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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na fotografia

rabiscado pela Gaffe, em 18.06.16

Feinstein.jpgUm dos grandes desgostos da Gaffe - para além do facto de não ter a pose das raparigas que desfilam pelos corredores das Casas de alta-costura, com um ar de indiferença abismal e de distância quase transcendente ou como se tivessem injectado botox no cérebro, - consiste em não saber fotografar.

 

As fotografias que tira aos amigos fazem-nos parecidos com aquelas que figuram no Cartão do Cidadão ou, em alternativa, que foram possuídos pelo Demo e que a qualquer momento vão rodar a cabeça e cuspir-nos coisas esverdeadas - o que não dista muito das do Cartão referido.

Também não tem sorte a fixar paisagens. A única que captou em condições foi a de umas ruínas e, mesmo assim, depois de ter corrido esbaforida de orgulho exibindo a obra, foi cilindrada com a pergunta:

- Mas o que era isto antes de o teres fotografado?

 

A Gaffe tem uma Nikon D200. Um objecto assustador. Repleto de luzinhas que se acendem à mínima pressão, com um monitor enxameado de símbolos, botões e manivelas, rebentos, borbulhas, verrugas, manípulos, sinais, filtros, objectivas monstruosas e pesadas que fazem a Gaffe tombar desequilibrada e um flash automático que se ergue subitamente com um click fazendo pensar que foi accionado um qualquer dispositivo atómico e que vamos morrer todos ali.

 

A Gaffe tem de madrugar se quer captar um pôr-do-sol.

 

A verdade é que esta rapariga esperta consegue ultrapassar a sua tragédia fotográfica rodeando-se de gente - bom dia, Christophe! bom dia, Pyotr! - que é capaz de obter uma boa fotografia mesmo tendo o Cláudio Ramos por modelo. Fica com as mãos livres para pressionar outras coisas, fixar outras paisagens e captar outros movimentos.

Esta procura, muitas vezes obsessiva, do para mais tarde recordar é portanto a causadora de urticária numa rapariga propensa a maleitas psicossomáticas.

A Gaffe decidiu há muito tempo abandonar este desgosto fotogénico e recorrer a virtuosos do click que vão fixando em condições aquilo que a apaixona ou a deslumbra.

A exibição da obra produzida pela nossa incipiente experiência e debilitado saber tem demasiadas vezes tendência a ser sobrevalorizada. Acreditamos, ingénuos, que somos geniais ou que pelo menos conseguimos fazer equiparar o que executamos, com confrangedora incapacidade, à mais poderosa obra de um perito na matéria.

 

O erro desta valorização está, por exemplo, esbardalhado em qualquer página do Facebook onde milhões de fotos clamam a nossa atenção para as maminhas que se mostram ou que se insinuam descontraídas em férias com amigos e que, por muito que custe à portadora, parecem dois - há casos em que mais - melões de Almeirim ou duas azeitonas perdidas por uma mirrada oliveira onde nem a Senhora pousaria, mesmo correndo o risco de não comparecer à reunião agendada com os pastorinhos.

 

Somos Sebastião Salgado dos gatinhos fofinhos, das festas em família com a velha tia centenária, dos trilhos de viagem com vacas a sorrir, das colunas de mosteiros com rosáceas, das bases dos fontanários de uma aldeia, do primeiro dente do bebé, dos folhos repolhudos da noiva que é a prima, do prato com salada contaminada no campo, do mergulho na piscina de plástico, da unhaca envernizada, depilação já feita, do enfrascar até ao coma do grupo de Sexta-feira à noite e das poses de matadores playboys pindéricos e de patéticas playmates de pacotilha.

Tudo o que existe para mais tarde recordar sorri no facebook e é exibido como susceptível de ser partilhado com o mundo circular de uma qualquer rede social.

 

A Gaffe é limitada. Não faz a mínima ideia de como se capta uma fotografia capaz de se aproximar do pasmo que sente pelas coisas da vida. Deixa que os mestres fixem o deslumbre que não sabe reter na memória da Nikon.

 

Faz click com o coração.

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