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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e uma jóia

rabiscado pela Gaffe, em 07.07.16

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Há alguns anos, vi e ouvi pasmada e rendida a gravação de um concerto de Carlos Paredes e de Luísa Amaro.

 

Sei que este cantinho não é o lugar para lamentar o facto de nos países pobres, e nos pobres países, o entorpecimento total em relação aos talentos que os povoaram se ter tornado uma constante só quebrada se causar proveito aos que os dominam.

Sendo este um cantinho de uma rapariga fútil, avesso a discussões incomodativas, pousemos os olhos, em consequência, num elemento cenográfico - creio que o único - do concerto.

Com uma iluminação perfeita e minimal, no pescoço vestido de negro de Luísa Amaro, chispava um belíssimo, largo e denso colar de diamantes. O resto era escuro. A guitarra de Paredes contracenava com o cintilar do adereço, sobrepondo-se ao seu fabuloso fulgor gelado.

 

Lembrei-me deste cenário, quando dei comigo avassalada por uma enormíssima quantidade de fotos do objecto da imagem que invadem a net e sobretudo os blogs da especialidade.

Não nego a possibilidade de o considerar um belíssimo adereço, mas recordo de imediato o colar de Luísa Amaro submetido e domado pelos sons das guitarras e da virtuosidade do mestre e percebo que, para transportar um objecto com o poder, a força, o peso e a carga que este - mas sobretudo o de Luísa Amaro - possui, não basta um cenário negro. É necessário que o saibamos fazer esquecer, diluído no pescoço de uma maior e mais impalpável autoridade.

 

Fiquemo-nos portanto pela tripla e discreta fiada de pérolas oferecida pela avó.

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A Gaffe gestual

rabiscado pela Gaffe, em 07.07.16

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1º gesto

O perfume das gardénias nas varandas perfura-lhe os dedos.

Tem gardénias nos dedos das varandas, enjoativas, a provocar a náusea, a arrastar o vómito. Pesam-lhe os dedos como o calor que se abre nos botões das flores.

Os seus dedos são gardénias quentes de perfume e de besouros. Ouve os zumbidos dos bichos debaixo das unhas. O calor estala os botões de mansidão sinistra. Abrem-se como dedos de criança tenros e opalinos.

Nas suas mãos há dedos de gardénias opalinas e debaixo das unhas os besouros zumbem, zoando de perfume. Zunem os seus dedos de besouros bêbados e de gardénias abertas como feridas.

2º gesto

Outrora as mãos peregrinavam e no encontro das mãos ouvia-se rezar nas catedrais.

Nas mãos há peregrinos.

As suas mãos são como um pequeno mosteiro de portas abertas numa estrada por onde não passam peregrinos. A terra do caminho que vai a essas súplicas não é abrandada pelos passos de ninguém.

 

3º gesto

São ágeis os seus dedos e brancos e angulosos. Se os mover devagar vemos as ondulações meigas dos ramos das árvores de tronco quieto quando chega o vento sem qualquer barulho. Se os mover com fúria parecem insectos presos na angústia das teias de aranha.

4º gesto

As mãos são éguas brancas.
Perto dos juncos, a água dos olhos queda-se a ver ou a rezar lá dentro, a pedir coisas.

 

5º gesto

Se nos dedos zumbisse o lume a atravessar as sombras dos seus lábios - ou a mão na sua boca - então as gardénias seriam peregrinos a cavalgar o espaço.

 

Na foto - Paul Éluard

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Gavetas:

A Gaffe utilitária

rabiscado pela Gaffe, em 06.07.16

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Embora concorde com a esmagadora maioria e assuma que é proveitosa a aliança entre o útil e o agradável, há excepções que convém sublinhar.

 

Nem sempre esta união se torna eficaz e prazenteira. No amor, o útil e o agradável podem não coexistir, sem que disso venha grande mal ao mundo. Apaixonamo-nos com frequência por gente que não nos fornece grande coisa, a não ser um palmo de cara, e muitos palmos de outras coisas, para exibir nas feiras das nossas mais raquíticas vaidades. Entregam-nos os agradáveis momentos em que nos vingamos da amiga que nos roubava os atletas mais invejados da turma e um bando de horas em que perdemos o tino, olhos em bico, boca a babar, a amarfanhar lençóis e a gritar desalmadamente por Deus, Nosso Senhor - embora saibamos que este tipo de uivo não é considerado oração por Sua Santidade.

