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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe em casa

rabiscado pela Gaffe, em 30.07.16

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 O lugar a que chamamos casa é aquele que nos iliba, que se inclina sobre a memória e que nos amansa as réstias de passado que despertam de súbito quando há distância.

 

Há longe e casa, pedaços de gestos soltos à toa, traços de estradas, riscos de janelas, lanços e declives, minúsculos esboços, linhas ou sulcos, delineados movimentos que mal vemos, mas que sacodem cá dentro as memórias do que foi e, sobretudo, a memória do que nunca aconteceu e que lamentamos não ter sido.

 

Regressar é como sentir o solavanco, o travão medonho, a interrupção daquele salto que trazia preso ao tornozelo a corda que nos salva antes do solo.

Regressar é como retomar o esquecimento. 

 

Foto - Henri Cartier Bresson

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A Gaffe retroparva

rabiscado pela Gaffe, em 29.07.16

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Fui assistir, há tempos, a um concerto ao ar livre dado por uma banda muito interessante. Uma homenagem a Tom Jobim. Esvaiu-se o nome da banda e o da vocalista. Só sei que era brasileira e que tinha uma voz muito bonita que não envergonhava o Jobim. 


O que me esfacela o entendimento é a cambada de homens que serigaita sempre nestes acontecimentos. São quarentões já rançosos, alguns já entrados nos cinquenta, geralmente barrigudos com pernas fininhas, mas muito cool. Muito Willie Nelson. Muito country.

 

Usam pólos deformados, azuis ou pretos ou então t-shirts lisas, gastas e todas mal amanhadas; sapatos moles, com aspecto de nunca terem visto melhores dias ou sapatilhas mais que ressequidas; Jeans descaídos, sem cinto, bastante sujos e com mau aspecto e um inseparável saco de couro muito usado. Trazem o cabelo mal cortado, com umas madeixas na nuca todas oleosas ou usam um rabo-de-cavalo raquítico, embora sejam quase carecas em cima. Fumam sem parar coisas que fabricam com a perícia de um ourives, não percebendo que o que nos mata deve chegar já feito. Vão buscar as cervejas, com uma rapidez fulminante, e bebem-nas quase sempre pela garrafa ou deixam os copos vazios pousados em todo o lado. Não se sentam, mesmo havendo cadeiras à disposição por todo o lado, para se esbardalharem à nossa frente e serigaitam para trás e para diante como se tivessem grandes planos para o resto da noite. Falam alto e bom som acerca do que ouvem para mostrar que estão por dentro; criticam o tom da voz que canta, com ar muito conhecedor, e referem a data em que a canção foi escrita - fiquei a saber que há canções do Jobim com 50 anos que são ouvidas hoje como se tivessem sido escritas ontem. Nestas andanças, as irritantes criaturas não olham para ninguém. Entram e saem para trazer bejecas com os olhos de quem está a cumprir uma missão em África e desatam às gargalhadas vá lá a gente saber porquê, mesmo no meio do refrão. 


Quem os acompanha são normalmente raparigas iguais. Muito modernas, com calções curtinhos e casaquinho de malha fininha e deformada, por cima da t-shirt com logos gigantes ou citações revolucionárias; cabelo desgrenhado e volumoso, espigado, e chinelos do tipo havaianas, mas decorados com umas florecas murchas, todas retro. Bebem brandy que também trazem cá para fora. Há as que empurram carrinhos com crianças dentro que, suspeito, provam as bebidas dos pais antes de sair de casa, porque estão sempre a dormir e com ranho seco no nariz.

 
Comecei por achar que não passavam de representantes do estereotipado intelectual de esquerda gasta, mas sou nova e não penso. Da esquerda só os que são canhotos. O resto é maneta. 


Há-os por todo o lado e desfazem por completo o prazer que há em se ouvir em sossego uma canção de Jobim. 


São os retroparvos.

 

Ilustração - G. Haderer

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Gavetas:

A Gaffe uniformizada

rabiscado pela Gaffe, em 28.07.16

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Pela brevíssima brisa anoitecida, a Gaffe sacode os caracóis, faz esvoaçar o vestido azul petróleo de seda fresca e com o allure que chega dos anos 50, flutua na Avenida, alterando o sossego do mar.

