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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe inquisitorial

rabiscado pela Gaffe, em 19.07.16

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Este é o calor de Espanha Inquisitorial.

 

Brota do chão o sol como das ânforas. Erguido a pique trepa sequioso à fronteira da água, ao bordo das paredes, para sulcar no curvar do espaço a mais pequena folha do loureiro. 

A poeira extenuada quieta abrasa. A cal escalda branca só de sede e aos degraus das horas trepam cães perdidos.

O lacrau na cal. A carne em carne-viva dos morangos. O lanho das laranjas labaredas.

As agulhas do sol picam os pássaros parados na água extenuada, quente, com peixes apunhalados pela luz de ferro que se espetou no corpo em cicatriz de espera.

O sol de Espanha dos inquisidores uiva à meia-noite.

 

Calor que arrasta mulheres antigas por pátios de laranja quente. Mulheres de Espanha e de veludos negros, veladas por mantilhas, tapadas pelo ouro dos massacres. Mulheres de rendas pretas e pesadas de olhos atados a incêndios. Cegas, lume a lume, lança a lança, atravessadas pela adaga das cruzes de marfim. Mulheres de sevilhana nas asas do cabelo a arder de seda contra a sombra, a entrançar nos dedos orações. Dedos fechados nas crinas do erotismo do sol erguido a prumo.

Mulheres deitadas na pele do Cristo nu. De punhos cerrados e almas sem penumbra a espiar a sombra dos sussurros.  

.
Voy a cerrar los ojos y tapear los oidos
Y verter outro mar sobre mis redes
Y enderezar un pino imaginário
Y desatar un viento que me arrastre 

 

O Calor é sempre inquisitorial.

 

Imagem - Carlo DolciMadonna (detalhe)

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Gavetas:

A Gaffe no vosso mail

rabiscado pela Gaffe, em 19.07.16

Alguns portugueses – sobretudo os do meu querido Porto - trazem nas redes algumas pérolas que fazem rolar a língua por mares que pareciam ter sido abandonados, mas que continuam a encher as marés do nosso espanto linguístico.

Soltemos algumas do fio do colar das frases ouvidas na Ribeira:


Alevantar - O acto de levantar com convicção, com o ar de a mim ninguém me come por parvo! Alevantei-me e fui-me embora!

Aspergic - Medicamento português que mistura Aspegic com Aspirina.

Assentar - O acto de sentar, só que com muita força, como se fossemos praticamente um tijolo no cimento.

Capom - Porta de motor de carros que quando se fecha faz POM!

Destrocar - Trocar várias vezes a mesma nota até ficarmos com a mesma.

Disvorciada - Mulher que se diz por aí que se vai divorciar.

Destrocer - Torcer várias vezes.

Deslargar - Largar várias vezes o que quer que seja.

É assim - Talvez a maior evolução da língua portuguesa. Termo que não quer dizer nada e não serve para nada. Deve ser colocado no inicio de qualquer frase.

Entropeçar - Tropeçar duas vezes seguidas.

Eros - Moeda alternativa ao Euro adoptada por alguns portugueses.

Exensar - Termos que para ser bem utilizado tem que ser dito rápido para que algumas pessoas percebem que se quer dizer deves pensar.

Falastes, dissestes e afins - Articulação na 4ª pessoa do singular. 

Ex: eu falei; tu falaste; ele falou, tu falastes.

Fracturação - O resultado da soma do consumo de clientes em qualquer casa comercial. Casa que não fractura, não predura.

Enmigos - O que vou ganhar depois de alguns lerem isto.

- A forma mais prática de articular a palavra meu e dá um ar afro à língua portuguesa, como Bué ou Maning (muito em Moçambique). Ex: mô tio.

Nha - assim como , é a forma mais pratica de articular a palavra Minha. Para quê perder tempo não é? Fica sempre bem dizer mô tio e nha mãe, por exemplo. Poupa-se imenso.

Númaro - Já está na Assembleia da República uma proposta de lei para deixarmos de utilizar a palavra número que está em claro desuso. Númaro já é usado por muitos deputados.

Parteleira - Local ideal para guardar os livros de português do tempo da escola.

Perssunal - O contrário de amador. Muito utilizado por jogadores de futebol. 

Ex: Sou perssunal de futebol. Deve ser articulada de uma forma rápida.

Pitaxio - Aperitivo da classe do Mendoim.

Prontus - Usar o mais possível. É só dar vontade e podemos sempre soltar um prontus! Fica sempre bem nos lugares mais bem frequentados da sociedade.

Prutugal - País ao lado da Espanha. Não é a Francia.

Rondana - Uma roldana que ronda à volta de si mesma.

Shampum - Líquido para lavar o cabelo que quando cai na banheira faz PUM.

Stander de vendas - Local de venda. A forma mais famosa é sem duvida o Stander de Automóveis.

Tçou - Inicialmente usado por músicos da zona de Cascais, rapidamente se estendeu a outros tipos de utilizadores. Atender o telefone e dizer tçou é uma experiência aconselhável a qualquer um com ligações ainda que vagas à cantora Ágata.

Tipo - Juntamente com o é assim, faz parte  das grandes evoluções do português. Também sem querer dizer nada e não servir para nada, pode ser usado quando se quiser, porque nunca está errado nem certo. É assim... Tipo ‘tás a ver?

Treuze – opiniões de Miguel Sousa Tavares.

Vosso mail - Se não me atenderem o telemóvel obviamente que vou para vosso mail

 

Foto - Luke Smalley

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A Gaffe cheia de razão

rabiscado pela Gaffe, em 18.07.16

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A Gaffe sempre considerou que os bons serviçais podem sempre aspirar a uma carreira de sucesso nas altas esferas.

 

Fica agradada quando vê a sua teoria apoiada pelo caso Durão Barroso que de mordomo de Blair e de Bush ascende ao Goldman Sachs.

 

Na foto - Jean Patchett por Nina Leen - 1949

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A Gaffe num sobe e desce

rabiscado pela Gaffe, em 18.07.16

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Não temos tempo. Corremos desatadas para os elevadores de forma a chegar mais depressa onde nem sempre queremos.


Odeio elevadores.


Há-os de variadíssimos feitios, mas aqueles que me irritam e destemperam os nervos são os mais antigos que trazem geralmente apenso um velho antipático e mal fardado, de unhaca afiada presa no mindinho, de cigarro nauseabundo seguro nas gengivas e que nos pergunta enojado para que andar queremos ir, como se dessa informação dependesse a segurança do edifício ou nos achasse demasiado burras para carregar no botão certo. Uma rapariga entra nestas coisas de ânimo leve e é apanhada por grades suspeitas que se fecham claustrofobicamente encerrando-a numa espécie de cela que abana por todo o lado, fazendo-a recear o encontro desagradável com poços de ar ou o desabar da geringonça com cabos partidos e ferros empenados.

 

O horror.


Os que se seguem na escala do meu ódio são os demasiado modernos, de aço e velocidade supersónica. Entramos, encostamos levemente o dedinho ao botão e somos impulsionadas em milésimos de segundo e de uma forma absolutamente esmagadora para o local que quase sempre nunca é o desejado, porque nos enganamos ao aflorar o tão sensível indicador do piso.


Enquanto que os primeiros nos rejuvenescem, porque são de época e ser-se de época é meio caminho andado para o encarquilhamento, os segundos envelhecem.
A velocidade com que se movem, quando subimos, permite que a lei da gravidade opere maldades atrozes numa rapariga. A força com que somos projectadas para cima coloca-nos o umbigo no meio das maminhas, deixa-nos o cabelo oleoso e arranca-nos as cuecas - no caso de as usarmos. É uma canseira a recuperação e nem sempre os resultados são eficazes, porque nunca ficamos com tempo para retocar a maquilhagem.
Quando descemos, a velocidade é tamanha que acabamos por concluir que o século XVIII foi penalizado por não ter elevadores desta espécie que esculpiriam as cabeleiras das senhoras em menos de um segundo. É também uma inconveniência o facto de ficarmos cegas por causa do pano da saia que se levanta e não apanharmos, quando o foguetão se abre, as caras de surpresa dos que o esperam ao depararem com uma rapariga esperta com um penteado de época - meio caminho andado para o encarquilhamento, - de saia levantada a todo o vapor e com as cuequinhas - caso as usarmos - transformadas num imenso fio dental.
Apesar de tudo, estes foguetões, na descida, oferecem uma vantagem sobre os primeiros: entregam-nos a esperança vã, mas deliciosa, de ficarmos altas e de pernas longas com um cabelo vasto e volumoso, leoas sem cuecas prontas para matar.


O meu problema é igual ao de todas as raparigas que - de saia travada e sem mais nada que lhe asfixie a força da sua natureza feminina - não se querem maçar subindo escadas sem que nenhum rapaz de fazer erguer um morto de tão giro, as siga logo atrás.

 

Nós, raparigas espertas, devemos usar apenas estas máquinas quando nos transportam ao céu ou nos fazem chamuscar as asinhas num inferno. O resto é mais andar, menos andar. 

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Gavetas:

A Gaffe a observar

rabiscado pela Gaffe, em 16.07.16
 

As constantes oscilações de humor desta rapariga são vastas vezes da responsabilidade da sua incómoda capacidade de observação.

A Gaffe observa o palpitar de tudo, escuta os batimentos dos corações dos objectos, perscruta com afinco o respirar da vida, cata com minúcia o pêlo daquilo que acontece e pesquisa à procura de faíscas escondidas nas tempestades e nas bonanças que ao seu lado pairam.

 

A observação prolongada, constante e obsessiva da vida, fornece ao observador a capacidade imediata e quase involuntária de descobrir em quase tudo pequenas migalhas, diminutas pepitas de ouro, pedacinhos de chumbo ou fragmentos de névoa, que, para os distraídos, não são mais do que absolutamente nada, mas que adquirem sob as lentes do nosso microscópio interior, valor imenso e importância clara e primordial.

 

Desses pequeninos encontros se vão erguendo histórias internas impossíveis de separar da nossa alma que se estrutura e constrói a cada passo e se reorganiza a cada momento com réstias daquilo que nos é dado olhar.

 

Quando a observação é extrema e somos dela dependentes mórbidos ou reincidentes, inveterados viciados, veteranos dessa guerra ou dessa paz, humildes servidores ou donos seguros do olhar lançado sobre as vidas, acabamos empurrados e levados, impulsionados e envolvidos, puxados e amarrotados, dominados ou a dominar, mesmo sem o querer, o observado. Somos parte integrante do que olhamos, quer quando o observado fica a milhares de vidas longe daquela que é a nossa, quer quando o que vemos está nas nossas mãos.


Inevitável é esta estranha forma de globalizar a alma e que ninguém pergunte por quem os sinos dobram. Todos os sinos dobram quando a vida é tida por inteiro, quando em nós existem e ficam retidos os traços da vida dos outros, quando em nós o olhar é muito mais que o ver.

 

Assim, a Gaffe oscila e deambula pelas emoções sem medo ou desgraça. Sabe que o baloiço é empurrado sempre pelas diversas mãos do, por demais amado, sentir do mundo a sentir. 

O resto é apenas a Gaffe de asas abertas.

 

Foto - Jiyen Lee

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Gavetas:

A Gaffe indisposta

rabiscado pela Gaffe, em 15.07.16

Os psicopatas assassinos nem uma réstia de consideração têm por esta gente dos blogs.

Leio por todo o lado

 

hoje sou nice

 

e penso logo que me vou esbardalhar outra vez contra um look do dia.

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Gavetas:

A Gaffe e a amiga

rabiscado pela Gaffe, em 15.07.16

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Tenho uma amiga, com um cérebro capaz de proezas incríveis, que adicionou o filho, rapaz dos seus dezanove anos e longe do alcance materno, à sua lista de amigos do seu facebook.

 

Nenhuma senhora, por mais genial que seja, deve adicionar um rebento ao seu facebook e esperar não ter surpresas desagradáveis. Melhor ainda, nenhuma senhora genial deve ter facebook. Ponto.

 

Acontece que a minha ilustre amiga percebeu que no mural do facebook do filho, os que por lá passavam se tratavam no feminino. Aquilo era estás linda para aqui, és maravilhosa, mulher, para acolá, ficaste ranhosa e o rímel esfarela, porca, um bocado para os lados.

 

Como é evidente, não foi por o rapazola não ser adepto do sexo oposto - sendo o facto do conhecimento materno, não foi por lá que o gato foi às filhóses, ou a qualquer coisa do género, - por ter vislumbrado um lapso gramatical ou ainda por ter percebido que os amigos do rapaz não acertavam com o género que devia dominar os comentários, que a senhora se irritou e cravou no filho aquilo a que se pode chamar um raspanete de nos fazer morrer fulminadinhos logo ali. Uma escândalo momumental.

