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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe intemporal

rabiscado pela Gaffe, em 31.08.16

Paris.jpgEnviaram-me de longe – de tão longe! - esta versão de uma das mais extraordinárias canções que ouvi. Talvez a mais perfeita do planeta.

 

O singular desta raridade é que reúne as vozes de três franceses dificílimos de perder que se revezam entregando ao poema e à melodia a perfeição dos diamantes.   

Porque é impossível encontrar a versão num formato diferente, deixo desta forma a possibilidade de ouvirmos um intemporal deslumbramento.

 

Minhas senhoras e meus senhores:

Avec le temps.mp3

Brel, Brassens e Ferré

 

 

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A Gaffe shoonemaniana

rabiscado pela Gaffe, em 31.08.16

Troy Schooneman 2.jpg

Troy Schooneman.jpg


Segundo a crítica, o fotógrafo australiano Troy Schooneman é opulento, visionário, emocionalmente evocativo e transcendente.

 

A Gaffe, apesar da luminosidade menos queimada e sobretudo da temática logicamente diferenciadora, acaba relutante a concordar com a aproximação da obra do artista à de alguns pintores dos séculos XVI e XVII, na melancolia, na intensidade, na saturação da cor e muitas vezes na sensualidade dos modelos que assumem uma vulnerabilidade inusual ou na arrogância subtil patente em alguns retratos.

 

Seja como for, a Gaffe não confunde as figuras de Giorgione, Ticiano, Van Dyck,  Rembrandt, Rubens ou mesmo Caravaggio com estes rapagões que poderiam perfeitamente decorar os suas salinhas mais reservadas, em vez das gorduchas e anafadas senhoras no banho, da pudicícia de S. Sebastião, sempre mariconço, e do glamour cavalheiresco de fidalgos que ficam sempre bem nos salões mais emproados.

 

As fotografias de Schooneman não pesam um  milionésimo de um miligrama se comparados com os quadros dos velhos Mestres, mas uma rapariga frágil sabe sempre que não deve fazer grandes esforços.  

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A Gaffe excêntrica

rabiscado pela Gaffe, em 30.08.16

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Uma das minhas amigas, uma das mais excêntricas, foi sempre dona de um humor que, não sendo britânico, contém uma dose de surrealismo que encara com a maior das seriedades.

É fácil vê-la com um colorido cata-vento a prender o cabelo que gira endoidecido com os movimentos da cabeça. Tornaram-se habituais as poderosas flores na lapela que incluem girassóis gigantes ou estrelícias que lhe ultrapassam os ombros para se espetarem no espaço. Não é de todo estranho vê-la acudir aos sofredores, de pantufas com um o lobo mau em peluche num dos pés e um capuchinho vermelho de feltro no outro e nada há a opor quando surge abrigada por um guarda-chuva multicolor coberto de lanteloujas que comprou na Índia.    

Admito que por vezes é embaraçoso. É precisa uma coragem de leão para se enfrentar uma plateia de velhos sábios negros ao lado de uma mulher com uma bata grafitada e um travessão de penas de arco-íris no cabelo.

 

Estas atitudes que facilmente se tornariam alvo de punhais e sugestões de internamento compulsivo por parte dos mais que sobram, são de tal forma assumidas com tamanha honestidade, séria postura e espessa sisudez que acabam por ser reconhecidas como fazendo parte do seu modo de ser competente. A eficácia e a competência adquirem ao longo do tempo o direito a se usar girassóis na lapela sem que os que ficam no andar de baixo ousem questionar a escolha do ornamento, pressupondo que a flor solar é apenas um reflexo de um patamar de inteligência que não atingirão jamais.

 

Esta minha querida amiga disse-me um dia a banalidade que não penso esquecer.

 

Os dias são feitos com cinzas. Enfeita-os com as cores do inesperado.