 

O que se lhe depara é um cenário de um filme de ficção científica de miserável categoria.

 

Gente vergada, iluminada pela luz azul de rectângulos que vibram presos à mão, que caminham sem ver, que palram e balbuciam monossílabos, com todos os tubos ligados à Nintendo, que param e disparam com um dedo que sorri depois, que arrancam das mãos esfomeadas dos petizes a ganância e a incontrolável vontade de apanhar as bolas no banco que foi detectado no brilho de espectro do pequeno aparelho.

 

Caçam Pokémons.

 

A Gaffe repensa a uniformização da infantilidade, a globalização do inútil que se desculpa com o movimento que impulsiona, e decide procurar alguém que mereça o cantarolar da última diva de Hollywood, uma das suas mais esplendorosas deusas, a que merece ser encontrada em qualquer ponto do globo. Ruiva, como não podia deixar de ser.

 

Pokémon por pokémon, que, pelo menos, se consiga uma resposta.

 

Ilustração - Pawel Kuczynski

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A Gaffe "arrebentada"

rabiscado pela Gaffe, em 27.07.16

read.gifA comunicação social - sobretudo a televisiva - tem sido um manancial de petardos jornaleiros e de atentados à língua portuguesa. Um conjunto jornalístico de meninos e de meninas que parecem saídos da geração que protagonizou a primeira edição de Morangos com Açúcar, correndo desenfreado, com batido dos ditos na gramática, de microfone em punho, à procura do nós fazemos a notícia.  

 

Ouço uma esgazeada moça aos gritos a perguntar sucessivamente a uma mulher que se manifesta nas ruas, se aquela é a primeira vez que participa nesta manifestação. Vejo outra a empolar as coisas com um sonoro arrebentou um petardo na avenida. Pasmo quando o Presidente entrou dentro do carro e saiu. Fico sem saber se Marcelo saiu para fora do carro porque se esqueceu da pochete ou se foi o carro que saiu para fora do palácio com o presidente que entrou lá dentro. Há alguns que conseguem ter uma certeza absoluta, outros que dão conta do acabamento final e ainda os que se estreiam pela primeira vez, embora já tenham viajado pelos países do mundo há muitos anos atrás, mas que comparecem pessoalmente no evento, encarando de frente o pequeno pormenor que é a climatologia geográfica.

 

Já não falo dos mais velhos sacrefícios que temos de fazer para desculpar o treuze e a pessoa humana de Miguel Sousa Tavares; já não falo dos resumos totós depois de termos ouvido todo o paleio debitado; já não falo das pormenorizadas descrições do que estamos a ver - agora o presidente entrou para dentro da sala, a tentar que ninguém perceba que traz uma ventoinha no rabo, e dirige-se neste momento ao palanque  com muitos papéis na mão; já não falo do escândalo que é ouvir e ver sem reagir um encadeamento noticioso que faz seguir à reportagem que esmiúça, até nausear, qualquer tragédia - com uma banda sonora de filme de 5ª categoria, - o apontamento que refere com glamour a visita de Angelina Jolie aos pobrezinhos ou nos mostra o rabo do príncipe Harry ou o chapéu da duquesa de York; já não falo dos atletas que venceram medalhas e nem quero saber da presidenta do FMI.  

 

Já não falo disto.

 

Desligo ou arrebento.

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A Gaffe com borbulhas

rabiscado pela Gaffe, em 27.07.16

Uma das vantagens dele dormir de rabo para o ar - diz-me a minha querida amiga -  é a de não ressonar. A outra permite-lhe o deslumbramento que é poder mirar e admirar o que virado para cima se expõe.

- Tem um rabo belíssimo! - esbardalha-se a rapariga.

Segundo a mesma, o rapaz tem dois gomos redondos com uma cor que tem a textura de veludo. Um fruto mais que perfeito boleado pelos deuses que deixaram duas marcas, dois sulcos, duas mossas dulcíssimas no finalizar das costas, a ladear a coluna. Duas taças invertidas, amoras, travo a sal, a suor brevíssimo, a chocolate espesso, a tangos bem dançados, a concertina, a cetim que se derrama nos dedos.

