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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no centro de outro lado

rabiscado pela Gaffe, em 29.05.16

Aceitei o convite da minha irmã e parto.

A urgência que sinto de lonjura, de distanciamento mesclado com a mais diferente paisagem que agora existe em mim, obriga-me quase de modo inconsciente a anuir e a afundar-me nas ruas estreitas e nos canais de sombra de Veneza.

 

Somos imperceptivelmente alterados pelos lugares por onde passamos, nada em nós permanece igual ao que cuidávamos ser perene. Tentamos apenas agarrar o que vai ficando no dentro ovalado em cor.

Há lugares, assim como há palavras, que se forem omitidos nos rasgam a alma com a brutalidade dos monstros quando finalmente revelados e nos forçam a morrer e a matar no mesmo instante.

Vamos, porque sabemos que envelhecemos no meio de lugares e de palavras que não nos foram ditos. A nossa velhice é um cadáver adiado que, sem viagens, se torna visível e procria na tristeza. A consciência da nossa imobilidade arromba todas as portas e rompe arrolando todos os instantes.

Ilustração de Daniel Merriam

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A Gaffe pediátrica

rabiscado pela Gaffe, em 26.05.16

Masakazu Chiba.jpgfoto - Masakazu Chiba

- Senhora, conta mais.  

- Desculpa. Vou contar. Gostava muito que chamasses pelo meu nome.  
- O teu nome é Senhora.
- Não, não é. Tu sabes o meu nome. Já to disse.  
- É difícil dizer porque tu és grande e usas batom. As pessoas grandes e com batom chamam-se Senhora
- Disse-te o Príncipe desta história?  
- Não! Eu sempre soube. Há coisas que não me disseram, mas que eu sei. 
- Podes dizer-me uma pequenina?  
- Posso: o teu cabelo aquece como a lareira da minha casa. Agora acho que já podes ir dormir. É que eu tenho muito sono.  
- Amanhã conto o resto?  
- Gostava muito.  
- Vou guardar todas as palavras desta história no jardim, perto das árvores. Achas que vão ficar cheias de frio?
- Acho que não, mas tem cuidado! Há árvores que ficam com as palavras penduradas e não as deixam sair depois. 
- Eu tenho cuidado.  
- Podes guardar perto daquela que não tem folhas? Não faz mal que ela fique com umas palavritas.  

 

O pequenino L. morreu hoje às 03.34h com uma  leucemia linfoblástica aguda.

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A Gaffe indiferente

rabiscado pela Gaffe, em 25.05.16

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A indiferença constrói-se demasiadas vezes com a ausência de palavras.

É um animalzinho açucarado preso no lugar mais negro da mais comezinha das simulações de felicidade. Limita-se calado a roer as sílabas da vida do hospedeiro, esgotando as razões do que havia para dizer.

Indiferentes, deixamos vagos os lugares do sentir. Deixamos de ter labirintos. Somos um fio, uma recta inútil traçada por uma barra de carvão que suja os dedos e nos deixa fixos na impossibilidade do encontro.

Na indiferença tudo é desencontro.

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A Gaffe amarela

rabiscado pela Gaffe, em 24.05.16

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A Gaffe tinha decidido não se envolver nesta tonta polémica, porque nunca gostou do amarelo. É a cor da Medicina e uma das do Vaticano. Sempre considerou que com padres nem na missa e planeia não precisar de médico até chegar à idade em que o que não dói é porque já não funciona.

 

Deve-se desde já referir que a Gaffe não fez uso do corriqueiro ensino privado. A Gaffe andou em dois Colégios privadérrimos, daqueles em que os papás são obrigados no acto de matrícula a provar que têm à disposição um helicóptero para não atrasar o início das aulas quando há engarrafamentos nas vias de acesso às escolas pobres. Frequentou o ensino superior pobre, apenas porque o privado em Portugal é muito parecido com a Feira da Ladra - ou Marché aux Puces para disfarçar.

 

Contudo, a Gaffe depara-se com esta manifestação de um amarelo privado e não pode, nem deve, deixar de se comover com a honestidade e a ternura da faixa que abre esta indignação.

Hugo van der Ding.jpgHá que ter presente que a Gaffe quer muito acreditar que aquela vírgula marota é um apêndice photshopado, porque de contrário fica esbardalhado o argumento da superior qualidade do ensino privado em relação ao ensino público. Fica provado que não diferem grande coisa.