 

É evidente que a utilidade desta paixão está implícita, mas é daquelas que nos fazem corar na presença da nossa avó e, confessemos, encontramos o mesmo produto numa esquina qualquer, sem que para isso tenhamos de admitir sentimentos muito elaborados. É agradável, mas não é relevante, nem contribui para a sensação de vida preenchida - embora nos pareça que recheia uma pequena parte dela. A utilidade é passageira e não deixa rasto quando o homem adormece.  

 

Talvez por isso seja de considerar a máxima que nos repete que deve ser bom amar um homem feio.

 

Apaixonarmo-nos por um homem desagradável à vista desarmada, possibilita a aparente vingança da amiga a quem roubávamos os atletas mais invejados da turma e em relação ao amarfanhar dos lençóis e aos gritos desalmados pela calada dos corpos, crescem as possibilidades de controlo do som, porque com um homem feio temos sempre mais botões.

 

A paixão sentida por um homem que não é bonito de morrer - de grandes mortes - assenta numa espécie de oportunismo, ou mesmo de vampirismo, nosso. Acabamos por amar o conteúdo, tentando não desfazer a embalagem, cuidando do laço e conservando o nó. Cravamos-lhe os caninos na alma e sorvemos, fazendo nosso aquilo que nos fez perder de amor. Aprendemos que é idiota o ditado que repisa que quem ama feio, bonito lhe parece, porque quem se apaixona por um homem destes, percebe rapidamente que tem, para além do aumento exponencial da possibilidade de não ser se traída, a acentuada certeza de ficar ao lado do homem que se escolheu à revelia da inconsciência de Cupido e isso não tem nada a ver com o que nos parece.

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A Gaffe atraída

rabiscado pela Gaffe, em 06.07.16

 

Os homens mais atraentes que conheço não desfilam, pavões inexpressivos, pelos tapetes do glamour, de brilho impávido nos olhos vestidos pelo deslumbre de uma griffe. Cruzam-se comigo em cada rua, banais, quotidianos, corriqueiros, cansados dos lugares onde procuram arrancar das pedras pedaços de vida e trazem nas mãos a nudez completa dos que trocam por sonhos o esplendor da glória.

 

São homens banais, heróis já quase feitos apenas de cansaços ou palavras.

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Gavetas:

A Gaffe sonhadora

rabiscado pela Gaffe, em 05.07.16

 

Quando era menina de bibe e totós, se me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, respondia de imediato: reformada e chinesa.

 

Perdi a justificação para estas minhas ambições.

 

Fui aprendendo a reformular os sonhos, a adaptá-los e a modificar a luz do irrealizável, ocultando-lhe o brilho com véus opacos de modo a que apenas se iluminasse o círculo possível do chão que vou pisando.

Quando crescemos - e se crescemos - apenas as tocadas pelos deuses conseguem a façanha almejada de possuírem a eternidade com um perfil semelhante ao de Nefertiti. As outras, as mais quotidianas, deixam de sonhar com o glamour imperecível que as transforma em réplicas da belíssima rainha de Aquenáton. Descobrem lentamente que há sonhos que se vão esfarrapando à medida que a vida vai tentando coser os trapos com que procura esconder a nudez mais crua e que a réplica é apenas de carvão sobre papel.

 

Que sonhos podem ser diluídos e quais os que devem permanecer connosco até ao fim do tempo?

Se não podemos ser aquilo que queremos, valerá a pena ser outra coisa?

 

É sempre a desilusão que nos responde devagar. Não precisamos de varar a noite do nosso desassossego a procurar respostas. Chegam e reconhecemo-las como nossas, vindas com a poeira dos estilhaços que ficam depois da imperceptível derrocada das cintilantes bolas de sabão que nos rodearam a vida.

O esbater dos sonhos é um dos mais subtis processos de que há notícia. Crescemos quase sem sentir este esfumar. Deparamo-nos um dia a enfrentar a vida sem a nuvem do impulso do que já foi sonhado e surpreendemo-nos a pensar que a vida é assim.

 

Não há resignação na desistência, ou se ela existe, mascara-se com o convencimento de que o que acontece não é mais do que a realidade que nos bate à porta, mesmo sabendo que o real é pouco e mau vizinho.

Sobrevivemos depois do sonho tentando acreditar que tudo vale a pena, mesmo quando a alma não ficou grande coisa. Agarramo-nos à fantasia que cresce sem limite e acreditamos que ainda temos tempo para querer seja o que for e que não seja tudo, acomodando em nós as sombras do sonhado.

 

Não tenho nos cabelos a seda negra das lendas do oriente, mas ainda sonho com a reforma, muito mais enrugada e resmungona, numa ilha qualquer onde se tenha tudo e não uma outra coisa.

 

Foto - Gjon Mili, 1954

 

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A Gaffe e o charmoso

rabiscado pela Gaffe, em 05.07.16

 

Um dos mais complexos conceitos que existe para nos assombrar os momentos de lazer em que desejamos ser fúteis e vagamente levianas, refere-se ao charme masculino.

Confundem-no muitas vezes com carisma por este ser igualmente complicado, embora de mais fácil detecção.

 

A Gaffe acredita piamente que o tão escorregadio charme - masculino ou feminino - evolui necessariamente com a maturidade ou mesmo com o envelhecimento sapiente e é simplesmente a inteligência que se escapa suave, mas incontornável e notória, pelos poros.

 

Nenhum rapaz, rigorosamente nenhum, possui o charme irresistível, poderoso e avassalador, de um homem maduro que passa despojado de insignificantes adereços do quotidiano mais cosmopolita, urbano ou colorido, seguro de que lhe basta a vida que decide e a decisão de a viver ao som do pulsar seu próprio raciocínio.

 

Uma rapariga esperta, no entanto, tem sempre presente o que o velho inglês sublinha:

 

A man of such obvious and exemplary charm must be a liar.

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A Gaffe marítima

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.16

(Ao meu Amigo)

Antonio Mora.jpgGosto do mar nocturno a urrar para que a lua não lhe toque o corpo. Mostrengo cor de chumbo a recusar a arena platinada. Touro a espumar no rodeo da noite.
Isso, animal! Continua aos pinchos! Espuma, urra, recusa!

Vais ver que um dia a lua cai no chão.

 

Foto - Antonio Mora

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Gavetas:

A Gaffe esplendorosa

rabiscado pela Gaffe, em 03.07.16

Não é fácil erguermo-nos a brilhar nas preguiçosas manhãs do nosso descontentamento, sobretudo quando nos sentimos desgrenhadas, ensonadas e com todos os sentidos anestesiados.

 

Embora com uma nuance significativa, a última vez que o conselho, estampado agora na t-shirt do rapagão da imagem, surtiu efeito, foi com Lázaro e só porque chegou directamente de Jesus. Mesmo assim, Lázaro nunca mais se livrou convenientemente do cheiro que lhe carcomia a sedução.

 

Erguermo-nos radiosas nas vossas manhãs, rapazes, é uma impossibilidade mais do que comprovada.

 

Tornamo-nos patéticas quando teimamos em levantar as pálpebras com a sombra YSL inabalável que usamos na véspera ou com o bâton sangue-de-boi Dior  - a cor do bâton não engrandece o costureiro - a preencher na perfeição os nossos lábios frescos de brisa matinal.

É inevitável esbardalharmos a tela magnífica da véspera, imprimirmos o rosto maquilhado na almofada alva, qual sudário, que nos suportou o peso da inércia, da exaustão e da impaciência que nos fez adormecer com pestanas postiças que acordam coladas nas axilas, pregando-nos um susto horripilante. Acordamos espapaçadas na cama, penosas vezes de boca aberta e em poses pouco dignificantes, muitas de nós a babar-se e a roncar - não pensem que vão ouvir os rouxinóis, - sem cabeleireiros, aderecistas, iluminação, maquilhadores, banda sonora e tropas da elite oscarizada enfiadas no armário.

 

Nenhuma rapariga, por muito que se esforce, vai amanhecer, erguendo-se com a subtileza da gazela, o gesto alado da mariposa ou a esguia elegância do cisne, qual Catherine Deneuve ou Grace Kelly - citadas para apoiar a alusão a Lázaro.

Por muito que esperneiem, nem as fadas, ninfas e sílfides, princesas de outras eras e da nossa, rainhas de beleza e sedutoras divas, jaguares no feminino, panteras negras, íbis do Nilo e de outros rios que não passam pela minha aldeia, trapezistas do encanto e do fascínio, Mata-Hari que segreda apenas mel e todas as Soraya Chaves com que sonham, acordam com um hálito a mentol.

 

Rapazes, deixem de nos massacrar com ilusões de folhas de revista ou de frames de uma fita com glamour e ouçam a voz do ancião do pico da montanha do real:

 

Wake Up and Smell the Coffee!

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A Gaffe pugilista

rabiscado pela Gaffe, em 02.07.16

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Foi instintivo. Absolutamente instintivo.  
Nenhuma minúscula emoção ou razão indignada me fez reagir daquela forma.  


O rapaz na minha frente sentado de perna e bazófia cruzadas, perdigotava pequenas frases soltas e sem nexo num português inglesado - Europe is now isolated, - a honrar a ascendência. Tinha deixado de o ouvir há já algum tempo. Os sons articulados pela boquinha indiscreta chegavam indistintos à minha distracção. Sabia que falava, mas o que dizia eram farrapos soltos no ar que tinham deixado de fazer sentido.
A minha atenção tinha sido desviada para os sapatos de couro com cordões cruzados de uma forma original, para o vinco das calças que, impecável, formava uma esquina que coincidia com o risco cinzento do tecido preto e para o gesticular com que acompanhava o discurso e que fazia perigar a estabilidade da água contida no copo que levava à boca com intervalos ritmados e quase matemáticos.  


Trata-me por tu desde a primeira vez que o vi, correm dois meses, apesar de nada, rigorosamente nada, fazer prever este indício de intimidade. 
Desagrada-me que me tratem assim, quando é de forma estritamente formal que aperto a mão a alguém. Reservo a proximidade deste feitio de calor para aqueles que conhecem as lareiras do meu peito.  


Atrevo-me, num lance de atenção que lhe dispenso, a contrariar a tese que defende, catrapiscando à toa uma frase que ouvi algures desgarrada e triste: 


- Não acredito que o pilar europeu aguente o arco se não for reforçado. 
- Tu de pilares só entendes o do tipo com quem andas.  


Levantei-me e dei-lhe uma chapada.

É evidente que não percebi que o copo ia naquele mesmo instante refrescar-lhe a frase.

O copo bateu-lhe nos dentes. Partiu-lhe um incisivo.  
Agora o pobre moço larga perdigotos com mais facilidade e reconhece que de pilares contra os dentes eu percebo imenso.

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A Gaffe amanhecida

rabiscado pela Gaffe, em 01.07.16

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O vento impede o voo das gaivotas. Planam paradas no ar que cheira a maresia ainda mais salgada do que a que chega à varanda do meu quarto.

Da linha em que o mar encontra o céu há uma barra cor de salmão, pálida, e depois o azul claro, tão claro que é quase transparente sobre a folha de platina da água mansa.

 

A mesa que escolhi é da cor das laranjas sem sabor. A luz agarra os gomos das cadeiras.

 

Há uma mulher feia de castanho a rabiscar papéis com tinta verde. Duas adolescentes amarelas a pipocar segredos e o rapaz de avental branco e dentes aramados que me serviu o café negro e espesso, encostado ao balcão a olhar as rochas cheias de luz cinza.

 

Estendo as pernas, cruzo os braços e a cabeça tomba para trás.

Fecho os olhos e deixo que a rapariga de sorriso cor-de-rosa me foque finalmente e faça clique no telemóvel vermelho e ansioso.

 

Estou vertiginosamente só. Não tenho medo.

A manhã pousada, cor de opala e luz, a pentear-me.

 

Abro os olhos.

 

Estão sozinhos e são esplendorosamente felizes: o amanhecer e o mar.

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