 

Compreendi, quando ela me explicou, a indignação que lhe provocou a troca dos pronomes pessoais e aplaudi a reacção que teve.

 

Não quer que se defendam os direitos do filho, que não considera sequer beliscados, com um gritedo cor-de-rosa abichanado, às portas das Assembleias e não acredita que o rapaz tenha passado uma procuração para que alguém lhe proteja o que ela considera capaz de ser defendido com um estalo certeiro. Não consegue respirar normalmente, sem largar cobras e sapos pelas narinas, quando vê dois senhores beijocarem-se, estando um deles vestido de noiva, véu e rabona incluídos. Recusa ver o filho representado por um bando de gente de turbante arco-íris e manifestação de purpurina, que age como se estivesse a defender uma manada de búfalos em vias de extinção ou a tentar salvar os cães e os gatos que são abandonados pelos donos em férias. Não percebe como não é considerado uma falta de ambição miserável reivindicar o direito a vivenciar determinada sexualidade, sem entender o incontornável o facto de se existir e de ser impossível negar ou renegar essa existência, sem se roçar o transtorno e a deformação mental.

 

Cresceu segura de que o que vê, lê, escreve, faz, cheira, tacteia, resmunga, diz, sente e tudo o mais que é, é dela por direito adquirido, inevitável e inalienável. Não há forma de negar a evidência e, assim como reconhece esta evidência no Outro e a respeita, a dignifica, a assume e a considera intocável, exije sozinha - exactamente como devemos ficar perante aquilo que é da nossa inteira responsabilidade - que lhe seja retribuído o que naturalmente lhe é devido.

 

Quando os amigos do filho o tratam no feminino e são brindados da mesma forma, seja lá onde for, não acha graça nenhuma. Não é jocoso, nem fresco, nem saltitante, nem descontraído, nem risonho, nem amável, nem refrescante e nem sequer possui aquele humor muito saudável de adolescente inconsciente que parece querer fazer passar. É apenas um amesquinhar tolo e um devassar do respeito que exigimos, por ser nosso por inerência, e da dignidade que lhe está apensa.

 

O filho da senhora que conheço trata, e recebe troco igual, por amigas, por queridas, por elas, ou apenas por ranhosas, aqueles que passam no seu muro facebookiano e não percebe que tal idiotice não é prova de cumplicidade ou de intimidade mais firme ou mais solidificada. Não é sequer vestígio de identificação de grupo ou de pertença a qualquer eventual círculo formado transitoriamente por necessidade pontual. Não é capaz de criar laços da mais banal e descontraída das ligações, porque é uma imbecilidade contaminada pelo vulgar, pelo inútil e pelo desnecessário.

 

Com toda a carga pejorativa, ridicularizante, amarfanhante e diminuidora que a palavra também contém, é apenas bicha.

 

Felizmente tenho uma amiga com um cérebro capaz de proezas incríveis.

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A Gaffe de Maria José Portugal Portugal olé olé

rabiscado pela Gaffe, em 14.07.16

 

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II

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Está um calor de ananases. As altas temperaturas derretem o meu já parco sentido de humor.

Por isso, Maria José Portugal Portugal, não vou fazer de si um berlinde de plástico que se atira ao gato empatando o tédio vendo-o a brincar.

 

Quero conversar consigo. Obedeça e sente-se.

 

O que escrevo aqui, resulta do imenso respeito que sinto sobretudo pela MJ e pela Filipa. Conheço mal ou nada as restantes pessoas a quem roubou os ossos para construir o seu esqueleto. Não me dirijo a si por minha causa.

 

Quero contar-lhe duas histórias que unidas permitem compreender esta minha falha.

 

A primeira é a de um aristocrata francês, Ajudante de Campo de Napoleão, que acompanhou um general quando numa das Invasões os franceses pelo Douro entraram.

O jovem aristocrata apaixonou-se. Quedou-se a ver uma mulher no rio. Casou com ela. Nasceu uma filha. Uma única filha. Morreu, tinha a criança quatro anos.

Duas mulheres sozinhas numa terra antiga avessa a surtos extemporâneos de feminismos impensáveis, tornam-se depressa párias e malditas.

