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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe auditiva

rabiscado pela Gaffe, em 30.06.16

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Todas nós sabemos que os homens só conseguem ouvir bem uma mulher se ela estiver do outro lado de uma linha erótica. Não podemos nunca confiar na disponibilidade auditiva dos machos em relação ao nosso entulho, por mais pequeno que seja. Os homens não nos ouvem e raros são os que conseguem fingir bem que o fazem. Acabamos, também por isso, a concluir que não temos sexto sentido, são eles que não sabem mentir.

 

Somos obrigadas a desconfiar que, após milhões de anos de evolução, o homem ainda não possui o sentido de audição estabilizado e em perfeito estado de funcionamento - há imensos problemas na canalização, - ou ainda não encontrou resposta a uma das nossas maiores dúvidas existenciais:

 

Achas que estou gorda?


O certo, é bem verdade, é que não podemos exigir muito de uma criatura que consegue discutir uma relação inteira com apenas uma pergunta que nós, mulheres, gostamos de fazer de conta que não ouvimos, porque apesar de tudo, custa-nos imenso mentir:

 

Foi bom para ti também?

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A Gaffe e as temperaturas

rabiscado pela Gaffe, em 30.06.16

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O sol aberto, o calor que não suporto, as fitas mortas das palavras que não ouço, o ardor que sinto na pele, o barulho dos risos solares que ainda ecoam nos ouvidos, a confusa lembrança de corpos em corrida, os cães que ladram, os gatos que miam, os meninos a correr e as meninas a saltar, os carros e as buzinas, os patins e as purpurinas, bicicletas e triciclos, os petizes a chorar, as senhoras a cantar com maridos a berrar.  


Eu começo lentamente a desabar. 

 

O calor excessivo é um dos maiores inimigos dos homens.
Obriga uma mulher elegantérrima a esbardalhar-se escaldante nos sofás, de lingerie exígua, mas fá-la desejar colocar a palhinha apenas no refresco.

 

Na foto - Susan Abraham, 1956

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A Gaffe inquisidora

rabiscado pela Gaffe, em 30.06.16

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Por motivos vários, que não considero pertinente referir, fiz esvoaçar os olhos por um daqueles inquéritos patetas que surgem como norma nas publicações mais tontas que atiram jornalistas às feras da inteligência de algumas das vítimas.


Por entre a colecção inevitável de banalidades trabalhadas pelo humor ou desfeitas pelo tédio, encontrei uma que obriguei o rapagão a preencher. O conjunto das respostas é um pequeno zircão - estamos comedidas - no meio dos estilhaços de vidro fosco.

- Uma pessoa especial:
- A que sou, dentro dos teus olhos.
- Um objecto:
- O meu anel nos teus dedos.
- Uma ou mais marcas:
- As que deixas no meu ombro.
- Uma viagem:
- Em redor do teu corpo, com archotes.
- Um animal:
- Eu, depois de ti.
- Um livro:
- O que escrevo nos teus olhos.
- Um local especial:
- O teu silêncio.
- Um herói de infância:
- Aquele em que me torno quando tu sorris.

 

Em casos destes, uma rapariga esperta não hesita um segundo em passar por cor-de-rosa.

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A Gaffe fatal

rabiscado pela Gaffe, em 29.06.16

 

Grande parte do poder de sedução, das ciladas que uma mulher ergue em redor da vítima, do irreversível precipício no seu corpo, não está na importância - coisa pouca, - mas exactamente na pouca importância que atribui às coisas.

 

Um zoólogo que por aqui passou e que deixou tenazes e animalescas recordações falou-me - não sei se me mentiu, mas se o fez foi por causa forte - no erro genético que produziu as panteras de cor negra.
Não são de modo nenhum uniformes, da cor da noite por inteiro, e as manchas, essas mais negras ainda do que resto, são visíveis nos seus corpos maleáveis e esguios, se lhe dedicarmos atenção e lhe respeitarmos o perigo. 
A genética apagou-lhes erradamente a cor ocre fez do animal um dos mais perigosos do reino.
 