Os predicados não foram tão líricos, mas a ideia passou.

 

Mas no beijar a nádega direita a rapariga encontra o desarranjo do perfeito. No centro de um dos hemisférios, ao Nordeste do prazer, uma espinha deslavada e virulenta.

 

Pergunto-me: A imperfeição espreme-se?

 

A resposta não é de todo simples.

Ao contrário do publicitado, a atracção pelo oposto não perdura a médio prazo. Não há paciência que aguente hard rock a vida inteira quando apenas desejamos Maria João Pires a fazer esvoaçar Chopin pelas nossas horas todas. Não há rabinho que aguente sessões contínuas de cinema húngaro quando queremos ver somente a pistola de John Wayne nas nossas telas.

 

O casal duradouro é aquele em que predicados e pecados se deixam contaminar mutuamente e em que cada um dos elementos da união é infectado pelas virtudes e defeitos do outro, produzindo uma parecença que pode chegar a ser física.

 

Malhereusement - dito assim não é tão deprimente - raras são as vezes em que uma soma simples produz apenas um resultado igual ao de uma parcela.

Nos casos mais banais, maioritários, somos dois vagos e breves companheiros de viagem, prontos a mapear rotas que nos afastam um do outro, sem levar no coração um qualquer recuerdo significativo.

 

Nestes casos, a imperfeição não se espreme.

Nestes casos, a imperfeição inflama insuflada e inflacionada.

 

Um homem que nos enfeitiça do alto da sua centenária biblioteca, durante um jantar à luz das ilusões e usando a perfeição que lhe inventamos, é descoberto insignificante quando nos revela de repente o seu enorme fascínio pela apanha do berbigão.

Um homem que é capaz de humilhar Tarzan, não com a potência do gritedo, mas com a selvagem beleza das savanas do seu corpo olímpico, é visto Quasimodo no instante exacto em que lhe encontramos pontos negros nas costas musculadas ou um pelo a sair pela asa do nariz como a pata de um grilo gigantesco.

Um homem com um maravilhoso ar Gucci, com barba de dois dias rigorosamente talhada por mãos peritas de barbeiro caro, que se prepara para contar azulejos no irrepreensível WC do nosso apartamento, se - contrariando os assomos de timidez ou de recato procurando uma proximidade de reserva e discrição com a porcelana que silenciará o inevitável, mesmo usando um sofisticado ar de quem está ali, breve, de passagem, entre aviões ou alfa-pendulares - erguer o poderoso jacto de aflição, afastado do alvo um valente metro medido por defeito, como um boçal e barbudo anjo de jardim barroco, pode contar com a viagem só de ida no foguetão da NASA mais caseira.

 

A imperfeição deste modo não se espreme. Torna-se borbulha purulenta e nauseante que invade e soterra o mais ínfimo sinal de união quando o somatório de duas vidas sobrepostas dá sempre o resultado que se espera em matemática.    

 

Nós, raparigas espertas, somos exageradamente picuinhas nestes casos.

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A Gaffe descarrilada

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.16

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O calor é muito.

Talvez próximo do mar a temperatura desça e possa respirar em vez de me sentir a morder esta canícula.

 

Não gosto de gares de caminhos-de-ferro, do barulho dos comboios nos carris; dos passageiros que sopram o ar do inferno enquanto esperam; do zumbido das placas corrompidas que anunciam chegadas e partidas; dos horários em papel presos por fios; das salas de espera nauseabundas onde há sempre um casal apaixonado a sussurrar; dos vagabundos como pombos magros; dos encontrões das mulheres cheias de sacos, das pontas de cigarros pelo chão; dos quiosques atulhados em jornais por onde espreita sempre um velho revisteiro; das malas com rodinhas; dos cafés de plástico sem esplanada; das fardas dos que passam maquinistas; dos relógios que nunca acertam horas nem destinos e do pescoço da mulher que olha o mudar sucessivo dos lugares, no quadro que encima as bilheteiras, e que nunca vai partir, porque nunca chegou a nenhum lado.