A criança desta história cresceu a ouvir da mãe sussurrar o que lentamente se foi entranhando como a raiz de uma vinha.

Se a lama te tocar no sapato, descalça-o. Pousa o pé na terra enlodada, mas não sintas. Se não sentires aprendes a pairar.

A história continua, mas jamais a entenderá.

 

A outra história é mais recente.

Há alguns anos uma mulher acusou-me de tenebrosas conspirações e medonhas cabalas. Foi maçadora a insistência com que esgravatava o chão à procura de grãos de palavras minhas ou de migalhas de atenção que lhe dessem uma ilusão de pertença a qualquer coisa. A mulher continua ainda hoje a demanda demente.

Confesso que de quando em vez a leio.

A última vez que o fiz encontrei uma pretensa caricatura minha. Abjecta, nauseante, mal escrita e - valha-me Deus - mais uma vez mal pontuada.

 

Não tem fim esta segunda história, mas ajuda-me a entender que para além de me plagiar, a Maria José Portugal Portugal toca-me no sapato também de uma outra forma.

 

Eu também finjo.

 

Confesso-lhe que, perante o seu plágio, fingi indignação. Admito que mimei revolta e nojo. Assumo que menti quando me propus transformar o seu batom num supositório que administraria com prazer - antes de perceber, que fique claro, que é exactamente o que faz há muito tempo. Tem de trocar a marca do cosmético.

 

Fingi, Maria José Portugal Portugal. Fingi como fingi repulsa perante a caricatura que de mim fizeram.

 

Não senti nada.

Não foi indiferença, acredite. A indiferença é bem menos do que aquilo que acontece. Foi o Não Sentir. O mesmo medonho Não Sentir que a rapariga do Douro antigo aprendeu da mãe.

 

Percorri o seu álbum de fotografias - o único pedaço de si que penso real e a que tive acesso - pela mesma razão que me leva a voltar a ler a outra mulher. Para ver se sinto. Para ver se sinto seja o que for.

 

Não senti.

Não sinto.

Nada.

Apenas o vácuo, suponho que parecido com aquele que surgiria se apagasse da sua página do facebook o que plagiou. O seu retrato.

 

Acredite, Maria José Portugal Portugal, que este Não Sentir napoleonicamente actual que induzem nos outros é uma das mais justificadas razões para o suicídio.

 

Acabei. Levante-se e saia.

 

I - aqui

IIaqui

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A Gaffe eurosexy

rabiscado pela Gaffe, em 13.07.16

A Gaffe confessa que não folheou a caderneta toda. Escolheu os cromos que de imediato lhe chamaram a atenção e convocou os onze jogadores mais sexy do Euro 2016 para defesa das suas cores que segundo os especialistas são o inevitável branco-pérola, a picardia do vermelho sangue-de-boi e o rosa-salmonado para atrair os ursos.

 

A Gaffe hesitou perante Ricardo Quaresma, mas confessa que aquele allure de sacana irresistível a desiludiu quando o leu a ilibar o cabeleireiro com umas tolices esvoaçantes, em vez de ligar a bateria do Ferrari ao pirilau do artista.

 

Passemos à acção.

A equipa da Gaffe é constituída pelos homens mais atraentes do Euro 2016 e capitaneada por…

 

 

A equipa )

 

 

Agora é só vencer!

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A Gaffe sem título

rabiscado pela Gaffe, em 12.07.16

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Já chega, meu querido SAPO!

 

O lado materno da Gaffe, velhíssimamente francês, começa a ficar um bocadinho irritado quando lê os sucessivos destaques que são feitos aos meninos e às meninas que se estão a portar como aqueles que não ligaram as luzinhas da Torre. Não se iluminou o desportivismo, não se acendeu o fair-play, o saber perder ficou entalado na cloaca francesa e as peticionárias patetices sucedem-se a todo o vapor. É verdade. Uma coisa muito feia de se ver, mas que apesar de tudo não traz sanções a Portugal.

 

São ciúmes.

 

A Gaffe tem recebido belíssimas, civilizadas, amorosas e sinceras felicitações de franceses maravilhosamente desportistas que querem homenagear o lado tuga desta rapariga e que assumem a tristeza e a desilusão da derrota com dignidade e fair-play.

 

A Gaffe tem Santa Teresa d’Avilamente tentado entrar em êxtase comatoso, evitando a todo o custo perceber que os portugueses têm também, como parece que tentam demonstrar em todo o post, alguma dificuldade em saber ganhar.

