariga perversa e sempre fantasiei ver o meu irmão a jantar um rapazinho mascarado de liceal ... muito moderna.

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A Gaffe do Gigante

rabiscado pela Gaffe, em 15.04.16

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Vou procurar em todos os olhos das ruas o que te quero dizer e hoje, exactamente hoje, no dia dos teus anos, a nudez das coisas será completa e nos tecidos destas pontes vou procurar o que queria ter para te entregar.

 

Gostava tanto!

 

Durante a minha vida toda aproximei-me daqueles a quem bastava o amor para se entregarem e como se fossem lagos, nas vidas que se cruzam com a minha, mergulho as mãos dos olhos.

Então a minha vida deixou-se aquietar, mas na quietude arde-me o teu olhar de ver a vida, afogueando os ninhos dos meus braços, deixando os outros a morar em mim, que me inquieto se não acreditar ter à minha volta, à espera, os teus abraços.

Tenho restos de velas e de lenços e de capas e de mantos e de trapos que roubei, rompi e que não sei vestir, que não são meus. Sou carteirista, ladra, vadia e vagabunda de almas. Também sou peregrina dentro delas.

Pensava não ter gente. Pensava só ter olhos.

Nunca me senti capaz ou merecedora de recolher nos braços a impossível claridade de me sentir amada sem motivo ou corpo.

 

Hoje vou procurar por todo o lado uma palavra que não sei sequer pronunciar por dentro. Queria-a amarrada a mim, para ta entregar comigo atada, e ao descer em mim, que não a vejo fora, encontro-te inteiro num abraço.

 

Gostava tanto!          

 

Descubro assombrada que te quero sempre aqui, assim, em mim, cá dentro.

Se eu chorar agora é de mansinho por descobrir que tenho os braços habitados por ti e que se a vida me deu olhos foi só para te olhar o coração.

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