Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe mínima

rabiscado pela Gaffe, em 19.04.16

La coiffeuse, Paris, 1950, a photo by Robert Doisn

Sofro daquilo a que poderemos chamar Síndrome da Irmã Mais Nova.

 

Passemos a explicar:

Vivo rodeado de gente com talento em várias áreas. Acabo por apagar qualquer centelha, qualquer brilho minúsculo, qualquer vislumbre de potencial criativo que possa eventualmente possuir.
Apagam-se os meus luzeiros perante as fogueiras e os incêndios que se me deparam.
Não desenho, não fotografo, não pinto, não escrevo, não danço, não cozinho, não me visto de modo irrepreensível, não canto, não construo miniaturas de barcos do século XV, não planto coisas, não componho música, não aprecio ópera, não projecto edifícios, não gosto de casas minimalistas, não toco nenhum instrumento, não me perco com paisagens, não arranjo as unhas e não vou ao cabeleireiro.


E vejo mal ao longe.

 

Foto - La coiffeuse, Paris, 1950, Robert Doisneau

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe diferente

rabiscado pela Gaffe, em 19.04.16

IRL.jpgNão há muito tempo, à saída do aeroporto, Pequim na mira, fui abordada por dois chineses velhíssimos que excitados suplicavam que tirasse ao lado deles uma fotografia.

Acedi.

Percebi pela alegria gestual das milenárias criaturas que era o facto de ser ruiva a razão do alarido. Provavelmente seria como captar uma imagem ao lado de um unicórnio ou, mais prosaicamente, de um orangotango aos caracóis que ruivos deveriam ser também. A verdade é que, em contrapartida, os obriguei a posar comigo, numa recordação só para mim. Não podia perder a oportunidade de registar o momento em que me cruzei com duas múmias da dinastia Ming.

 

Não há muito tempo, na Irlanda, passei despercebida.

Um país absolutamente indiferente à minha cor, porque é o local do planeta onde existe a maior concentração de ruivos por metro quadrado. Mais uma, menos uma, é coisa de pipocas.

Para além de ruivas e de ruivos – há que respeitar todos os blocos, - a Irlanda tem cavalos, ovelhas, cães, muita erva e um tempo desgraçado. A conjugação destes factores provoca saudades da China, onde pelo menos encontramos alguma excitação a tentar não atropelar ninguém no meio da cortina de névoa envenenada.

 

Este confronto com tão diferentes conceitos de normalidade deixa-me siderada.

É maravilhoso o modo benigno como neste planeta a diferença é às vezes olhada! É extraordinário perceber que é apenas a lei das maiorias a definir a regra e, em consequência, a provocar o preconceito – origem básica de todo o erro do julgar, - mas que, ao mesmo tempo, é capaz de acolher quase de forma divertida a fuga aos que dela escapam.

 

É encantador compreender que nos portamos todos como tontos num planeta povoado pela diferença, como somos ingénuos e teimosos quando incensamos o nosso umbigo fornecendo-lhe o estatuto de vedeta e de modelo único e que, ao mesmo tempo, ali bem perto, consideramos que uma fotografia ao lado da dissemelhança merece ser mostrada aos netos como triunfo sobre o quotidiano.

 

É esplêndido porque nos faz vislumbrar que no meio da paisagem irlandesa apetece muito e é tão bom poder encontrar dois velhíssimos chineses para lhes suplicar uma foto em conjunto.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


foto do autor




  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD