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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sonhada

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.16

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Como adormecem os sonhos quando não há histórias de embalar para lhes domar a vigília? 


Será que pousam a cabeça no meu colo e se deixam tocar pelos meus dedos, ou, com o meu sono nos braços, mordiscam o cansaço de se ser eterno e cabeceiam a eternidade que é apenas a avenida lançada sobre mim, que acabo sempre no começo da espera? 


Adormecer com sonhos é como ter o mar dentro da cama. Não basta ter navios. É preciso que saibamos onde estão os portos e os exactos lugares onde chorar é forma de prender amarras.
Depois, é só unir a bússola às estrelas e transformar as lágrimas em velas.

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A Gaffe perneta

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.16

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A minha irmã afasta do olhar uma madeixa de cabelo e brinca com o brinco.  
Observa-me em silêncio. Um silêncio de pernas cruzadas e baloiçar de pé. Depois dispara. 
- Vais jantar comigo, hoje. Quero saber tudo… 
Não há nada de novo ao Sul do Equador! Apenas cansaço.
- Minha pobre menina  - cicia, - nunca tentes esconder geografias aos autores dos mapas.  
Não tento. Sou um ponto invisível marcado nas cartas abertas na mesa.  


A minha irmã não é pontual. Cuida dessa melíflua característica como se ela fosse apanágio das mulheres mundanas e, quando se vislumbra a possibilidade de chegar a horas, a minha irmã arranja modo de retocar pestanas, o que, como é sabido, atrasa os aviões.  


Entro sozinha no apartamento asséptico.  
Uma jarra vazia e sofás desertos. Branco e platina. Cinza e metal e a palidez das coisas que ficam sozinhas, que dormem o sono do que me parece o não habitado.  
Procuro a cadeira mais desconfortável. Não quero adormecer dentro de universos que não são afáveis e se me afogar nas almofadas grandes, exausta, desmaio.  
A cadeira que escolho deve ter um nome. Quase todos os móveis ali o possuem. É um desconforto de espaldar erguido e assento que cede quando lá me sento.  
Pouso os cotovelos nos joelhos, seguro a cabeça com as mãos e não penso em nada. Às vezes sou muda cá dentro e sou cega e sou surda.  
Sinto o meu tronco tombar para a frente sem dono e sem dó.

 

E adormeço.


Acordo depois em sobressalto com a minha irmã a chamar por mim. 
Já não tenho pernas!  
Deixei de as sentir. As duas! As duas! As duas!  
Não me sei mexer. Não me sei mover. Não sinto, não controlo, não percebo, não tenho a noção das pernas que desapareceram durante o meu sono!
Não sei bem se tenho de desatar a rir ou se deva antes desfraldar o pânico, mas parece-me bem a segunda hipótese.  
Tento levantar-me e sinto formigas a trepar pelas coxas depois de já terem invadido o resto e mordido os pés, escavacado tudo, loucas, destravadas, pequenas e más. 
Tento levantar-me e as pernas não querem. Num esforço aflito impulsiono o tronco e com o aparato de torre a cair, desabo no chão.
Eis-me deposta, despojada, destronada, humilhada e abatida, de nariz no soalho a mirar sem honra os sapatos altos da minha irmã chegada.
- Devia ter-te dito que a cadeira é usada apenas para sentar os homens que quero depois rojados aos pés.

 
Há sonos que são humilhações sem pernas para andar.

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