Suspeito que a mesma genética que apagou o ouro, tende a dissolver nas mulheres fatais a capacidade de atribuir demasiada importância aos que a desejam ou àquilo que querem caçar, transformando-as em gatinhas mornas e preguiçosas, que aguardam que a presa fique ao alcance das garras e que esperam que seja impossível deixar de acariciar.
 
E como gatas dão pouca importância à brevidade das coisas.

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Gavetas:

A Gaffe anual

rabiscado pela Gaffe, em 28.06.16

The Splash 2014 Calendar.jpgA Gaffe, como toda a rapariga esperta, sabe sempre como aparecer nos tradicionais jantares de curso.

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Gavetas:

A Gaffe depravada

rabiscado pela Gaffe, em 28.06.16

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Pelos espelhos baços de Julho acabado, vinham buscar-nos.

Tínhamo-nos despedido na véspera dos areais e do mar e numa algazarra de adolescentes esbaforidos e irrequietos, atulhávamos o carro com gargalhadas e ensolarados gestos de alegria. Havia sempre luta para se conquistar o lugar da frente e havia a estalada do riso da minha irmã que nunca se mantinha quieta, erguendo as pernas para as fazer repousar no colo dos outros, e os beliscões idiotas do irmão que nos faziam rir sem qualquer motivo.

 

Havia no entanto, uma altura em que os adolescentes se mantinham fechados, macambúzios e em que o silêncio guinava ao lado.

Quando era ele que nos vinha buscar.

Não tenho fixos os traços do motorista. Nunca o olhei com atenção. Com cerca de quarenta anos magros, rigorosos, agrestes e grosseiros, o homem reprovava as brincadeiras tontas daqueles passageiros que lhe tolhiam o couro dos assentos e bastava o seu olhar fuinha para os calar ou fazer morder risinhos patetas. Nenhum gostava dele e nenhum lutava pelo lugar da frente quando era ele a conduzir.

 

No fim de um dos Julhos, vieram buscar-nos.

O meu atraso valeu-me o lugar do morto.

Lembro-me de me ver descalça e de trazer vestidos uns calções brancos curtos, pequenos, com bolsos laterais, de tecido fino, alinhado, parecidos com os usados pelos tenistas no antigamente das estrelas. Gostava deles, dos calções brancos, masculinos e antiquados, que me permitiam guardar minúsculos segredos colhidos quando a maré baixava nas gavetas velhas e esquecidas.

Ao sentar-me junto do sorumbático senhor, as minhas pernas nuas e longas, melodiosos brilhos doirados com o aveludado de pêssegos solares de adolescente esguia, encaixaram-se perfeitas no lugar.

Lembra-me que o sol queimava e que tocava na pele das coxas para tentar apaziguar o calor que sentia. O homem olhou distraído a mão na perna e nesse instante percebi a maléfica e insidiosa vontade que se agarrava a alma. Quis que me tocasse. A minha vontade era absolutamente consciente. Nada tinha de inocente ou casta ou pura ou desprevenida. Naquele instante sabia que era uma demoníaca mulher que queria ser tocada, pervertida e perversa. Nunca aquela urgência tinha sido minha. Nunca na alma tinha apanhado aquela faca, mas agora que a via, a brilhar ao sol, a vontade de a usar era obsessiva.

 

- Toca-me! Tu não resistes. Toca-me. Tu não consegues ficar sem me tocar a pele  - mastigava em silêncio, sem pudor nenhum.

 

Tocou-me. A mão do homem deslizou sobre as coxas devagar e senti o despertar do medo no tremor despudorado daqueles dedos.

Compreendi, depois de ter transformando com um sorriso limpo o apalpar lascivo das minhas coxas num gesto de ternura, que sabia onde encontrar este mistério que me acompanhava. Aprendi a lapidar, a apurar, a cultivar, a aprimorar, a cinzelar e a polir a capacidade impudica e vertiginosa, que foi sempre minha, de convocar e domar Belzebu, acicatar, a subjugar o poderoso príncipe, mascarando-o depois com véus de luciferina inocência.

 

Agora, a domar demónios, sou bem melhor do que era na minha adolescência que findava, naquele Julho de calções de ténis.