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A Gaffe num Inverno passado

rabiscado pela Gaffe, em 29.08.16

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Aproximem-se comigo da janela. Afastem os cortinados de brocado escuro e ouçam o barulho ríspido das argolas de metal. Depois vejam comigo. Não quero filtrar nada. Eu digo quando quiser ficar sozinha.

 

É Inverno. São seis horas da manhã. A luz é um cinzento infante tímido lá fora. Chove devagar. Uma poeira apenas.

No terreiro o grupo de homens reunido tenta afastar o frio batendo com os pés no chão de lama e esfregando os braços com vigor. Um deles tenta aquecer-se soprando bafo quente na concha formada pelas mãos unidas. Trazem samarras com golas de pêlo ruivo de raposa, calças de fazenda grossas e imperfeitas e botifarras velhas, corrompidas. Um deles tem um gorro de malha mesclada que lhe distorce a cabeça, aguça-lhe o crânio.

Ouvem o homem alto, destacado. Traz vestido um impermeável preto, almofadado, com a textura de borracha. Demasiado largo, rectangular, pela coxa. Os punhos revirados soltam pombas brancas que esvoaçam no gesticular das mãos que apontam os destinos dos que o ouvem.

Tem um trapo cor de terra enrolado ao pescoço. Uma tira enorme de tecido que lhe esconde o queixo, calças de bombazina preta que se enfiam nas galochas com solas cor de lama e cano que reluz húmido e negro.    

 

Agora uma mulher tosca e rude e grossa, aproxima-se do grupo. Traz aberto um guarda-chuva grande, de cabo de madeira escavacado. Procura abrigar o homem de galochas que de repente se volta contra ela e se agiganta. Afasta o mostrengo e berra-lhe. Daqui percebo o medo da mulher que recua atarantada. Quase tomba. Os homens desviam o olhar. Um deles afasta-se do grupo e do bolso retira o maço de cigarros. Depois a brasa de um, no meio do cinzento.

 

Disperso o grupo, o homem de galochas fica só, ali parado.

 

A chuva tenra, a lama e um homem só, parado ali, até sentir a água a tocar-lhe as mãos agora sem sentidos. Começa a andar. Deixo de o ter então ao meu alcance.  

 

Conseguem ver?

 

Agora sim, quero ficar sozinha.

 

Não sei o que se deu ali. Não faço ideia, e este desconhecer dá a liberdade de poder atenuar todos os gestos. Transformar em águia as ordens que humilharam. Podia mesmo descrever a cinza da manhã como pronúncia de um Douro que de agreste e abrupto perde cor. Podia olhar o homem das galochas e entregar-lhe a vertical postura de uma árvore. Podia olhar por mim, sem vos mostrar ou descrever apenas o que de dentro vi sozinha.

 

Nada em nós é tão seguro como o saber que não há almas isentas ou impolutas. Sabemo-lo de cor, de coração inteiro, e às vezes temos medo do desgosto, da prepotência, da tirania agreste e quase violenta e da mais crua e nua dor que provocamos mesmo sem saber naqueles que nos querem, mas que não queremos.

 

O homem de galochas que comigo viram talvez seja um decepado. Cortaram-lhe os sentidos. Talvez sinta apenas fantasmas de emoções. Talvez seja a terra dura que por ele sente e que com ele dorme e dentro do sono lhe conta o que tem dentro, do que a morte lhe entregou para guardar, ou talvez não ame quem o ama, pois é desta forma que se torna fácil fazer brotar do chão da alma a maldita flor da ingratidão.  

 

Passaram as seis horas da manhã daquele Inverno. Já não chove e tudo é simples.

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Gavetas:

A Gaffe assustada

rabiscado pela Gaffe, em 29.08.16

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 De olhos velados e punhos no escuro, o amor, na penumbra, espia, escondido na sombra de um sussurro.

 

Foto - Brassaï

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Gavetas:

A Gaffe arqueóloga

rabiscado pela Gaffe, em 27.08.16

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A hora do entardecer é a minha preferida.

As portas das varandas da sala principal do hotel estão abertas e aquele homem, voltado para a luz laranja que morre no exterior, deixa que se espalhe pela casa o aroma asfixiante dos desertos que de tarde se tinha tornado abelhas atraídas pelo odor futuro do chá.  

 

Partículas de luz ruiva, roxa, arroxeada, volteiam pela sala.

 

As mulheres rodopiam, decotando sorrisos e sacudindo as saias de linho ou seda fresca e os homens usam camisas com botões que brilham devagar no aprumo devido aos templos que visitam.  
Tilintam perto campainhas e é desfraldado o barulho dos bules e dos copos de vidros lapidados.

Há gritinhos e saltinhos das senhoras e os cavalheiros procuram a formatura que lhe permite cumprir com honra e tino o ritual já velho.

 

O cheiro esbatido do corpo do homem começa a sentir-se enrolado no ar, escondendo-se nas fendas dos móveis. É o aroma de um corpo cansado que já aniquilou o contido no frasco com travo de sândalo. É um perfume com sabor, como se tivéssemos uma chave na boca.  

 

Há um rasgo no braço da camisa e sangue seco, castanho. As pedras de Petra vingam-se, rasgando com punhais os braços daqueles que as tentam entender.

Há um anel de ouro no dedo do homem. Um anel que é a fusão de outras alianças, mortas ou prontas a esquecer, a ser perdidas, mas com o tempo suspenso e sentença adiada.

Há nódoas de terra seca nas calças do homem e o couro do cinto, velho, já manchado, tem uma fivela de metal escurecida e gasta.

Há os pés pousados no chão como se às pedras faltasse o contacto do dono para arrefecer.

Há as rugas que a fúria do sol escavou.
Há sulcos cavados no espaço que existe entre as sobrancelhas, no instante exacto do nascer da cana do nariz recto e perfeito e há riscos sem suavidade na testa larga e ampla. O tempo cravou os dedos de pedra com a crueldade dos dementes na esfacelada pele como se de barro indefeso fosse a carne.  
Há a platina da barba e há o irreparável erro de ficar.  

Há depois o olhar que já pertence todo a esta terra. O olhar que aprendeu a dar as ordens certas durante três décadas e que passou a amar definitivamente as pedras só por saber que vai morrer primeiro.  


É notório o encerrar definitivo das emoções naquela criatura reservada. A mais banal das questões é tida como lança disparada e a mais clara ou pateta das perguntas é olhada com escárnio. A nada se responde e a nada se atenta. No entanto, esta aparente indiferença parece vir mesclada com a argúcia dos adivinhos. Nada surpreende, porque tudo já foi visto.  
O tempo, que abre fendas nos rochedos, simultaneamente fechou templos e permite apenas que se vislumbre uma luz pálida do interior desta alma através das frestas que cavou no corpo deste velho arqueólogo.  
Desses vislumbres, solta-se a impaciência que o tempo de que falo exacerbou. Magoa com as botas o soalho, de lado para lado, mãos cruzadas nas costas, punhos fechados e mudez absurda, alterando o requinte vagamente absurdo das tardes de chá amargo amaciado por pequenos biscoitos de gengibre e canela. Espera que tudo esteja pronto e arrepende-se de ter permitido a invasão da ruiva esbaforida com o calor. Morde as pequenas rodelas adocicadas, mistura-as com travos de chá amargo e quente.

- Incendeia-nos de frescura esta mistela - e morde mais. 

É este o homem que prefiro, mais do que às horas dos entardeceres.

 

Envelheceu no meio de lugares que não lhe foram ditos. A consciência do seu declínio derruba as pedras e rompe arrolando os meus instantes.

 Tem sede e água ao mesmo tempo. Tem a mágoa de ter sido poupado a lugares de dor imensa, porque esteve sempre debruçado sobre o maior amor que a alma pode dar. O amor ao que sabemos que ficará depois de nós, inevitavelmente. Tem pena e todo este lamento se escoa na certeza de partir em breve - sou um velho, - de se sarar por dentro e entregar um coração qualquer, que desconhece agora, ao centro de outro lado.

Voltado para mim, ergue a sombra que o envolve. Ergue só para mim, da mesma forma, outros espaços, porque é nele que estes espaços se resumem. É por ele que os vejo, que os sinto, como se não houvesse lugar impune àquele corpo esguio e envelhecido, como se nada houvesse ou tudo fosse nele.

 

- Já nem sei quem sou.

 

Ouvia-o na sala do chá amargo e dos biscoitos de gengibre, voltado só para mim, e já não sei se foi há pouco tempo ou se a voz me chega de outras eras.

 

- Gosto tanto de si! - sou tão banal.

- Ah! Envelheci no dia em que uma mulher, a última que amei, completou essa frase. Acabou-a dizendo que gostava um dia de encontrar um homem como eu.

- Mas é uma lisonja. - espanta-se a tontinha.

- Minha pequenina Petra, eu sou um homem como eu.

 

Foto - Jane Chong

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A Gaffe e a prostituta

rabiscado pela Gaffe, em 26.08.16

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Lembro-me como descobri o miserável preconceito que carrego.

 

Era Inverno e o homem olhava sem perceber que o via. Habituei-me àquele olhar e sei de todos os lugares onde ele chega ou nos quer levar, porque se vê de longe.

 Levantou a gola grossa do casaco azul de marinheiro, apertou os botões velhos com âncoras gravadas e uniu com força os dedos enluvados de modo a que o couro das luvas se ajustasse melhor aos movimentos das mãos. Sorriu com vento e gaivotas empurradas aos gritos e aos guinchos no meio de rajadas com uivos de frio.

Ouvia o barulho das abas do mar batido e encolhia os ombros, curvava ligeiramente a coluna a tentar esconder a face exposta ao frio, afiando a cabeça na direcção do vento, a seu favor - do vento, que tem apenas um casaco marinheiro abotoado.

Adivinhava-lhe as mãos geladas. Escondia-as cruzando os braços, enfiando-as nas axilas e batia com força cada passo que dava no granito do passeio de modo a que o vibrar da pedra assim batida lhe quebrasse a certeza de que o gelo lhe ferrava as solas dos sapatos.

 

A mulher aproximou-se.

- Tens lume? - uma minimalista.

Não. Não tinha lume.

 

Brincou, reproduzindo o estafado apalpar dos bolsos e disse de súbito aquilo que eu sabia:

- Mas tenho um corpo lindo! - fez aparecer na cara duas covas ao sorrir.

Apesar do queixo voluntarioso, o nariz aquilino e a forma como as madeixas de cabelo se comportavam como asas de pássaro apanhado em desespero de armadilha, mantinha um ar tímido que o frio acentuava entregando a sensação de que havia pressa nos olhos ansiosos daquele homem. Uma aceleração das emoções ou dos desejos, uma urgência de dizer o que não quer, provocadas pelo medo de gelar, de ser picado pelas gaivotas que gritavam lancetadas pelo vento como farrapos de cabelo desnorteados.

 

A mulher tinha feições que esqueceria logo que o vento amainasse e o meu casaco se fechasse sobre o entardecer friorento de outra praça, de outra Avenida e de outros rostos. Era loira, oxigenada e frisada e afagava os cantos da boca inflamada de batom. Apenas isso.

- Não beijo na boca - minimalista e rotineira.

Diz-lhe depois dos preços com a serenidade de quem atira um orçamento que se sabe pobre e sustentável.

 

- Não tenho dinheiro e beijo bocas.

- Só faço isto por causa das propinas.

- Tenho a certeza que sim, mas não tenho dinheiro e beijo bocas. Desculpa.