 

Vá, Portugal Não me desiludas agora. Sê por algum tempo um aristocrata francês.  

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A Gaffe dos fofinhos

rabiscado pela Gaffe, em 12.07.16

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Dentro das polémicas, divertidas e muitas vezes pouco seguras classificações antropológicas, sociais ou culturais, que os estudiosos costumam referir e que descrevem tribos urbanas, subculturas ou subsociedades, que vão desde o punks, o headbangers, o neo-punk, o rockabilly, o nerd, o emo, o skatista, passando pelos ligeiramente insossos peper e pelos assustadores skinheads, perdendo-se numa panóplia de denominações que custa memorizar, mas que reúne grupos ou agregações com características comuns e identitárias que apresentam uma conformidade de pensamentos, hábitos e maneiras de se vestir, de agir e de pensar, não existe o que a Gaffe considera um dos mais queridos. Os ... 

 

Fofinhos.

 

São esmagadoramente muito jovens e com um allure feérico que perfuma de ingenuidade as nossas artimanhas maquiavélicas destinadas a catrapiscar-lhes a inocência. Gostam de cardigans com jacquards tradicionais, ou t-shirts vintage, e usam uma espécie de ceroulas de malha lassa e bamboleante que nunca deixa de estar sintonizada com a imagem simultaneamente estudada e descuidada que se complementa com adereços em pele ou pêlo. A rudeza e agressividade das botifarras que usam quando descalçam as all-star, são atenuadas pelos quebradiços atacadores soltos e sem nó, que nos fazem imaginar o tropeçar do fofinho e a queda subsequente nos nossos braços que o esperam.

 

Apesar de revelarem algumas preocupações ecológicas, estão vocacionados para a defesa dos animais mais amorosos, coalas, golfinhos e pandas, deixando os monstros de Chila e os demónios da Tasmânia para depois do jantar, quando chega a hora de deitar, que é o momento em que demónios e lagartixas venenosas são frequentes debaixo das camas dos meninos. Apesar de desportistas com um elevadíssimo fair-play, não gostam de competir com os pares e preferem as braçadas solitárias em piscinas de cristal. Um onanismo atlético de que não resulta perdedor.

 

Conseguem ler romances com menos de trezentas páginas, mas esquecem facilmente os autores com que se cruzam passando os dedos pelas lombadas das estantes das bibliotecas onde fazem esvoaçar os seus olhares tristonhos e distraídos.

 

Os fofinhos, óptimos companheiros de uma tarde de ócio ou de um entardecer de ópio, possuem uma das mais atraentes características de que há memória: uma aparente candura e desamparo que nos desperta o instinto protector e nos leva a cometer os maiores dislates, as maiores marotices e as mais inconfessáveis das asneiras.

 

São como os grandes diplomatas: tiram, parecendo que nos dão.     

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Gavetas:

A Gaffe no Euro

rabiscado pela Gaffe, em 11.07.16

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A Gaffe admite que só a meio do campeonato é que se apercebeu que o pobre era disputado em França. Esta vergonha reproduz-se na total falta de interesse por uma final que envolvia duas selecções que representavam os seus dois países de eleição.

Vencesse a que vencesse, a alegria seria a mesma, ou seja, a Gaffe pestanejaria e continuaria a pensar que os jogadores franceses eram todos muito feios.

Esta certeza, tem de se assumir, está no entanto contaminada pelo slogan lido na t-shirt do amigo:

 

J'aime rien, j'suis parisien.

 

Há no entanto duas minúsculas observações a fazer a esta geringonça de bandeiras.

 

A nota negativa reporta-se ao modo como demasiada gente incentivou a selecção portuguesa.

Clamou-se tanto pela glorificação da raça, bradou-se de tal modo pela exaltação da Pátria, gritou-se até a voz doer pelo orgulho da Nação, que a Gaffe pensou seriamente que se encontrava enfiada num comício de Marine Le Pen e que seria esta senhora a dar o pontapé de saída - aos emigrantes que gritavam.

Meus queridos, até no entusiasmo mais esbardalhado teria sido agradável ter a percepção de que este campeonato era disputado já no século XXI.  