No caso improvável da faixa ter nascido assim, há que reconhecer que existe nesta manifestação uma sinceridade, uma honestidade, digna de relevo. Em nome do meu condena corajosa e frontalmente o que mexe no nosso bolso e assume implicitamente a defesa do que mexe no bolso dos outros e que se lixem as eleições. Os manifestantes não recuam perante o seu direito a poupar uns valentes trocados encaixando os filhos num espaço privado, se há uns palonços que lhes pagam as propinas enquanto enfiam os rebentos na escola pública, mesmo ali em frente. Seria muito mais tranquilizador criar umas comissões parlamentares que analisariam o impacto das medidas preconizadas de modo a que os resultados surgissem ao mesmo tempo que as conclusões finais das investigações ao acidente de Camarate.

É tão incompetente esta gente que pensa que uma pretensa anomalia de carácter público pode ser corrigida de modo tão drástico e sem cuidar do colegial bem-estar das pessoas de boas famílias com uniformes giríssimos!   

 

Depois, há uma imensa tenrura patente na faixa que encabeça este meeting.  

Provavelmente a última palavra do slogan é destinada ao Ministro da Educação. Tiago Brandão Rodrigues é realmente um petiz que, pese embora estas traquinices, poderia perfeitamente ser filho de um casal manifestante - é ministro! - e corrigido pela disciplina de um Colégio em condições.

 

É de lamentar contudo que seja usada, para finalizar a frase, uma palavra tão usada pelos pobres. Seria muito mais agradável a faixa conter um saboroso:

      

Em nome do Filho, então vá!

 

Cartoon - Hugo van der Ding

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A Gaffe expressa

rabiscado pela Gaffe, em 23.05.16

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A Gaffe sempre pensou que o Twitter é um passarinho que permite, para além do piar incipiente de muitos, que alguns esbardalhem em pouco tempo e em pouquíssimas notas o que de mais mimoso e engraçado existe no esconso das suas caves bolorentas.  

 

Andava esta rapariga a saltitar pelo bosque quando ouve o pio súbito de Filipe Santos Costa, douto jornalista do Expresso.

Filipe Santos Costa decidiu mostrar que é também um rapazinho que gosta de piadolas musicais e do seu ninho, a propósito de Adam Lambert, vocalista dos Queen, esbanja:

 

Já percebi. O casting para este vocalista dos "Queen" (com aspas, perceberam?) foi super exigente. Dizia: tem de ser bicha.

Filipe Santos Costa

 

Tão engraçado, tão fresco, tão inteligente, não é?

 

A Gaffe confessa que não gosta de Adam Lambert a tentar reproduzir o que se ouviu na voz de um insuperável ícone, mas também não gostou dos Gift a escancarar todas as vogais de Gaivota,outrora cantada magistralmente por Amália, e reconhece que afinal os milagres demoram mais tempo a acontecer do que os impossíveis, mas esta pobre rapariga não tem o maravilhoso sentido de humor de Filipe Santos Costa e não é capaz de construir piadas em que se enclausura a vida num preconceito.  

 

Mais adiante, Filipe Santos Costa volta a mostrar que não é de todo um rapazola incapaz de jogos semânticos inteligentes e volta a encantar:

 

(…) Wembley foi no tempo da outra senhora - respondendo a uma deixa de um senhor que a Gaffe se abstém de referir, porque sempre achou que fazemos duo com quem merecemos - um faz dueto com Caballé, em Barcelona, Filipe Santos Costa com o cavalheiro, no Twitter.  

 

Neste instante, a Gaffe confessa que decidiu ouvir Freddie Mercury.

 

Love of My Life, I Want to Break Free, The Show Must Go On, A King of Magic, The Great Pretender, We Are the Champions, Bohemian Rhapsody, Somebody to Love e outras, muitas mais, que pertencem ao acervo da música maior que é capaz de saltar mantendo-se impune e brilhante de geração em geração.

 

Depois, tentou ver Freddie Mercury a interpretá-las.

 

Viu siderada quão longe está este brutal e soberbo bicho que magnetiza e galvaniza multidões imensas do insidioso e ambiguamente medíocre comentário de um jornalista do Expresso!

 

A pedrinha solta a tentar roer os pés do Everest.       

