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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe à espera

rabiscado pela Gaffe, em 20.05.16

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Reconheço a minha frágil capacidade de olhar para a Vida sem os olhos de alguém maior do que eu para velar o que vejo. Reconheço que sou indigente. Uma mendiga dos outros.

 

Sento-me nas cadeiras de plástico. Ao meu lado uma velha branca platinada protege a carteira. Um miúdo esfrega-se no chão agarrado ao carro azul e verde, fazendo-o voltear com os ruídos de um avião ambicionado. Um homem examina-me com olhos esfaimados, de cachimbo na boca e trejeitos nas ancas. A rapariga passa de saia travada, verde. Verde? Verde como maçãs. Maças redondas a saltar da blusa. Verde ela também, a blusa e a menina, mas verde bandeira. O telemóvel do homem aos gritinhos. Passarinhos a saltar, as asinhas a bater piu-piu-piu-piu. 

 

O gongo da espera. As persianas negras do quadro que eu olho, minuto a minuto.

 

As gentes soltam-se quando as portas deslizam. Arrastam malas feias, atadas a trelas rígidas, com rodinhas irritantes que me riscam os nervos. Trazem os olhos das chegadas presunçosas. Atiram o olhar aos que as esperam e nesse arremesso há a maldadezinha de saber que viram no estrangeiro aquilo que os que ficaram só sabem das revistas.

 

Há demasiado tempo que espero. Sou impaciente. Levanto-me e procuro colar-me as barras de metal. Estou cansada e quero-me ir embora. Daqui parto para o Douro com a nunca esperada permissão de o levar comigo.

 

A porta divide-se ao meio. Afasta as guelras.

 

Vejo-o ao longe e esse instante estanca o Universo todo, como se ele chegasse em gala principesca. Nada mais se move a não ser ele e por entre as gentes que petrificaram, caminha a mansidão de uns olhos de paisagens retiradas dos rios, mas com faíscas de fúria e crueldade; o escuro das pestanas de praças sombreadas; o sorriso meigo, meigo, meigo, meigo; os abismos da alma que surgem subitamente e subitamente aos nossos pés se abrem e nos dão a sensação angustiante de queda e perdição e o estupendo bater de um coração que é meu.


Há gôndolas e palácios, mas o escuro afunda os alicerces.

 

O meu Amigo acaba de chegar.

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A Gaffe aos beijos

rabiscado pela Gaffe, em 20.05.16

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Parabéns, minha querida!

Lembra-te sempre que uma coisa que contribui imenso para a longevidade é que só os bons é que morrem jovens.

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