 

Ofereceu um serviço mais barato e não abrandou o passo quando o recusaram. Seguiu-o e falou-lhe de praças desertas nas horas mais pardas e nas avenidas paradas como esconderijos. Deixou-se de saber se é negócio ou ócio o sexo daquelas prestações.

Desceu as escadas. Depois o declive que a levava a areia. Encostou-se ao muro à espera com a mão na virilha e os olhos levantados de promessas por orçamentar.

- Tens de procurar outro. Eu estou só à espera de uma amiga.

 

A gola do meu casaco grosso levantada e o vento a zunir à minha volta.

- Vê o que as tempestades nos podem fazer.
Estava mais velho o homem e ainda mais perfeito por estar só. Todas as solidões são maiores que a vida.

Afastou-se a mulher oxigenada e de unhas pintadas de vermelho do muro das promessas e das propinas por pagar.

 

- Eu sei que tu tens lume – murmurei-lhe.

Com o braço marinheiro cobriu-me o ombro e num sussurro que o vento apanhou e fez desfeito:

- Um pouco mais de sol, eu era brasa.

 

Foi este exacto momento que me fez perceber que jamais conseguirei compreender as prostitutas. Nunca entenderei esta espécie de violação consentida a troco de dinheiro. Não concebo qualquer razão que a justifique e sinto que a redenção, o aclamado heróico redimir, o engrandecido já fui, mas já não sou, não é mais do que uma espera até que a vida encontre novas pedras que fazem tropeçar.

Não consigo - não quero - aliar-me aos benévolos e benevolentes que conquistam a força de carpir a infelicidade que empurra estas mulheres para estas esquinas, nem sei sequer admirar e ampliar as que se dizem delas descoladas.  

 

Até o vento a ganir não apaga, não empurra com um golpe de asa, uma mulher que se sente a desfazer.

 

Ilustração - Beesse para A Gaffe e as Avenidas

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Gavetas:

A Gaffe reencontrada

rabiscado pela Gaffe, em 23.08.16

BoyIsMine.jpgAmar Paris não tem que se lhe diga. Basta encontrar numa outra língua, de repente, declarações de amor numa rua que tem o nome do velho Cardeal.

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Gavetas:

A Gaffe regressa às Avenidas

rabiscado pela Gaffe, em 19.08.16

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Ilustração - Beesse para A Gaffe e as Avenidas

 

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Gavetas:

A Gaffe presente

rabiscado pela Gaffe, em 08.08.16

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Provavelmente já não vos sentirei a passear por estas Avenidas.

Esta tontice, que pela primeira vez agendei, não será revista como é meu costume sempre que vos ouço.

A esta hora o voo teve já início e esperam-me palácios e templos cravados na mais extraordinária das miragens, no mais improvável dos imaginários.

Não levo nada nos olhos, não tenho nada nas mãos, a não ser a minha quase sempre tonta capacidade de me deslumbrar, de ficar muda, queda, emocionada com tudo o que ultrapassa o meu parco entendimento.

 

Tenho exactamente dez dias para me render, partindo já rendida, aos enigmáticos rochedos que em conchas surreais escondem os rendilhados com que se esculpem os milagres. Dez dias e depois mais outros cinco para retornar à larga lassidão e à melancólica melodia dos passeios de Paris por onde vaguei, deixando trepidar as ruas num esvoaçar de flâneur.


Já tenho saudades vossas!

Esperem um bocadinho por mim.

Eu volto já.

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Gavetas:

A Gaffe esperada

rabiscado pela Gaffe, em 06.08.16

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Começou a contagem decrescente.

A Gaffe entra em férias dentro de muitíssimo pouco tempo e confessa que as merece.

Nunca um ano foi tão trabalhoso e lhe entregou tantos dissabores - as alegrias não deixam rasto, embora reconheça ter tido inúmeras.

A irmã decidiu ser magnânima e demonstrar que ainda há uma ténue possibilidade de ser considerada humana, agendando e marcando tudo aquilo que havia para agendar e reservar - um escândalo a GALP não se ter prontificado a apoiar a viagem. 

 

Esta rapariga acaba de ultimar as tarefas que atrasou e ouve o barulhinho do telemóvel do Segurança. Salta-lhe de súbito a imagem do rapaz. É vaga e ténue, mas a Gaffe sabe que pode ganhar corpo mais sólido.

 

Desce as escadas.

 

É quase infantil a atenção com que o mancebo vai reproduzindo e escolhendo os toques do aparelho. Carrega numa tecla e ouve-se uma buzina, toca numa outra e solta-se um pio fino, empurra a mais vermelha e sai um apito.

Assusta-se quando a vê.

 

- Ainda por aqui?! Então ainda não escapou deste manicómio? - simpático o moçoilo.

Que está à espera do carro. Sai em breve.

- Este ano vai fazer férias lá para cima?

- Não. Desta vez não. Creio que vou para os lados - sorri enquanto tenta barrar-lhe a única saída.

 

Largou o telemóvel. Está nervoso. Não sabe o que dizer e fica atento a todos os seus gestos. É este despertar de uma atenção, inútil em princípio, esta vigilância súbita dos gestos, este esquadrinhar quase assustado do que a rapariga faz, que lhe provoca e garante que aquele recear que cresce nele não é apenas o arrepio daqueles que se cruzam por acaso.

Aproxima-se e pousa-lhe a mão no ombro. Está quente, debaixo da camisa. Tamborila depois nos músculos das costas que se adivinham tatuadas e sente-os retesados, tensos e agressivos.

Debruça-se de manso sobre o balcão onde o rapaz pousou o aparelho. Há que lisonjear a compra que ele fez! A cara está a centímetros da boca dele e ela sabe que o rapagão embutiu o olhar na sua pele.

 

O ângulo é propício. A inclinação exacta.

 

A cabeça do rapaz baixou e sente-o a respirar o seu cabelo. Roda e quando percebe que tem de se escapar ouve o pavoroso estrondo da buzina.

- O carro! Agora sim, vou embora.

- Pois é. Boas férias para si e para a família  - sorri e volta a pegar no telemóvel - um dia havemos de terminar esta conversa. Fico à espera.

 

Não.

Não há modo nenhum de se acabar em linha, mas a Gaffe gosta de inocentes e ingénuos brutamontes com a fragilidade disfarçada a força de tatuagens.

Sobretudo dos que esperam.

 

Existe algures nos corpanzis dos guerreiros um minúsculo botão, despercebido, uma nuance da secreta consoante, um círculo pequeno, uma luzinha pisca, a mínima rodinha saliente, um ponto, um til, que se bem tocado os faz despejar o peito e os transforma em frágeis passarinhos distraídos.

 

... E a Gaffe gosta tanto do piu-piu!

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Gavetas:

A Gaffe italiana

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.16

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Chissà perché oggigiorno le ragazze
Van tutte pazze pei marinai ...
Non sanno che bisogna diffidare,
tra il dire e il fare
c'è in mezzo il mar ...

Signorine non guardate i marinai
perché, perché
vi potranno combinare certi guai
perché, perché ...
Coniugando il verbo amar
Lor v'insegnano a nuotar
Poi vi lasciano affogar.

Signorine non guardate i marinai
perché, perché ...

Francesca Nerozzi & Le Sorelle Marinetti


A canção é de 1943 e previne apenas as signorine mais propensas a naufrágios. A Gaffe não acredita, portanto, que o aviso se dirija também a si.
Para além disso, o Capitão Gancho é muitíssimo inglês e o Cabo de Mar italiano que passa férias em Paris, não é cantado em 2016.

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A Gaffe shakespeariana

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.16

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Acabei de reler Hamlet.

 

Confesso que Shakespeare sempre me assusta um bocadinho e este macabro príncipe dinamarquês é uma das suas figuras mais ínvias, mais esconsas e mais complexas, sem nunca deixar de ser uma das mais perfeitas criações literárias de toda a Literatura universal.

 

Ninguém como Hamlet, em página conhecida, atravessa a loucura, real e imaginária, tocando aquilo que é opressivo, sofrido ou em fúria. Ninguém é tão angustiantemente vingativo, amoral e imoral, retendo nas mãos em simultâneo uma espécie de ética individualizada arrasadora e muitas vezes mórbida.

 

Sempre me incomodou imaginar este príncipe que acaba por entregar, de acordo com a crítica, a coroa da perfeição literária à peça mais longa de Shakespeare. Sempre tive algum receio de o visualizar. Esperava sempre que me entregassem as visões que encenadores e realizadores dele tinham, até que de repente me esbardalho contra o único Hamlet que acolheria sem sombras e sem peias no meu principado. Não é propriamente muito soturno, mas tem a caveira para balançar.

 

Depois disto, nenhuma rapariga esperta é capaz de dizer que ler não é sexy.  

 

Foto - Carmelo Blazquez Jimenez

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A Gaffe rapariguita

rabiscado pela Gaffe, em 04.08.16

 

Cresço tão devagar que há uma pequena rapariguinha sempre à minha porta, como se me viesse pedir qualquer coisa.

 

Já não me lembro como era. Já não me sei miúda e no entanto basta olhar para a rapariguita que à minha porta olha para dentro das coisas. Dentro dos olhos da menina eu apanho-me a crescer tão devagar que me sinto a pedir que me levem ao colo ou que me tragam doces de amora ou de cereja.

 

Às vezes não cresço nada. Fico igual à pequena rapariguita que vejo. Apetece-me jogar à cabra-cega pela vida fora. Deixar que me atem os olhos com um lenço branco - tem de ser branco - e continuar cega a tactear o escuro que vem dentro das caixas dos presentes de Natal até se desatarem os laços. Até que eu e a criança que me vem pedir coisas os desembrulhemos para soltar a luz cá dentro.

 

Às vezes cresço mais que a menina que me olha. Não gosto de crescer mais do que ela. Fico minúscula e assim minúscula não jogo à cabra-cega, porque o lenço branco que me tapa os olhos escorrega e deixa-me ver o chão onde pousaram os presentes de Natal ainda nus, sem laços, sem escuros dentro.

 

Já não sei se nós, eu e a pequena rapariga que fica sempre à minha porta, gostamos de crescer. Olhamos uma para a outra muitas vezes. Ela pergunta-me por mim, como se me viesse pedir qualquer coisa. Nunca lhe respondo. Não sei se cresci para lhe dizer que nunca me encontro, que não sei de mim, que talvez ela me traga no bolso, junto das nódoas de cereja e de fitas de cetim com que juntas atávamos as prendas de Natal.

 

Às vezes fica à minha porta, como se viesse pedir para não crescer.

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Gavetas:

A Gaffe e as sete condenações

rabiscado pela Gaffe, em 04.08.16

 

Uma ruiva no meio de um grupo de veraneantes bronzeados produz o mesmo efeito que as marcas dos fatos de banho no corpo dos ditos. Torna-se facilmente o alvo de todos os olhares. Bastante maçador.

 

É mais do que sabido que as ruivas não se bronzeiam, mas este minúsculo senão tem as suas vantagens. Uma ruiva não precisa de se esbardalhar ao sol, braços estendidos, pernas abertas e boca escancarada até que a melanina cumpra o seu dever ou se entre em coma, aproximando o cérebro da vítima do sargaço apanhado por ancinhos nas praias do Norte, para que se cumpra a promessa dúbia de um corpo tisnado.

 

Uma ruiva é capaz de se manter alerta do cimo das suas esplanadas, de óculos de sol muito Jackie O., de capelina de palha finíssima ou lenços Vuitton e de esvoaçante vestido de seda estampada de fazer inveja a Delaunay.

