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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Assunção Cristas

rabiscado pela Gaffe, em 01.06.16

by jlillard.jpg

A Gaffe, ao contrário do esperado, não se vai pronunciar acerca das declarações de José Cid, não só porque pensava que o senhor já tinha falecido, mas também porque foram proferidas há tanto tempo que os transmontanos atingidos já se foram todos desta para melhor, sendo possivelmente substituídos por garbosos jovens com dentaduras intactas. O rapaz não tem culpa de apenas agora ter chegado a informação ao lugarejo.

O meu querido José Cid devia arejar de quando em vez a careca, dando descanso ao rato morto que a encima. Ficava tudo resolvido.

 

No entanto, o que traz aqui a Gaffe é também uma outra boca infeliz.

 

A de Assunção Cristas.

 

A Gaffe assistiu, não sabe bem porquê, ao habitual debate Parlamento/António Costa e admite que se comoveu perante a visão de Passos Coelho numa versão a puxar a sardinha para a nobreza - sem se perder o aroma da dita, - de primeiro-ministro em exílio, mas tem de reconhecer que o que mais a impressionou foi ver a sua querida Cristas a deslizar como se tivesse substituído a língua por patins.

Cristas faz jus à expressão tão transmontana em cada pedra, minhoca e cada calhau que atirava tinha apenso um anelídeo de sua lavra e cuidado que António Costa tinha o prazer de lhe arremessar de volta. Cristas acabou coberta de material que chegava para adubar a lavoura do seu mimoso antecessor.

 

A Gaffe perdoa. A inexperiência é pau para toda a colher - diria Trás-os-Montes, - e a radiosa senhora ainda só teve tempo de amarrotar o tailleur no asseado carro do Partido, sendo-lhe ainda esquivo o funcionar de geringonças.  

 

Perdoada que estava e já airosa, Cristas desgosta-nos de novo alvitrando a hipótese de ver fechadas escolas públicas em vez do não financiamento das privadas ali mesmo ao lado.

 

A Gaffe não entende!

 

Então anda uma pessoa de bem, vestida de amarelo, a fazer figuras Ferrero Rocher, a segurar panos por assinar, sem costuras em condições, a andar a pé, sempre em prol da pequenada, e quem é da casa coloca a hipótese de trasladar os pretos, os ciganos, os refugiados, aqueles miúdos que ainda trazem coisas em papel, os de leste onde há imensa gente por tratar, os chineses e os indianos pobres - e os outros, aqueles que chegam de países em vias de extinção, - os magrebinos que se vestem mal, os pequenos com défice de atenção - digamos assim, porque não somos desumanas e temos imensa pena - e os piolhos, para dentro dos nossos lares?!

 

Minha queridíssima Assunção, isto não é a casa da mãe Joana como poderá ainda hoje retorquir-lhe um transmontano.

 

A boca pode ser uma armadilha, meus queridos, mas há que ter cuidado para que quem nela tomba não ser quem a constrói.

 

Ilustração - Jlillard

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A Gaffe adolescente

rabiscado pela Gaffe, em 01.06.16

Lolita.jpg

Encontrei o meu olhar de anjo inocente e ingénuo que fica muito próximo, quando o vejo reflectido nos espelhos, do mais sacana dos olhares de caça, à porta do Clube Siècle em Paris. 

 

Preocupada, sabendo-o sem carro, a minha tia suplicava que fossemos esperar o reservado esposo e o acompanhássemos a casa são e salvo. O pretexto - se fosse necessário para estas incursões pela noite dentro, - seria o melhor e o mais abnegado.  


Não tínhamos permissão para entrar. Fechavam-nos cá fora. Ficávamos na rua soltas e com frio, à procura de risos e de lume. 
O jogo que encontramos para empatar a espera tinha no corpo aquela sinuosa inocência que roça levemente o que é perverso, mas que se agarra sempre à cândida ingenuidade das meninas. Escondiam-se umas das outras e uma apenas uma, encostado à noite mimava uma Lolita.

 
Esperávamos a saída dos senhores reservados e potentes como grandes e pesados animais de pântano e de charco e, muito aplicadas dentro dos papéis ou do que deles imaginávamos ser o que era o certo, jogávamos a sedução, esperando aquele que nos daria os pontos elevados e que, dizia-se, ser Bispo e muito digno. 


De todas, fui sempre eu, a mais novinha, a vencedora. Das raparigas mais adultas nenhuma chegou a reunir os instantes necessários para tal. Perdiam sempre, presas a uma ineficácia desgraçada e uma inaptidão confrangedora.  


O meu jogo era o do olhar.  


Aprendi a construir a perigosa e insondável inocência de Lolita e os meus olhos decoraram os textos do insidioso abismo da candura, adivinhando o cio paquidérmico. 


Nunca à porta do Siècle eu vislumbrei o Bispo. Com dezasseis anos acertamos de preferência nos acólitos.

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