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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe garbosa

rabiscado pela Gaffe, em 22.07.16

There are many things in your heart you can never tell another person. They are you, your private joys and sorrows, and you can never tell them. You cheapen yourself, the inside of yourself, when you tell them.

Greta Garbo

 

Li há muito pouco tempo uma espécie de biografia de Greta Garbo.

Digo espécie porque é idiota pensar que alguém pode entender o que foi esta mulher e descrever com alguma exactidão o seu percurso, as suas vivências e aquela modalidade de Fado distante e gelado que sempre a acompanhou.

 

O interessante é que a dada altura é narrado o episódio em que a actriz revela um dos seus segredos. Em Ninotchka, de 1939, dirigida por Ernst Lubitsch, Garbo não consegue a expressão que o realizador exige para determinada cena. Repete-se até à exaustão o take e a actriz reconhece que não é capaz de reproduzir no rosto aquilo que Lubitsch acha necessário. Nenhuma expressão é a exacta.

Garbo desiste e decide não fazer qualquer expressão. Nenhum músculo se move. O rosto permanece imóvel, impávido, isento de qualquer poeira de emoção ou reprodução de sentimento e é então encontrado o registo certo. Parece que Lubitsch teve um orgasmo - não documentado.

 

Isto é fascinante. O rosto impávido de Garbo torna-se máscara onde é possível inscrever todas as emoções que transportamos e serve, como um espelho, cada uma das miríades de partículas de ausência, falha, perda, privação ou carência latente em cada um de nós.

Garbo é um Mito também por isto. Por se ter tornado o rosto que a alma que cada um de nós quer ver ao espelho.

 

Olho para Garbo e lembro-me da história que contavam.

 

O segredo do rosto de Garbo é - talvez seja, - simplesmente o facto dele, rosto, residir na plataforma das máscaras e como tal poder ser lido através de projecções.

 

Olhar para o seu rosto, sobretudo quando silencioso, é desbravar as infinitas possibilidades da dignidade e da dimensão humana.

 

A tentação da máscara - a máscara antiga, por exemplo - implica talvez não tanto o tema do oculto - caso das mascarilhas italianas, - como o de um arquétipo do rosto humano. Garbo dava a ver uma espécie de ideia platónica da criatura e é isso que explica que o seu rosto seja quase assexuado, sem todavia ser ambíguo.

 

O rosto de Garbo é a encarnação da Ideia.

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A Gaffe de mau pêlo

rabiscado pela Gaffe, em 22.07.16

A Gaffe é invadida pela melosa melodia de Francisco José, cavernoso e romântico, morno e enrouquecido.

 

Olhos azuis são ciúme
E nada valem para mim,
Olhos negros são queixume
De uma tristeza sem fim,
Olhos verdes são traição
São cruéis como punhais,
Olhos bons com coração
Os teus, castanhos leais.

 

Embalada pelo cantado, a Gaffe descobre que para além de uma parafernália de defeitos que lhe são atribuídos, é também uma ciumenta, com chispas de traidora, sem qualquer valor para o rapaz que continua a amornar a atmosfera que respira.

Não que sofra atrocidades com esta revelação melodiosa, até porque o artista não lhe preenche a pauta, mas começa a irritar ligeiramente perceber que as ruivas, geralmente com olhos claros, são sempre um caso digno de figurar no rol das figuras pérfidas que assombraram - pelo menos desde o início da Idade Média até ao falecimento da Santa Inquisição - e que assombram - não é à toa que se continua o ouvir a pindérica expressão ruiva de mau pêlo - a plácida vida dos vizinhos.

 

À Gaffe já é suficiente não bronzear, pensando com as suas sardas que talvez a facilidade com que apanha escaldões provenha das fogueiras inquisitoriais.

À Gaffe já bastam as suspeitas de infantilidade suspensas nos seus caracóis, como enfeites de Natal ranhosos, que os néscios e aparvalhados misturam com piadolas raquíticas.

À Gaffe já bastam as alusões à libido que nas ruivas se descontrola facilmente, tornando-a uma devoradora de homens, uma predadora sexual - vulgo tarada.

 

A Gaffe decide sem apelo nem agravo que se voltar a ser brindada com o clássico olhos azuis são ciúme e nada valem para mim ou com o tradicional mimo com sabor paternalista és uma ruiva de mau pêlo, vai referir, mesmo ignorando os factos, o tamanho exíguo, mesquinho, irrisório e caricato da pilinha do rapaz.

 

Mesmo que o rapaz seja uma rapariga.

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