Se está aborrecida com as páginas que vira ao sabor da brisa e do voo das gaivotas, pode observar o povo de cuecas e de lingerie fabricadas propositadamente para a saison.

 

Nestas suas panorâmicas incursões pelo areal, a ruiva é capaz de reconhecer aquilo a que chamará os sete pecados banais que os rapazes cometem sem se aperceberem que cada um deles pode ser letal ou arruinar o Verão inteiro deixando-os com a sombra da debilidade mental agarrada à imagem.

 I

Não biquineis a mulher do próximo nem a rapariga que vem ali ao longe -  Um biquíni que vos entra para o olho, rapazes, é milhares de vezes mais perigoso que um grão de areia. Normalmente infecta e muitas vezes só se consegue retirar enterrando na córnea a pá do baldinho do petiz que nos queima o sossego mesmo ali ao lado, antes, claro, de vos ser enfiado o balde nas trombas.

 II

Abanar a toalha a favor do vento e contra o nosso corpinho tocado pela brisa é tão perigoso como tentar sacudir as velas do Sagres no meio da borrasca.

Acreditem rapazes, não apreciamos um marinheiro de fraldas areadas que receia sentir picada a mimosa pele ou que com a mania das limpezas nos trata como candidatas a panados. Princesas-ervilhas só as ruivas de boas famílias.

 III

São letais os salpicos de água com que tentais provocar-nos um choque térmico, quando procuramos entrar devagarinho no frio do mar com o corpo saído debaixo dos raios que abrasam.

Não é engraçado, rapazes. Só nos apetece bater-vos com uma piranha até que o animal fique com os dentes do Paulo Portas.

 IV

Similar ao anterior, mas ainda mais grave. Consiste em suspender o corpo encharcado, saído do banho ainda a tremelicar, sobre o nosso, quase adormecido à sombra das palmeiras.

Meus queridos, se quiséssemos ter alguém a pingar o que quer que seja nos nossos corpos calientes escolhíamos o George Clooney.

 V

Ficar de boca aberta, babada, de barriga para o ar, de pernas escancaradas e bermudas a dar-a-dar ao vento, não é de todo charmoso. Se a posição for acompanhada por um ressono beatífico que confundimos com o ronco do farol, é caso para vos espetar com o primeiro casco de navio naufragado que der à costa ou  cravar na vossa testa o primeiro mastro valente que passar - e na praia sempre vão passando alguns.

 VI

Arrastar-nos pelos pés ou levar-nos ao colo para dentro do mar. É deselegante. No primeiro caso ficamos com areia enfiada em sítios inconvenientes e com vontade de vos arrancar o fígado com a pá do miúdo que já foi útil em ocasiões anteriores - a pá, porque o miúdo só serve como porta-armas. No segundo caso, ficais com as pernas arqueadas, esbaforidos e a arfar, e nunca, mas nunca, conseguireis recriar uma cena do E tudo o Vento Levou sem que a Scarlett que transportais não sinta que vai ao colo do Woody Allen.

 VII

Dizerem-nos que o guarda-sol está bem fixo para, passados instantes, o ver cravado nas maminhas da senhora a cem conservadores e pudicos metros de distância, é irritante. É claro que sabemos como o cravar convenientemente na areia. O salva-vidas deslumbrante passou todo o dia anterior a ensinar-nos o modo mais eficaz de o segurar, mas deixamos para vós as tarefas que exigem um pouco mais de esforço. Se não conseguis seduzir-nos com um sombreado seguro, é certo que nos abrigaremos à sombra dos músculos do professor da véspera.

 

O conhecimento destes sete pecados banais é imprescindível para que não vos torneis, rapazes, um daqueles bonecos insufláveis que o miúdo da pá costuma usar para apoiar o banhinho. 

 

Vá. Decorem. 

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