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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe nas pequenas coisas

rabiscado pela Gaffe, em 05.05.16

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Revela-me um amigo que há quase uma década que não ouve nada espontâneo que se lhe dirija  de modo simpático.

 

É um dos homens mais atraentes que conheço. Professor universitário, investigador, amante de jazz, com um allure vintage muito próprio dos grandes românticos, gigantesco, barbudo, com ar de patife sedutor, com olhos negros como asas de corvo e caracóis desgrenhados e largos. Pratica desde criança pólo aquático e, como é evidente, é fácil uma rapariga esperta perder-se nestas piscinas.

Falam-lhe nas suas qualidades intelectuais reconhecidas. Disputam-no e idolatram-no, apesar de resmungão e muitas vezes insuportável e colérico. Seria quase perfeito se não fosse um misantropo antipático.

Ao longo do seu percurso tornou-se indiferente ao que diziam acerca do brilho das suas aulas e palestras. Segundo ele, quando falamos bem de alguém, pensam que exageramos. Se falamos mal, acreditam e suspeitam que escondemos o resto da missa.

 

Confidenciou-me com alguma surpresa que tinha descoberto que não lhe diziam, há muito tempo, qualquer coisa simpática sem ligação àquilo que era ou fazia.

Espantava-se porque alguém que desconhecia, mas que acompanhava alguns dos seus alunos, lhe disse sem sequer perceber que poderia ter na frente um seu futuro professor, que o meu gigante tinha um sorriso bonito.

 

Não ouvia uma banalidade destas há quase uma década!

 

Creio que se perdeu a leveza da sinceridade amável, inofensiva e espontânea, aquela que surge solta sem querermos, involuntária. Acabou por se tornar apenas a garra com que se raspa o chão que ainda dá uvas. Chega premeditada. Seleccionamos o que de simpático devemos dizer com a lupa e a pinça do interesse e de uma eventual contrapartida. Somos amavelmente interesseiros. Elogiamos a capacidade de trabalho do colega, a assertividade da secretária, a iniciativa inteligente do amigo ou a predisposição para o sucesso do parceiro, sobretudo quando nos dão, ainda que vaga, a possibilidade de nos deitarmos à sombra, sabendo que o sol do meio-dia de um Verão tórrido é para os que elevamos aos píncaros.

 

Perdemos aos poucos a fragilidade do encanto mais banal. Vamos ignorando o que vemos pequenino. Deixamos de ser deuses das pequenas coisas. Esquecemos as pestanas longas, pretas e densas do homem que passa. Ignoramos as mãos esguias que se movem como pombas da rapariga da confeitaria. Não vemos a timidez de diamante do rapaz que nos entrega a revista que pedimos. Perdemos a oportunidade de tocar nas asas da mulher que passa com elas fechadas. Nunca dizemos a alguém que tem as clavículas como baloiços de estrelas. Somos senhores apenas dos grandes elogios.

 

Talvez seja por isto que o meu amigo, durante quase uma década, tenha ignorado que tem um sorriso capaz de unir galáxias.

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A Gaffe e a mãe dele

rabiscado pela Gaffe, em 05.05.16

Um dos maiores perigos que uma rapariga esperta corre, inicia-se quando o rapagão que pensava descartável lhe anuncia que gostaria de a apresentar à sua santa mãe.

O cérebro faz disparar o alerta vermelho, fazendo-a ouvir as sirenes das cooperações de bombeiros de todas as periferias e as cornetas dos regimentos e das fanfarras da União Europeia.

 

- Vais ver. A minha mãe é uma óptima companhia!

 

Uma iguana é melhor companhia do que a mãe dele. Aliás, se pensarmos bem, tudo o que termina em ana  - como ratazana, princesa Diana ou mesmo, com algum esforço, o Dolce e o Gabanna - é preferível a ter como parceira esta santa idolatrada.

 

- Vais ver. A minha mãe tem um excelente gosto!

 

Se já não conseguíamos entrar na Bershka com receio de sairmos com os tímpanos desfeitos e transformadas em trapos iguais ao que nos impingem lá dentro, agora, sendo a senhora surda, seremos arrastadas para um vórtice de decibéis inimagináveis somando ao catrapum-pum-pum-catrapum-pum-pum da loja, os gritos das empregadas que tentam dizer-lhe o preço das peças muito giras que restaram dos saldos.

A mãe dele não vai nunca entender, com preços tão em conta em peças tão modernas, porque é que olhamos de soslaio a montra, mesmo em frente, onde resplandece um casaco Galliano, extravagante, exuberante, extraordinário e com um preço a merecer os mesmo adjectivos, embora tentemos desesperadamente fazer-lhe entender que o costureiro é tão querido como ela, sobretudo bêbado e posto a falar num café qualquer de Paris.  

 

- Vais ver. A minha mãe vai ensinar-te a receita do cozido à portuguesa que é do outro mundo quando sai das mãos dela!

 

Este é o instante em que sabemos, sem a menor réstia de incerteza, que a partir dali, o homem, se o aguentarmos depois deste deslize, jamais enfardará cozido à portuguesa ao nosso lado. Se sentir saudades deste exemplar gastronómico, sabe onde o procurar: no outro mundo, ou seja, em casa da mãe dele.

 

- Vais ver. A minha mãe é uma mulher muito aberta! Vai adorar-te.

 

Embora parte do dito mereça o nosso acordo - a referência à abertura da senhora não é metáfora, porque a idade não perdoa e faz aumentar a tendência para se abrir, ou para dificultar fechar, tudo o que deveria permanecer discreto, como a boca, -  vai adorar-te sugere não ser má ideia sermos acompanhadas por um exorcista. Não nos podemos esquecer que há mulheres que mesmo depois de dobrada a menopausa, continuam a viver como se todos os dias fossem os dias difíceis. Normalmente gostam de vampiros.  

 

- Vais ver. A minha mãe tem um sentido de humor fabuloso.

 

 Esta tenta proteger-nos. É amoroso da parte do rapaz que admite, com o mais disfarçado dos receios, ouvir a mãe calcinar as nossas irrisórias idiossincrasias com alusões subtis à toxicodependência, ao tráfico de órgãos e aos comunistas.

 

Não temos hipóteses, raparigas. A mãe dele jamais será a nossa avó - embora nos pareça sempre ter idade para isso.

 

Nesta figura com estilo, existe um único consolo: possibilita-nos, sempre que o homem nos contradiz, nos contraria, nos irrita, nos resiste, nos abespinha, nos aborrece e nos refuta, não baixa a tampa da sanita ou nos diz que o sushi que lhe preparamos sabe a pastilha de Xau para máquina de lavar loiça e se parece com uma, podermos pensar em surdina:

 

A culpa é da mãe dele.  

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