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A Gaffe Facebookiana

rabiscado pela Gaffe, em 27.06.16

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A principal razão que levou a Gaffe a abandonar o facebook - para além do Tino de Rans lhe estar sempre a pedir uma cabra para o Farmville, - foi a quantidade de dramas que por lá se noticiavam em publicações repletas de hematomas de palavras.

Só voltará se os que sofrem as tragédias ali anunciadas lhe prometerem que dão notícia quando tudo regressar à normalidade benfazeja. De contrário, como é bom de ver, a Gaffe ficará eternamente preocupada, aflita, angustiada e muito deprimida com todo aquele sofrimento publicado. Não dorme. 

 

A outra razão, bem mais prosaica, era a ausência de um botão que lhe fazia imensa falta.

O who cares?! é imprescindível. A Gaffe sentia a falta dele, quer para tocar as publicações atrás referidas, quer para assinalar as publicações de férias ou do churrasco na praia, quer ainda para marcar os santinhos luminosos com as frases lapidares de uma espécie de cristandade budista que acompanhavam as orações e os bons-dias da praxe.

 

A Gaffe ficava esgotada por não poder accionar este botão sobretudo naquelas doridas publicações de gente que sofre com o abandono da paixão e que ainda não percebeu que a melhor forma de prender o grande amor da nossa vida é enfiar-lhe 2 kg de cocaína na mala e chamar a polícia.  

 

Uma maçada.

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A Gaffe na casa de partida

rabiscado pela Gaffe, em 27.06.16

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 A Gaffe pensa que ser-se uma blogger popular é como ser-se rica no Monopólio.

 

Ilustração - Fernando Vicente

 

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Gavetas:

A Gaffe inconveniente

rabiscado pela Gaffe, em 26.06.16

The Bronx Sisters, 1920s.jpgSer uma rapariga esperta é mandar alguém à merda de forma tão educada, que a pessoa fica ansiosa por começar a viagem.

 

(Pardon my french)

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Gavetas:

A Gaffe sagrada

rabiscado pela Gaffe, em 24.06.16

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A minha memória alberga algumas imagens que dificilmente poderei traduzir.
São sempre deslumbrantes, que as más empurro para longe, desmembro e enterro nos ermos da minha alma.

 

Uma dessas luminosas recordações tem a minha mãe como uma das personagens principais. 
Vejo-a embevecida abraçada à cabeça do meu irmão que arde em febre.
Pálido e indefeso, o homem tinha adormecido e a minha mãe olhava aquele gigante que escaldava, dócil e agreste, que lhe tinha pousado no regaço.


É uma imagem muito próxima da iconografia do sagrado.
Há muito de ilusório nesta memória, porque, como diz o meu amigo, sempre que recordamos uma coisa, tornamos a vivê-la de modo diferente, mas aquela tarde em que a febre não baixava e ameaçava incendiar a casa e em que a minha mãe se transfigurou e mais uma vez revelou uma alma capaz de servir de colo, vai ficar no meu peito como a medalhinha de ouro que se traz ao pescoço presa num fio.


Há memórias que são como orações.  

 

Foto - Ed van der Elsken, 1956

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Gavetas:

A Gaffe sem Ascott

rabiscado pela Gaffe, em 24.06.16

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Reconhecendo que uma rapariga vai deixar de pode ir a Ascott sem autorização, será de equacionar impedir o Reino Unido de participar no Festival da Eurovisão.

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Gavetas:

A Gaffe canoista

rabiscado pela Gaffe, em 23.06.16

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A Gaffe admite que assiste aos jogos de futebol. É certo que o tempo na tarefa não dura mais do que o necessário para vistoriar os rapagões e dar, ou não, o seu aval aos corpanzis que lhe apraz observar. Cinco minutos bastam para carimbar toda aquela testosterona aos chutos.

 

Admite porém que há desportos mais atraentes, embora muito menos badalados. A prova viva do que se diz aqui é o maravilhoso canoista Matthew James Lister que fotografado por Lee Faircloth faz com que nos apeteça segurar o remo a todo o custo - desejo que jamais terá como alvo as chuteiras de Ronaldo.      

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A Gaffe proustiana

rabiscado pela Gaffe, em 23.06.16

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O mais maravilhoso dos meus amigos é moreníssimo, possui uma juba leonina, com caracóis soltos, negros, descontrolados e olhos pretos como carvão. É um homem belíssimo. É também agreste e indomável - características mediterrâneas herdadas do pai, que a mãe tem a suavidade frágil e aparentemente submissa que quase sempre acompanha as elegantes de gema, - pratica pólo aquático desde criança, é professor agregado numa das mais prestigiadas Universidades do mundo e vai de bicicleta para o trabalho.

 

Estas especificidades fazem deste maduro trintão um magnífico exemplar da espécie e muitas vezes penso que se a divina Natureza tivesse de organizar um catálogo, esta criatura poderia figurar na capa.

É evidente que tem defeitos tenebrosos. É irascível, mal-humorado, rezingão, muito pouco social e sobretudo implacável com os responsáveis pelo mais pequeno deslize que implique uma falha na análise da relação complexa entre Aschenbach e Tadzio ou a localização desta particular obra de Thomas Mann numa Veneza de Inverno.

 

O magnífico e poderoso guerreiro não entende rigorosamente nada de trapinhos. É cego e surdo - tendo uma voz tonitruante - em relação àquilo que veste e apunhala os invasores que lhe sussurram ao ouvido que os tons cor de terra não são os que mais o favorecem.

 

Usa invariavelmente camisolas de gola alta e casacos de tweed, espinha ou texturas subtis, com cotovelos protegidos por ovais em pele, calças de sarja – normalmente chinos, - apertadas por cintos de couro corroído e arrogantes e robustos sapatos picotados de solas possantes. No Verão, a imagem não se afasta muito destas características, substituindo apenas a textura e espessura dos tecidos e trocando as golas altas pelos colarinhos de camisas brancas.

 

É inevitável o ar absolutamente vintage que contribui de forma decisiva para o seu encanto e fascínio.

 

O apelo a um dos meus mais queridos amigos não é inocente - raramente o sou. Existe porque me recordei que, quando lhe fizeram notar a indiferença com que tratava o seu guarda-roupa, respondeu de modo ambíguo e um bocadinho irritante:

- Se não ando atrás das modas, a moda virá atrás de mim.

A premonição acaba de se cumprir e, mais uma vez, o homem sorri desdenhoso e sobranceiro.

Nunca como hoje o allure masculino que nos empurra para um tempo quase proustinano foi tão reforçado e elogiado. Ser-se vintage é possuir um je ne sais quoi imprescindível a uma urbanidade que pretende ser cosmopolita e perene.

 

Esta busca de um tempo perdido está ligada, como não poderia deixar de ser, àquilo a que os peritos chamam frustração do presente e às convulsões e desilusões sociais e societais que invadem o quotidiano do mais comum dos mortais. Este retorno à uma ilusão de segurança e solidez passada pode ser insidioso, insinuado e insinuante, mas surge de forma clara na actualização, visível a olho nu, sobretudo das correntes de rua.

 

Cíclico e circular, até este movimento se faz ao som da Lei de Lavoisier, repescando e tornando actual a imagem vagamente anacrónica de um homem que acaba perseguido e apanhado pelas mais recentes tendências da ilusão dos trapos.

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A Gaffe cristiana

rabiscado pela Gaffe, em 22.06.16

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A maviosa cançoneta Atirei com um pau ao gato - que os gorilas me perdoem tal violência - ganha hoje uma versão mais moderna e mais telegénica que será cantarolada ater à exaustão por todas as redes sociais e por todos os posts que como este já a conhecem, embora, em abono da verdade, o pau atirado ao lago por um rapagão irritado e mal educado tarde em ser enfiado pelo rabiosque acima de todos os jornalistas de um qualquer canal perto de si que nos fazem engolir até ao vómito as mais imbecis e quotidianas peripécias de cada um dos jogadores da selecção.

 

Um jornalismo que precisa de provocar e um país que gosta de ver e justificar arremessos deste calibre para golear, nem sequer merecem um quarto de final ranhoso de um motel de província.          

 

Na estampa - CR ataca um jornalista que responsabilizou o novo corte de cabelo da vedeta por qualquer coisinha má

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A Gaffe corajosa

rabiscado pela Gaffe, em 22.06.16

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Estava a Gaffe esbardalhada no sofá, depois de ter visto o último episódio da sua série favorita, quando decidiu recolher a languidez nos lençóis fresquinhos dos seus aposentos.

Segurou Afonso Cruz - não propriamente o rapagão, mas apenas uma das obras, infelizmente, - fechou as janelas, as luzes e, depois dos rituais do costume, entra no quarto almejado.

 

Subitamente sente o coração estilhaçar-se aos pés.

 

Pelo ar esvoaça um bicho!

 

Um pássaro, um avião, o super-homem?!

 

Um pássaro não é certamente que o pássaro não bate assim nas persianas fechadas, um avião seria politicamente incorrecto e a Gaffe não costuma ter a visita nocturna do super-homem – mais uma vez, para infelicidade sua.  

 

De luz ligada percebe, para seu horror, que o monstro não sendo o Batman - a Gaffe decididamente é infeliz! - é uma miniatura sem qualquer nocturna ambição super heróica.  

 

Um morcego!

 

A Gaffe tem pavor dos morcegos desde que lhe disseram que os mostrengos tocando nos cabelos de alguém neles se ensarilham, não sendo possível retirar estas abominações sem ajuda de profissionais. Tendo em conta que a profissão de extractor de morcegos dos cabelo das pessoas não é muito vulgar, a Gaffe prefere entrar em pânico.

 

Uma rapariga sozinha com um Bruce Wayne de pacotilha no quarto, ou desata aos gritos provocando, àquela hora, interpretações maldosas e muito pouco dignificantes dos vizinhos ou lembra-se de Afonso Cruz que lhe sussurra que um herói é o que não teve tempo de fugir.

 

A Gaffe não tem sequer forças para se descolar da esquina do quarto, logo atrás da porta, ficando desta forma muito limitada e com o tempo de fuga demasiado apertado, sem muitas hipóteses de continuar a ser cobarde - aquele que teve a coragem de fugir.

 

Resoluta, decide escapar-se e assumir que uma rapariga é sempre wagneriana quando quer.

Corre para a sala, embrulha-se na manta de Verão estatelada no sofá e quase de gatas entra no quarto, dirige-se à janela e abre as persianas que sendo eléctricas não a obrigam a permanecer de pé e volta em mísero estado a escapulir-se.

 

Espreita segundo depois.

 

O mostro continua a apavorá-la, a esvoaçar de lado para lado, de lado para lado, de lado para lado!

 

A Gaffe, concentradíssima naquele heroísmo todo, tinha-se esquecido de subir a porcaria do blackout.

Volta a embrulhar-se na manta, volta a empurrar a porta, volta a gatinhar, volta a provar que uma rapariga sozinha é uma catástrofe com um morcego no quarto e finalmente assume e prova, para gáudio dos seus comentadores anónimos, que lhe falta um homem.

 

Tudo no ar, tudo subido, a Gaffe quase a morrer de medo, volta à base, ou seja, à sala onde tudo está tão iluminado como os dentes de Paulo Portas e só não desata a comer gelados para disfarçar o nervoso e fazer pendant com o cérebro, porque se sente a petrificar e receia que lhe salte outro Batman de treta de dentro do frigorífico.   

 

Minutos depois, e depois de ter finalmente compreendido a relação espaço/tempo e toda a Teoria da Relatividade, a Gaffe decide espreitar o antro conspurcado.

 

Não há lodo no cais.

 

O bicharoco tinha desaparecido.

 

A Gaffe procura dentro dos armários – da casa toda! – mais ratos com asas e, depois de inspeccionar todas as sanitas, decide finalmente deitar-se e passar a noite em claro, só para contrastar com o acontecido.

 

Ilustração - Tomasz Jedruszek

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Gavetas:

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