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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe "arrebentada"

rabiscado pela Gaffe, em 27.07.16

read.gifA comunicação social - sobretudo a televisiva - tem sido um manancial de petardos jornaleiros e de atentados à língua portuguesa. Um conjunto jornalístico de meninos e de meninas que parecem saídos da geração que protagonizou a primeira edição de Morangos com Açúcar, correndo desenfreado, com batido dos ditos na gramática, de microfone em punho, à procura do nós fazemos a notícia.  

 

Ouço uma esgazeada moça aos gritos a perguntar sucessivamente a uma mulher que se manifesta nas ruas, se aquela é a primeira vez que participa nesta manifestação. Vejo outra a empolar as coisas com um sonoro arrebentou um petardo na avenida. Pasmo quando o Presidente entrou dentro do carro e saiu. Fico sem saber se Marcelo saiu para fora do carro porque se esqueceu da pochete ou se foi o carro que saiu para fora do palácio com o presidente que entrou lá dentro. Há alguns que conseguem ter uma certeza absoluta, outros que dão conta do acabamento final e ainda os que se estreiam pela primeira vez, embora já tenham viajado pelos países do mundo há muitos anos atrás, mas que comparecem pessoalmente no evento, encarando de frente o pequeno pormenor que é a climatologia geográfica.

 

Já não falo dos mais velhos sacrefícios que temos de fazer para desculpar o treuze e a pessoa humana de Miguel Sousa Tavares; já não falo dos resumos totós depois de termos ouvido todo o paleio debitado; já não falo das pormenorizadas descrições do que estamos a ver - agora o presidente entrou para dentro da sala, a tentar que ninguém perceba que traz uma ventoinha no rabo, e dirige-se neste momento ao palanque  com muitos papéis na mão; já não falo do escândalo que é ouvir e ver sem reagir um encadeamento noticioso que faz seguir à reportagem que esmiúça, até nausear, qualquer tragédia - com uma banda sonora de filme de 5ª categoria, - o apontamento que refere com glamour a visita de Angelina Jolie aos pobrezinhos ou nos mostra o rabo do príncipe Harry ou o chapéu da duquesa de York; já não falo dos atletas que venceram medalhas e nem quero saber da presidenta do FMI.  

 

Já não falo disto.

 

Desligo ou arrebento.

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A Gaffe com borbulhas

rabiscado pela Gaffe, em 27.07.16

Uma das vantagens dele dormir de rabo para o ar - diz-me a minha querida amiga -  é a de não ressonar. A outra permite-lhe o deslumbramento que é poder mirar e admirar o que virado para cima se expõe.

- Tem um rabo belíssimo! - esbardalha-se a rapariga.

Segundo a mesma, o rapaz tem dois gomos redondos com uma cor que tem a textura de veludo. Um fruto mais que perfeito boleado pelos deuses que deixaram duas marcas, dois sulcos, duas mossas dulcíssimas no finalizar das costas, a ladear a coluna. Duas taças invertidas, amoras, travo a sal, a suor brevíssimo, a chocolate espesso, a tangos bem dançados, a concertina, a cetim que se derrama nos dedos.

Os predicados não foram tão líricos, mas a ideia passou.

 

Mas no beijar a nádega direita a rapariga encontra o desarranjo do perfeito. No centro de um dos hemisférios, ao Nordeste do prazer, uma espinha deslavada e virulenta.

 

Pergunto-me: A imperfeição espreme-se?

 

A resposta não é de todo simples.

Ao contrário do publicitado, a atracção pelo oposto não perdura a médio prazo. Não há paciência que aguente hard rock a vida inteira quando apenas desejamos Maria João Pires a fazer esvoaçar Chopin pelas nossas horas todas. Não há rabinho que aguente sessões contínuas de cinema húngaro quando queremos ver somente a pistola de John Wayne nas nossas telas.

 

O casal duradouro é aquele em que predicados e pecados se deixam contaminar mutuamente e em que cada um dos elementos da união é infectado pelas virtudes e defeitos do outro, produzindo uma parecença que pode chegar a ser física.

 

Malhereusement - dito assim não é tão deprimente - raras são as vezes em que uma soma simples produz apenas um resultado igual ao de uma parcela.

Nos casos mais banais, maioritários, somos dois vagos e breves companheiros de viagem, prontos a mapear rotas que nos afastam um do outro, sem levar no coração um qualquer recuerdo significativo.

 

Nestes casos, a imperfeição não se espreme.

Nestes casos, a imperfeição inflama insuflada e inflacionada.

 

Um homem que nos enfeitiça do alto da sua centenária biblioteca, durante um jantar à luz das ilusões e usando a perfeição que lhe inventamos, é descoberto insignificante quando nos revela de repente o seu enorme fascínio pela apanha do berbigão.

Um homem que é capaz de humilhar Tarzan, não com a potência do gritedo, mas com a selvagem beleza das savanas do seu corpo olímpico, é visto Quasimodo no instante exacto em que lhe encontramos pontos negros nas costas musculadas ou um pelo a sair pela asa do nariz como a pata de um grilo gigantesco.

Um homem com um maravilhoso ar Gucci, com barba de dois dias rigorosamente talhada por mãos peritas de barbeiro caro, que se prepara para contar azulejos no irrepreensível WC do nosso apartamento, se - contrariando os assomos de timidez ou de recato procurando uma proximidade de reserva e discrição com a porcelana que silenciará o inevitável, mesmo usando um sofisticado ar de quem está ali, breve, de passagem, entre aviões ou alfa-pendulares - erguer o poderoso jacto de aflição, afastado do alvo um valente metro medido por defeito, como um boçal e barbudo anjo de jardim barroco, pode contar com a viagem só de ida no foguetão da NASA mais caseira.

 

A imperfeição deste modo não se espreme. Torna-se borbulha purulenta e nauseante que invade e soterra o mais ínfimo sinal de união quando o somatório de duas vidas sobrepostas dá sempre o resultado que se espera em matemática.    

 

Nós, raparigas espertas, somos exageradamente picuinhas nestes casos.

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