 

O momento alto de todo este alarido é da responsabilidade de um jogador vencedor - a Gaffe confessa que não lhe apetece nadinha procurar o nome - que se dirigiu à taça já de cuecas!

As coxas monumentais do rapagão valeram todo o espectáculo.

 

Posto isto, a Gaffe, por mais estranho que possa parecer, não acordou a sentir-se campeã e suspeita que o mesmo aconteceria se fossem os franceses a ganhar. Está um calor desmesurado e os pobrezinhos, um bocadinho mais alegres, continuam a ter de ir trabalhar. Não há vencedor que resista muito tempo.

 

Apesar disso, a Gaffe não pode de modo algum deixar de sorrir e discretamente, não vá entrar a traça, escrever no coração:

 

Félicitations Portugal!

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A Gaffe baça

rabiscado pela Gaffe, em 10.07.16

Não somos luas.

Segundo dizem os que percebem mais de marés e menos de marinheiros - porque os há menos, - existe um lado escuro em cada um de nós que nunca é vislumbrado e que por vezes é desconhecido até da própria lua que o suporta.

 

Assustava-se reconhecer que, na luminosidade prateada que atrai poetas e marés, havia um esconso e sombrio lado nunca reflectido.

 

Sei agora, no entanto, que a lua persiste na sua placidez pálida e na sua órbita subserviente e que não somos comparáveis à sua esférica claridade, nem nos reflectimos como círculo de brilho branco nos mares planos de Verão.

 

Não temos lados ocultos. Não temos negrura densa e impenetrável adversa a uma clareza impoluta. Não somos peças surreais de dominós circulares.

Somos vidros lapidados, enevoados e translúcidos, sem a grandeza do reflexo atractivo nas marés e sem a linha que divide o que em nós não deixa de ser uno.

 

Somos apenas baços.

 

Na foto- Damián Galbis

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A Gaffe de Kilt

rabiscado pela Gaffe, em 08.07.16

 

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Para uma rapariga esperta as saias, usadas pelos rapagões que verdadeiramente interessam, são todas do mesmo comprimento. São aquelas que só depois de despidas lhe revelam o carácter do tecido, a qualidade da textura, os atributos do desenho e o cair de quem as veste.

 

Braden Carmichael - foto de David Vance

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A Gaffe fúnebre

rabiscado pela Gaffe, em 08.07.16

 

Não gosto da Morte vista como um anjo enorme, perfeito, de asas luminosas, sorriso plácido e olhos de lâminas. Gosto de a ver como velha encarquilhada e negra, com mãos que são de terra e olhos de punhal manchado. Gosto da Morte romântica, frustrada, derrotada, derreada, escura e tenebrosa.


A Morte quando nos apanha não nos agarra tudo. A tragédia da Morte é esta. O derrotar da Morte é este. O seu segredo mais íntimo. Vem e o que toma não está completo. Prende pedaços que restaram. Leva na boca fracções de nós, que resistiram àquilo que em nós foi decepado.


Morremos antes de morrer. Devagarinho. Mentimos à Morte. Somos cortados enquanto o tempo passa.
Morremos sem coração, porque o coração que tínhamos quebrou pelo caminho ou foi entregue. Morremos sem olhos ou sem mãos, porque cegamos ou deixamos de mover os dedos quando nas casas que habitamos já se esvaiu a luz ou se esbateu a pele dos que tocávamos com olhos e com dedos, madrugada fora. Morremos já sem braços, já sem pernas, porque deixou de haver caminho para abraçar alguém. Morremos sem boca, por não haver palavras. Sem palavras por não haver quem ouça. Sem cama e mesa e roupa lavada, porque não dormimos dentro de ninguém, já não comemos o pão feito de desatadas emoções e estamos sempre nus até morrer.


Alguns fecham os olhos, nos outros há batalhas, mas a Morte recolhe sempre o mesmo. Já vamos quase mortos.


Morremos a cada passo que passa sobre os que por nós andaram e há mortos que nos fazem morrer mais do que a Morte.
Quando a Morte velha e vestida de negro, de mãos de terra seca e olhos de punhal, espreita nas esquinas das ruas que vivemos, já temos vindo a morrer por ali fora, rolado nos granitos dos passeios. Já somos quebradas almas, decepados corpos e arrastamos mortos membros, apodrecidos restos, esfarrapados de nós.


Gosto da Morte, velha e negra, a fazer puzzles.

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