 

Não gosto de gares de caminhos-de-ferro. Não gosto de sair e me encontrar com doidos vagabundos a lancetar o tempo, troncos nus, sonhos sentados e malas onde amarfanharam o destino.

 

Foto - Anders Petersen

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A Gaffe carnavalesca

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.16

Gaston Paris, Folies Bergère, Paris, 1930s.jpg

 

- Quando ele te cumprimentar, sorri, sê uma ruiva amorosa e apatetada. É muito importante para nós.

- O homem parece uma lula velha. Não vou conseguir.

- És minha irmã. Finge.

 

Foto - Gaston Paris - Folies Bergère, Paris, 1930s

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Gavetas:

A Gaffe em casa alheia

rabiscado pela Gaffe, em 25.07.16

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Uma mulher que consegue cavalgar o quotidiano, avançar por entre a multidão das horas mais cansadas com a força e a vontade de arrasar o fado, sem perder de vista os rapagões que ultrapassa, merece um header que tente espelhar estes pormenores.

Minha querida amiga, apesar de ficar apavorada quando faço asneira, arrisco o mesmo template - o único em que me movo com alguma facilidade - e apoiada pela fabulosa Celia Calle, entrego-te a tua casa nova.

Espero que te sintas tão bem neste telhado como eu me senti ao construi-lo.

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A Gaffe vietnamita

rabiscado pela Gaffe, em 25.07.16

 

Esta é uma das fotografias que trazem pronto o que querem que se sinta ou pense ou mesmo como querem que eu reaja. Podemos portanto divagar à vontade que o rastilho é sempre o mesmo. Por mais inesperada, ocasional e imprevista que tenha sido a captura, a foto tem inscrita a história que quer contar.

 

No entanto, esta tem colado um elemento particular bastante interessante.

 

No capacete está escrita a frase de William Tecumseh Sherman e, exactamente por isso, permite-nos uma intertextualidade importante que, se não me custasse muito, daria um post muito comprido e a armar ao fino. Como sou uma rapariga apagada, cheia de calor e começo a não ter paciência para estas teclas, reporto-me apenas a dois ou três grãos para moer enquanto isto passa.

 

Lembro, em consequência do exposto, e assim sem mais nem menos, que se faz tarde e a vida é curta, Voltaire a atribuir a César a extraordinária deixa: Com dinheiro tem-se soldados e com soldados rouba-se dinheiro, dou um voltinha por Agustina Bessa-Luís e a identificação de guerra com orgia - ainda que macabra e negada em consciência, - e apanho na esquina Sartre e o inferno somos nós.

 

Juntos, estes conceitos dão uma data de coisas fenomenais e do tamanho do post que devia ter escrito.

 

Como sou uma rapariga preguiçosa, fico-me a olhar para o rapazito e a sentir exactamente aquilo que a foto quer que eu sinta e que não deixa de ser semelhante àquilo que sente qualquer um que a apanhe por acaso.

 

Foto de Horst Faas - 18 de junho de 1965

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A Gaffe intimada

rabiscado pela Gaffe, em 23.07.16

PoliceDog.jpgA Gaffe acaba de ser cilindrada.

Entra-lhe no gabinete - depois de lhe ter sido anunciado um senhor que lhe quer falar com urgência - um rapagão com cerca de dois metros espadaúdos, de barba rasa, olhos de amêndoa amarga e doce, meu tropel de ternura, minha casa, meu jardim de carência, minha asa, pestanas do tamanho da Torre Eiffel, vozeirão tonitruante e T-shirt vermelha justíssima para fazer jus aos peitorais morenos.

Saca do bolso traseiro - e que traseiro, Deus meu, porque padeço eu assim? -  de um rectângulo em couro que faz abrir. Cai a tampa àquilo e a Gaffe fica com a identificação do mocetão colada aos olhos.

PJ

Pronto e à paisana porque esse é o uniforme. 