 

É evidente que a liberdade de expressão permite estas gracinhas irresponsavelmente idiotas, mas se as fazemos quando tentamos em simultâneo veicular uma imagem de seriedade e credibilidade noutro lado, arriscamo-nos, como disso é exemplo Filipe Santos Costa, a ter de calar definitivamente o passarito.   

 

Já que se fala de música, e para arejar, esquecendo definitivamente este inconveniente, convém ouvir logo que possível Salvador Sobral - irmão, com muitíssimo mais talento e muito menos fanhoso, de Luísa com o mesmo sobrenome - sobretudo o Nem Eu de Dorival Caymme. Encontram-no para já aqui.

 

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A Gaffe emocionada

rabiscado pela Gaffe, em 21.05.16

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Está tão bonito!

 

Escolheram-lhe um Armani quase preto e uma camisa imaculada de seda lisa, de colarinho alto e de punhos dobrados.

 

Tem os olhos negros, grandes e aveludados, repletos de brilho. A barba primorosamente tratada e desenhada e o cabelo desobediente que começa a formar caracóis largos e soltos que detesta. O fato favorece-lhe a figura alta, morena e encorpada, musculada. Torna-o ainda mais viril, mais destacado. Consegue anular o rodopio de gente que saltita pela sala picotada por uma excitação pueril e perfumada.

 

A minha irmã estatelada na poltrona analisa o verniz e confere a cor do bâton. Afasta a planície loira dos cabelos e declara com a solenidade dos fúteis a impaciência que lhe provoca a espera do beijo do rapaz de Armani.

 

Eu, menina parda, cresço de orgulho e pendurada no braço dele ouço tilintar o sorriso do universo.

Somos cúmplices no crime mais perfeito, o amor que é visto de frente, aquele que é impune, isento e inalterável.


A minha irmã brinca com as fiadas de pérolas do colar e retoca o cabelo agora preso, liso, tão perfeito que dói se olharmos de repente. É-lhe indiferente o vibrar da sala.

 

A minha mãe coloca os botões de punho na camisa do homem.

Agora faz parte do Círculo das pérolas.


Comove-se o rapaz!

 

Está tão bonito, o meu d’Artagnan das noites de Paris. Tão viril e tão perfeito, tão sincero e tonto, tão inculpado e tímido, porque parece tímido agora.

 

Todas as criaturas que amo parecem tímidas e no entanto guardam a espantosa bravura de viver e a coragem descarnada de o fazer com a limpa luminosidade dos heróis.

 

Aproxima-se de mim.

Os olhos negros, negros, negros e um sorriso aberto em claridade.

Abraça-me com a força dos valentes e diz-me murmurado ao meu ouvido:

 

- Achas que estou bonito? – e depois, na mais solar das inocências -  não quero desiludir a minha mãe.

 

Deuses!

 

Estás tão bonito, Pedro!

És tão bonito!

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Gavetas:

A Gaffe à espera

rabiscado pela Gaffe, em 20.05.16

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Reconheço a minha frágil capacidade de olhar para a Vida sem os olhos de alguém maior do que eu para velar o que vejo. Reconheço que sou indigente. Uma mendiga dos outros.

 

Sento-me nas cadeiras de plástico. Ao meu lado uma velha branca platinada protege a carteira. Um miúdo esfrega-se no chão agarrado ao carro azul e verde, fazendo-o voltear com os ruídos de um avião ambicionado. Um homem examina-me com olhos esfaimados, de cachimbo na boca e trejeitos nas ancas. A rapariga passa de saia travada, verde. Verde? Verde como maçãs. Maças redondas a saltar da blusa. Verde ela também, a blusa e a menina, mas verde bandeira. O telemóvel do homem aos gritinhos. Passarinhos a saltar, as asinhas a bater piu-piu-piu-piu. 

 

O gongo da espera. As persianas negras do quadro que eu olho, minuto a minuto.

 

As gentes soltam-se quando as portas deslizam. Arrastam malas feias, atadas a trelas rígidas, com rodinhas irritantes que me riscam os nervos. Trazem os olhos das chegadas presunçosas. Atiram o olhar aos que as esperam e nesse arremesso há a maldadezinha de saber que viram no estrangeiro aquilo que os que ficaram só sabem das revistas.

