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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe enlameada

rabiscado pela Gaffe, em 04.05.16

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A Gaffe confessa, forçada pela sua muito querida MJ, que se vai conspurcar de quando em vez nos pútridos lamaçais da imbecilidade.

Vai e volta. Vai e volta. Vai e volta sempre. Uma coisa muito suja. 

 

Uma rapariga, por muito sofisticada que seja, acaba por sentir que a ausência das mais básicas noções de civilidade ou de inteligência - nem sempre amigas do peito - são mananciais de estupefacção raros no quotidiano de qualquer rapariga esperta.  

 

É evidente que todas as mulheres deslumbrantes, no cimo das escadas, têm o desagradável hábito de espreitar para baixo, para muito baixo, sobretudo quando não sofrem de vertigens.

Há que verificar se são seguidas.

 

Uma mulher, por muito que se negue, olha sempre para trás e para baixo. A extraordinária beleza destas acções reside no facto de serem apenas os homens a merecer o disfarce destas distracções.

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Gavetas:

A Gaffe na urgência

rabiscado pela Gaffe, em 04.05.16
Dizem os monges que o nascimento de uma criança é a prova de que Buda continua a acreditar em nós.

Festejemos pois cada instante que vivemos.

Na dor, se for completa, germina a sobrevivência. Às tempestades resiste o sopro ténue dos que recomeçam. O confronto com os desertos acorda-nos a força de uma gota de água e o cyclamen, a violeta brava, a árvore das camélias florescem em pleno Inverno.

 

É urgente emudecer os que como macacos enjaulados atiram colheradas de dejectos, de azedume, de secura e de amargura, de desapontamento torpe e derrotista, da janela de um segundo andar escuro e incontornável aos transeuntes a quem ganharam rancor.

É urgente calar os velhos que não são o do Restelo, porque o do Restelo é muito mais do que as amarras que o fizeram, mas os velhos que nos cospem a acidez do ressentimento gratuito e sem motivo que não resida apenas na derrota, que corrói até o sonho de nos vermos a sonhar.

É urgente desacreditar a moralidade de cabelo emproado e laca na bondadezinha que esconde dentro do missal estampas pornográficas e exibe nos dedos pios a solidariedade da indiferença denunciada por um discurso cliché.     

É urgente festejar a mais ínfima alegria, a mais banal das pequenas coisas, a mais despercebida forma de se ser feliz, mesmo com lágrimas.

É urgente festejar cada minuto, cada instante, cada pedaço de tempo que vivemos.

É urgente agarrar a vida sem a inevitabilidade fadista dos profetas da derrota.

É urgente cobrir a alma com as cores que quisermos e fazer dela bandeira desfraldada para os outros.

É urgente festejar os dias.

É urgente celebrar todas as datas.

É urgente acreditar que a cada instante nascemos e que cada minuto que chega é a prova que merecemos que alguém acredite em nós.  

 

É urgente ser optimista. Há tanto tempo para se morrer depois!

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Gavetas:

A Gaffe da mulherzinha

rabiscado pela Gaffe, em 04.05.16

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A mulherzinha é minúscula e usa casacos de malhinha e saias de fazenda grossa e bugigangas nos dedos. Tem medalhinhas presas na lapela e brincos de pérolas falsas agarrados as orelhinhas pontiagudas.

 

Reza muito.

 

Tem olhinhos maldosos e insignificantes que se espetam nas costas de quem passa como alfinetes-de-ama, de dama da rua, e sorrisos mesquinhos e sinuosos de velha cínica ou de mentirosa. Tem mãos papudas, mas os nós dos dedos parecem berlindes. Os gatafunhos das rugas são traidores e mentem nos rabiscos que parecem mansos.

A mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, é uma assassina. A sua alma foi a vítima mais tenra quando a apanhou numa curva mole da mama descaída.

A mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina,  odeia. Desde o primeiro instante em que nos vê. Desde o primeiro segundo. Baba-nos as mãos com sorrisos castos e lambe-nos os dedos com línguas de doçura, mas rói no escuro do palato as nossas vidas salivadas de rancor.

A mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, crava as gengivas nos tornozelos daqueles que, incautos, se atravessam nos caminhos podres que são dela e que ela defende rosnando mel envenenado.

A mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, espera chegar ao céu, inventado pelo marido que lhe fugiu, através de sacras estampas que cospe nas mãos dos que por ela passam. Oferece-nos santinhos para se proteger das tentações.

 

A mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, abençoa-nos.

 

A moral da mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, é um quadro de revista e tem coxas flácidas. Tem mamas grandes onde se esconde a caspa da indignação de cinta elástica que amarfanha as banhas das ideais.

A mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, usa nos dias de chuva um tacho  na cabeça e vai gritar para a rua Heil Hitler!, sempre que soam umas botas de macho no pavimento da sala-de-estar-na-vida-sem-nada e só porque o homem que ressonava com ela na cama era a sombra do cadáver do ditador e marchava ao som das gaitas dos peitos de galinhas.

 

Há sempre chuva nos dias desta mulherzinha.

 

A moral da mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, que nos dá um santinho para nos proteger de toda a tentação, é uma gorda e empanturrada perua. Vai à cabeleireira e pede-lhe que lhe cuide das unhas com que rasga as costas ao sonhado amante, milhões de anos mais novo. Suplica que lhe pintem as melenas e que lhe contem novidades acerca da outra que na noite anterior se partiu contra um camião, só para ter pena.
A moral da mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, velha macaquinha arrepiada, franze as sobrancelhas depiladas e torce o nariz com mil cuidados - o estuque na cara! - quando fala do mundo. Viúva da sua vida a tomar chá com morcegos e a olhar para nós, provocando-nos blenorragias.
O rabo da moral da mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, que nos oferece santinhos, não sabe sequer onde desaba, que não vale sequer as pedras e os bancos onde tomba, mas que é sagrado e meticulosamente tapado, porque não sabe que os Nus são os raros e a Nudez é o lugar onde violentos nos amarfanhamos, fazemos amor e adormecemos.

 

A mulherzinha pequenina, pequenina, pequenina, pactuou com a morte e enquanto o tempo passa, faz o trabalho dela, no interior das vidas.

 

A morte enojada assiste.

 

Cartoon - Tetsu

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