 

A Gaffe imagina-se algemada, torturada por aqueles músculos todos, de joelhos macerados, pérolas rolando nas pedras frias das masmorras, Chanel esbardalhado, sem batom, descalça, sem um refresco que a salve a não ser o das lágrimas que tombam, despida de preconceitos, ali nua, verdadeira, honesta, pura e divinal, angélica criatura arrastada pela infâmia. Sem redenção. Uma condenada à chibata certa.

 

Depois dos salamaleques do costume, o rapagão pede-lhe informação de registos de carácter não nominal relativos a outra que não ela - não necessitando sequer, para os obter, de se dirigir a uma Gaffe agora envolvida pela desilusão. 

 

Já não se pode sonhar em condições.

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Gavetas:

A Gaffe garbosa

rabiscado pela Gaffe, em 22.07.16

There are many things in your heart you can never tell another person. They are you, your private joys and sorrows, and you can never tell them. You cheapen yourself, the inside of yourself, when you tell them.

Greta Garbo

 

Li há muito pouco tempo uma espécie de biografia de Greta Garbo.

Digo espécie porque é idiota pensar que alguém pode entender o que foi esta mulher e descrever com alguma exactidão o seu percurso, as suas vivências e aquela modalidade de Fado distante e gelado que sempre a acompanhou.

 

O interessante é que a dada altura é narrado o episódio em que a actriz revela um dos seus segredos. Em Ninotchka, de 1939, dirigida por Ernst Lubitsch, Garbo não consegue a expressão que o realizador exige para determinada cena. Repete-se até à exaustão o take e a actriz reconhece que não é capaz de reproduzir no rosto aquilo que Lubitsch acha necessário. Nenhuma expressão é a exacta.

Garbo desiste e decide não fazer qualquer expressão. Nenhum músculo se move. O rosto permanece imóvel, impávido, isento de qualquer poeira de emoção ou reprodução de sentimento e é então encontrado o registo certo. Parece que Lubitsch teve um orgasmo - não documentado.

 

Isto é fascinante. O rosto impávido de Garbo torna-se máscara onde é possível inscrever todas as emoções que transportamos e serve, como um espelho, cada uma das miríades de partículas de ausência, falha, perda, privação ou carência latente em cada um de nós.

Garbo é um Mito também por isto. Por se ter tornado o rosto que a alma que cada um de nós quer ver ao espelho.

 

Olho para Garbo e lembro-me da história que contavam.

 

O segredo do rosto de Garbo é - talvez seja, - simplesmente o facto dele, rosto, residir na plataforma das máscaras e como tal poder ser lido através de projecções.

 

Olhar para o seu rosto, sobretudo quando silencioso, é desbravar as infinitas possibilidades da dignidade e da dimensão humana.

 

A tentação da máscara - a máscara antiga, por exemplo - implica talvez não tanto o tema do oculto - caso das mascarilhas italianas, - como o de um arquétipo do rosto humano. Garbo dava a ver uma espécie de ideia platónica da criatura e é isso que explica que o seu rosto seja quase assexuado, sem todavia ser ambíguo.

 

O rosto de Garbo é a encarnação da Ideia.

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A Gaffe de mau pêlo

rabiscado pela Gaffe, em 22.07.16

A Gaffe é invadida pela melosa melodia de Francisco José, cavernoso e romântico, morno e enrouquecido.

 

Olhos azuis são ciúme
E nada valem para mim,
Olhos negros são queixume
De uma tristeza sem fim,
Olhos verdes são traição
São cruéis como punhais,
Olhos bons com coração
Os teus, castanhos leais.

 

Embalada pelo cantado, a Gaffe descobre que para além de uma parafernália de defeitos que lhe são atribuídos, é também uma ciumenta, com chispas de traidora, sem qualquer valor para o rapaz que continua a amornar a atmosfera que respira.

Não que sofra atrocidades com esta revelação melodiosa, até porque o artista não lhe preenche a pauta, mas começa a irritar ligeiramente perceber que as ruivas, geralmente com olhos claros, são sempre um caso digno de figurar no rol das figuras pérfidas que assombraram - pelo menos desde o início da Idade Média até ao falecimento da Santa Inquisição - e que assombram - não é à toa que se continua o ouvir a pindérica expressão ruiva de mau pêlo - a plácida vida dos vizinhos.

