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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num instante

rabiscado pela Gaffe, em 25.04.16

Rafael Ochoa.jpgContaram-me  depois de tantos anos:

 

Abril de 1975

A empregada veio de mansinho para provocar menos estragos no tempo de descanso da minha avó. Entrou, almofadada, embrulhando as mãos no avental florido.

A minha avó olhou-a e levantou-se.

Agarrou-lhe a blusa e afastou-a. Murmuraram na sombra, junto da janela, escondidas por portadas de madeira. As duas cinzentas. As duas vibrantes. Subitamente em redor delas o estremecer do ar, a subtil presença do alerta, o espasmo das presas que detectam o odor do predador de focinho a vibrar.

A rapariga desatou a chorar. De mãos erguidas, como um lenço sujo. A minha avó prendeu-lhe os braços, sacudiu-a e deu-lhe as ordens secas, pesadas como chumbo ou perfumes tombados da janela. A ameaça erguia-se. Escorria pelo soalho a pressa suada da partida. Por isso havia a urgência. Por isso seguravam nas adolescentes. Encaixavam-nas no fundo do carro.

A minha avó fechava as mãos da mulher mais velha sobre as chaves, no meio do barulho de malas atiradas.

Depois as portas e as janelas encerradas. O carro a trabalhar. A minha avó a descer o vidro e a assinar as ordens derradeiras.

Ninguém entra. Que tudo se mantenha como está.

Defende-me esta casa com a vida. Lembra-te sempre do que é bem mais forte do que qualquer tiro: a menina volta. Se não for esta, será a depois desta. Custe o que custar, uma menina volta.


Abril 2016

Abres-me as portas agora?

 

Imagem - Rafael Ochoa

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