 

Há demasiado tempo que espero. Sou impaciente. Levanto-me e procuro colar-me as barras de metal. Estou cansada e quero-me ir embora. Daqui parto para o Douro com a nunca esperada permissão de o levar comigo.

 

A porta divide-se ao meio. Afasta as guelras.

 

Vejo-o ao longe e esse instante estanca o Universo todo, como se ele chegasse em gala principesca. Nada mais se move a não ser ele e por entre as gentes que petrificaram, caminha a mansidão de uns olhos de paisagens retiradas dos rios, mas com faíscas de fúria e crueldade; o escuro das pestanas de praças sombreadas; o sorriso meigo, meigo, meigo, meigo; os abismos da alma que surgem subitamente e subitamente aos nossos pés se abrem e nos dão a sensação angustiante de queda e perdição e o estupendo bater de um coração que é meu.


Há gôndolas e palácios, mas o escuro afunda os alicerces.

 

O meu Amigo acaba de chegar.

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Gavetas:

A Gaffe aos beijos

rabiscado pela Gaffe, em 20.05.16

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Parabéns, minha querida!

Lembra-te sempre que uma coisa que contribui imenso para a longevidade é que só os bons é que morrem jovens.

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Gavetas:

A Gaffe com as ’ssoinhas

rabiscado pela Gaffe, em 19.05.16

Jean Patchett photographed by William Helburn.jpgA Gaffe fecha os olhos, abre os braços e perdoa, porque acha imensa graça às ‘ssoinhas - como diria a sua boa amiga hoje de parabéns - que chocadíssimas decidem demonstrar o quanto se sentem revoltadas com as patetices que por aqui se desenrolam e informam - em comentários recusados - que sabem do que a Gaffe precisa, não se coibindo de o descrever.

 

A Gaffe deve referir que por muito boçais que sejam os vocábulos usados nestes recadinhos informativos, a distância que vai do que aconselham à realidade é inversamente proporcional ao tamanho da pilinha que cada um deles mostra que tem ao dispor - sejam homens ou mulheres, - o que equivale a dizer que há anos-luz a percorrer por estes queridos até se esbardalharem com o que a Gaffe realmente precisa.

 

O tempo gasto no trabalhinho que têm em teclar o que tu precisas é … - a Gaffe abstém-se de preenche as reticências apenas porque se o fizesse não terminaria o post, - poderia ser desbastado por estas mimosas criaturas a experimentar o que receitam!

Afinal, sejamos popularuchos, sempre se ouviu dizer que até os bichinhos gostam.

 

Que maçada!

 

Na foto - Jean Patchett por William Helburn

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A Gaffe em busca da esmeralda perdida

rabiscado pela Gaffe, em 19.05.16

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Quando a Gaffe se prontificava a esbardalhar nestas Avenidas o moço apenso, ouviu da única criatura que lhe está próxima nestes momentos mais íntimos, um sinal de aberta reprovação.

- Francamente! Vais provocar um pandemónio na pudicícia das senhoras se publicas uma foto dessas.

 

A Gaffe ficou siderada!

 

O objectivo que a guia não é de todo fazer corar a reserva e o pudor das meninas. A Gaffe congratula-se apenas por ter encontrado uma criatura que foi capaz do que imensa gente não consegue na vida:

 

Encontrar o Wally.

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A Gaffe abelhuda

rabiscado pela Gaffe, em 18.05.16

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Gavetas:

A Gaffe de Rita Pereira

rabiscado pela Gaffe, em 17.05.16

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Depois de se esbardalhar contra as nádegas de Rita Pereira, a Gaffe não pode deixar de pensar que entre uma rapariga esperta e uma diva, existe um abismo intransponível.

 

Gloria Swanson, por exemplo, deslumbra de eternidade em Sunset Boulevard com o extraordinário:

 

All right, Mr. DeMille, I'm ready for my close-up.

 

Rita Pereira em Cannes - Boulevard ou não, - entregue à mesma deixa, desvendaria apenas o fio dental cravado nos dentes de trás.  

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A Gaffe "et l'amour démodé"

rabiscado pela Gaffe, em 17.05.16

Sinto falta de Paris.
Sinto saudade da cidade onde a luz doirada espreita os mais secretos desejos, as mais minúsculas delícias.
Paris dos bairros em torno do Sena, onde esvoaçavam rapazes fugidos do campo dos deuses e onde me assaltava, sem dó nem piedade, a surpresa de me ver olhada com o mesmo desejo com que os descobria.