 

À Gaffe já é suficiente não bronzear, pensando com as suas sardas que talvez a facilidade com que apanha escaldões provenha das fogueiras inquisitoriais.

À Gaffe já bastam as suspeitas de infantilidade suspensas nos seus caracóis, como enfeites de Natal ranhosos, que os néscios e aparvalhados misturam com piadolas raquíticas.

À Gaffe já bastam as alusões à libido que nas ruivas se descontrola facilmente, tornando-a uma devoradora de homens, uma predadora sexual - vulgo tarada.

 

A Gaffe decide sem apelo nem agravo que se voltar a ser brindada com o clássico olhos azuis são ciúme e nada valem para mim ou com o tradicional mimo com sabor paternalista és uma ruiva de mau pêlo, vai referir, mesmo ignorando os factos, o tamanho exíguo, mesquinho, irrisório e caricato da pilinha do rapaz.

 

Mesmo que o rapaz seja uma rapariga.

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A Gaffe sardinheira

rabiscado pela Gaffe, em 21.07.16

Há uma tribo constituída na sua maioria por rapazinhos mais ou menos empertigaitados, com a capacidade de nos humilhar de fininho com espetadelas de alfinetes miudinhos quando aparecemos todas dispostas a mandar a Chanel para as urtigas.

 

São como sardinhas pequeninas. Não servem para conservar e são precisas muitas para acompanhar um arroz com tomates. 

 

São rapazinhos doidos por mostrar que a cadeira onde devíamos alapar o rabinho devia chamar-se Le Corbusier e não ter o aspecto miserável das minhas, que se chamam Nunes - grande português que vive em Carrazeda de Ansiães e tem bigode farto, - e foram compradas baratas na carpintaria com o mesmo nome.

 

Gostam de referir as viagens que fazem à Patagónia, apesar do tempo, e mostrar-nos que não dá, de todo, um bom ar esbardanhar o corpinho na areia mais próxima de casa, no pino do Verão.

 

Gostam de visitar museus e arranjam modo de verificar se a Mona Lisa dava com a chaise-longue que há no hall dos apartamentos pipis que arranjam com o dedo mindinho no ar.

 

Criticam todas as nossas expressões mais banais e acreditam que a Princesa Diana foi assassinada.

 

Costumam dizer-nos sem qualquer tipo de pudor que leram Shakespeare aos cinco anos, Tolstoi aos dez e com onze andavam enfronhados em Dostoiévski e, quando se referem à pintura, pasmam-nos declarando que foi aos sete aninhos que descobriram as subtilezas do expressionismo e as nuances todas curvas do barroco. Não percebem que não somos parvas e que reconhecemos que uma criança de cinco anos dedicada a Shakespeare ou à talha dourada dos séculos passados sofre de graves perturbações que num futuro por tratar a transformarão numa psicopata.  

 

São, para espanto meu, quase todos magrinhos e na sua maioria até são girinhos. Usam jeans apertaditos, camisolas de malhinha com decote em V para deixar que se veja a t-shirt branca, rentinha ao pescoço, uns ténis aguçados muito D&G e trazem umas pulseiras ranhosas e podres, de tecido colorido, apertadas com um nó que se tem de desfazer para dar sorte.

 

Raramente andam sozinhos. Arranjam sempre um compincha meio débil e com um QI vagamente numerável que lhes apara o pião e lhes vai dando razão, imitando-o nas farpas e nas opiniões. Dizem umas coisinhas com ar de quem decorou os resumos dos manuais escolares e gostam imenso de arranjos florais.

 

São pios e vão à missa, mas nunca rezam ajoelhados para não dar azo a ditos maldosos. Não são gays, são, quando muito, gente moderna e solta, sem teias de aranha, nem vestígios de preconceito e podem, eventualmente, dar uma ou outra escapadela com o mecânico que lhes arranja o mini, mas é tudo por uma questão higiénica: já que o rapagão tem a mão na agulheta, pode muito bem desentupir-lhes os canos. Nada de misturar sexo com isto, porque com estes moços, sexo é só entre iguais.  E são muito iguais estes rapazes.

