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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sardinheira

rabiscado pela Gaffe, em 21.07.16

Há uma tribo constituída na sua maioria por rapazinhos mais ou menos empertigaitados, com a capacidade de nos humilhar de fininho com espetadelas de alfinetes miudinhos quando aparecemos todas dispostas a mandar a Chanel para as urtigas.

 

São como sardinhas pequeninas. Não servem para conservar e são precisas muitas para acompanhar um arroz com tomates. 

 

São rapazinhos doidos por mostrar que a cadeira onde devíamos alapar o rabinho devia chamar-se Le Corbusier e não ter o aspecto miserável das minhas, que se chamam Nunes - grande português que vive em Carrazeda de Ansiães e tem bigode farto, - e foram compradas baratas na carpintaria com o mesmo nome.

 

Gostam de referir as viagens que fazem à Patagónia, apesar do tempo, e mostrar-nos que não dá, de todo, um bom ar esbardanhar o corpinho na areia mais próxima de casa, no pino do Verão.

 

Gostam de visitar museus e arranjam modo de verificar se a Mona Lisa dava com a chaise-longue que há no hall dos apartamentos pipis que arranjam com o dedo mindinho no ar.

 

Criticam todas as nossas expressões mais banais e acreditam que a Princesa Diana foi assassinada.

 

Costumam dizer-nos sem qualquer tipo de pudor que leram Shakespeare aos cinco anos, Tolstoi aos dez e com onze andavam enfronhados em Dostoiévski e, quando se referem à pintura, pasmam-nos declarando que foi aos sete aninhos que descobriram as subtilezas do expressionismo e as nuances todas curvas do barroco. Não percebem que não somos parvas e que reconhecemos que uma criança de cinco anos dedicada a Shakespeare ou à talha dourada dos séculos passados sofre de graves perturbações que num futuro por tratar a transformarão numa psicopata.  

 

São, para espanto meu, quase todos magrinhos e na sua maioria até são girinhos. Usam jeans apertaditos, camisolas de malhinha com decote em V para deixar que se veja a t-shirt branca, rentinha ao pescoço, uns ténis aguçados muito D&G e trazem umas pulseiras ranhosas e podres, de tecido colorido, apertadas com um nó que se tem de desfazer para dar sorte.

 

Raramente andam sozinhos. Arranjam sempre um compincha meio débil e com um QI vagamente numerável que lhes apara o pião e lhes vai dando razão, imitando-o nas farpas e nas opiniões. Dizem umas coisinhas com ar de quem decorou os resumos dos manuais escolares e gostam imenso de arranjos florais.

 

São pios e vão à missa, mas nunca rezam ajoelhados para não dar azo a ditos maldosos. Não são gays, são, quando muito, gente moderna e solta, sem teias de aranha, nem vestígios de preconceito e podem, eventualmente, dar uma ou outra escapadela com o mecânico que lhes arranja o mini, mas é tudo por uma questão higiénica: já que o rapagão tem a mão na agulheta, pode muito bem desentupir-lhes os canos. Nada de misturar sexo com isto, porque com estes moços, sexo é só entre iguais.  E são muito iguais estes rapazes.

 

Andam a passear o rabinho por todo o lado e depois, como quem não quer a coisa, vão informando que são os filhos mais novos de qualquer Direcção.

 

Frente a um rapazinho filho mais novo de qualquer Direcção que se permite produzir o rebento descrito, logo se percebe que o rapaz tem a mãe entrevada. Há que ter o dobro da paciência e arranjar maneira de o mandar apanhar sardinhas sem despertar muita atenção.

 

Já não se fazem homens como dantes! - diria a minha avó olhando de soslaio os moldes das molas de rapazes mais peludos.   

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Gavetas:

A Gaffe pokemoniana

rabiscado pela Gaffe, em 21.07.16

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A Gaffe está radiante.

 

O único telemóvel que possui - embora tenha o péssimo hábito de usar os que encontra a descansar em casa e que normalmente têm donos com patologias do foro psiquiátrico, esbracejando furibundos quando dão por isso, - é o do serviço e fica onde pertence quando a sineta de saída dá sinal de si.  

Não pode baixar a aplicação. O pobre está enjaulado numa VPN - virtual private network para os entendidos - e as únicas interacções que consente são pobres e mal agradecidas.

 

Não a incomoda este abismo, este lapso, esta falha, esta descarada desactualização.

A Gaffe sempre caçou pokémons, mesmo aqueles que se chamam gambozinos, sem nunca precisar de aplicações. Basta ser aplicada. 

 

Fica felicíssima quando se depara com uma companheira de fortuna. Brava rapariga sem aplicação que desça, que baixe, que invada qual Pomba Gira - bom dia, Maria José Portugal Portugal - as manigâncias das telecomunicações.

 

A Gaffe sempre encontrou pelas ruas e avenidas dos seus contentamentos, os pokémons que quis. Não os guarda por períodos de tempo muito alongados. Passam para a reciclagem com a mesma velocidade com que são colhidos, mas enquanto duram, carregam-lhe a bateria.

 

Minha querida amiga, se a menina tiver repetidos e em bom estado, mande-mos por mail.

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