Paris limitada pela Torre Eiffel, Arco do Triunfo, Bastilha e Panteão. O mágico traçado, o incomparável espaço, onde, dentro, a cidade esmaga por se sentir perfeita.
Avançava pelo Boulevard Saint-Germain, desde a Île Saint-Louis, cravando o olhar, subitamente, no coração de Saint-Germain-des-Prés.

 

Brasserie Lipp ... Flore ... Les Deux Magots.

 

- Des croissants, comme d’habitude?

- Oui et comme d’habitude Paris au bord du lit.

 

 

Le Divan, a poeirenta livraria velha dos poetas que se esquecem e de Artaud, louco e deslumbrante, abocalhada por Dior.
Cartier mastigando as velhíssimas lojas onde a música espirrava como chuva no centro das praças.
Louis Vuitton olhando sobranceiro Les Deux Magots que teima em servir croissants perto da minha saudade.
L’air du temps que muito antes de ser aroma Nina Ricci, era tudo o que se colhia nas ruas de Paris e que fazia bem e que soava bem e que girava nas cabeças tontas dos rapazes.
Paris onde fiquei presa nos dedos do primeiro choro de amor que eu encontrei.


- C’est fini, ça? C’est dépassé! C’est fini l'amour.

 

O Amor não é igual em todo o lado e mesmo em Paris se pode ser pateticamente apaixonado.

 

Lembro-me parada e sozinha, encostada à porta onde viveu Chopin e onde o Ritz se torna mais tristonho.

A esplanada estava quase deserta àquela hora.
A minha irmã sentou-se extenuda depois de ter sido recebida pela Casa Cartier, ali ao lado, onde espreitam por uma janelinha, aprovando ou recusando o suplicante.


- Eu trato da mulher e deixo-te com ele. Tens de o seduzir. Se não resultar, trocamos - falava do casal, o único sentado à nossa frente, fluvialmente apaixonado. Molhavam-nos com a água que lhes vidrava os olhos.
Tentamos.
Usamos todos os insuspeitos trunfos, todos os mais escabrosos estratagemas, todas as mais vis e malignas insinuações, todas os mais planeados movimentos, dos mais subtis, aos mais desavergonhadamente descarados.


Nada!

 

O rapaz tinha colados os olhos no rosto da mulher que trazia todos os planetas pendurados nas pestanas.
A rapariga, mais tímida, afastava brevemente o olhar do centro do Universo, no ponto exacto onde se via reflectida, para logo a seguir procurar de novo os espelhos dos olhos do homem.


Será que o Amor, de tanto se olhar, se transforma em Narciso?

 

- oh! l'amour! L’amour c’est démodé.

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Gavetas:

A Gaffe despropositada

rabiscado pela Gaffe, em 16.05.16

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Tédio despropositado.

Os meus lençóis agarram o meu cheiro e a minha nudez espalhada é indiferente ao espelho.

 

A minha cama sempre pareceu um ninho de um bicho espalhafatoso e exuberante! Nunca consegui dormir de forma calma. Envolvo-me e rebolo no sono e no sonho e destruo a primorosa obra das manhãs tardias em que os lençóis se dobram, se alisam, se amaciam, se distendem, se prendem e engomados dispersam o perfume lavado dos amanheceres mais claros.

 

Mas hoje acordei e tudo era perfeito. Como se ninguém tivesse dormido na véspera. Como se fosse dia de amante noutro lugar amado. Nenhum vestígio de inferno, nenhum cataclismo surdo e mudo e inconsciente. Nenhum tumulto, nenhuma multidão amorfa de panos misturados e confusos.

 

Em mim o tédio invade até as noites e faz morrer as ondas do meu sono. Durmo na planura da indiferença e na quietude apática dos tristes.

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Gavetas:

A Gaffe com passado

rabiscado pela Gaffe, em 16.05.16

g.gifSegundo Oscar Wilde, o ideal provém da simbiose de mulheres com passado e homens com futuro.

 

A Gaffe, embora inclinada a concordar, não pode deixar de anotar a incongruência. O futuro de ambos está sempre nas mãos de uma mulher com passado. Mulheres que oferecem apenas o presente, normalmente deixam que o futuro seja moldado por homens.

 

 

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