 

Andam a passear o rabinho por todo o lado e depois, como quem não quer a coisa, vão informando que são os filhos mais novos de qualquer Direcção.

 

Frente a um rapazinho filho mais novo de qualquer Direcção que se permite produzir o rebento descrito, logo se percebe que o rapaz tem a mãe entrevada. Há que ter o dobro da paciência e arranjar maneira de o mandar apanhar sardinhas sem despertar muita atenção.

 

Já não se fazem homens como dantes! - diria a minha avó olhando de soslaio os moldes das molas de rapazes mais peludos.   

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A Gaffe pokemoniana

rabiscado pela Gaffe, em 21.07.16

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A Gaffe está radiante.

 

O único telemóvel que possui - embora tenha o péssimo hábito de usar os que encontra a descansar em casa e que normalmente têm donos com patologias do foro psiquiátrico, esbracejando furibundos quando dão por isso, - é o do serviço e fica onde pertence quando a sineta de saída dá sinal de si.  

Não pode baixar a aplicação. O pobre está enjaulado numa VPN - virtual private network para os entendidos - e as únicas interacções que consente são pobres e mal agradecidas.

 

Não a incomoda este abismo, este lapso, esta falha, esta descarada desactualização.

A Gaffe sempre caçou pokémons, mesmo aqueles que se chamam gambozinos, sem nunca precisar de aplicações. Basta ser aplicada. 

 

Fica felicíssima quando se depara com uma companheira de fortuna. Brava rapariga sem aplicação que desça, que baixe, que invada qual Pomba Gira - bom dia, Maria José Portugal Portugal - as manigâncias das telecomunicações.

 

A Gaffe sempre encontrou pelas ruas e avenidas dos seus contentamentos, os pokémons que quis. Não os guarda por períodos de tempo muito alongados. Passam para a reciclagem com a mesma velocidade com que são colhidos, mas enquanto duram, carregam-lhe a bateria.

 

Minha querida amiga, se a menina tiver repetidos e em bom estado, mande-mos por mail.

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A Gaffe de soslaio

rabiscado pela Gaffe, em 20.07.16
 

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Uma das situações mais constrangedoras vividas pela Gaffe é aquela que a enfia no elevador com um rapagão desconhecido, mas de fazer pecar a Madre enclausurada das Serviçais Ceguetas do Imaculado. A Gaffe fica com os nervos arrepanhados quando o homenzarrão olha de soslaio e a apanha a fazer o mesmo. Este catrapiscar quando se repete de forma suspeita faz com que a Gaffe se eleve até ao décimo andar, mesmo tendo de sair no terceiro.

 

É uma situação tenebrosa, mas mais frequente do que se imagina e pode acontecer em qualquer lugar onde somos obrigados a ficar paradas. Normalmente acaba num sorriso amarelo e simpático, mas há ocasiões em que nos apetece atacar e estraçalhar a roupa, como se fossemos cães raivosos, daqueles que se babam enquanto arreganham os dentes ou que têm blogs que se resumem a comentar o que se diz por aí, por ali e por aqui.

 

Estes olhares de soslaio são intrigantes e fazem a Gaffe desesperar de hesitação. Nunca sabe se o rapagão ao seu lado está tão inibido como ela ou se, pelo contrário, o que ele quer, já ela sabe, porque quer o mesmo que ele, só que nenhum sabe se coincidem na oportunidade do desejo.

 

Às vezes a Gaffe pensa que se não seria melhor termos uma sirene encastrada – UUUUIIIIIIIIIIIIIII ... ... -  que disparasse quando nos cheirasse a flirt. A Gaffe suspeita que andaria a apitar por tudo quanto era canto, mas, pelo menos, evitavam-se estas trocas de olhares embaraçosos que dão com a Gaffe em doida toda corada e constrangida, à espera que se rasguem as vestes no primeiro solavanco do elevador.

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