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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe rapariguita

rabiscado pela Gaffe, em 04.08.16

 

Cresço tão devagar que há uma pequena rapariguinha sempre à minha porta, como se me viesse pedir qualquer coisa.

 

Já não me lembro como era. Já não me sei miúda e no entanto basta olhar para a rapariguita que à minha porta olha para dentro das coisas. Dentro dos olhos da menina eu apanho-me a crescer tão devagar que me sinto a pedir que me levem ao colo ou que me tragam doces de amora ou de cereja.

 

Às vezes não cresço nada. Fico igual à pequena rapariguita que vejo. Apetece-me jogar à cabra-cega pela vida fora. Deixar que me atem os olhos com um lenço branco - tem de ser branco - e continuar cega a tactear o escuro que vem dentro das caixas dos presentes de Natal até se desatarem os laços. Até que eu e a criança que me vem pedir coisas os desembrulhemos para soltar a luz cá dentro.

 

Às vezes cresço mais que a menina que me olha. Não gosto de crescer mais do que ela. Fico minúscula e assim minúscula não jogo à cabra-cega, porque o lenço branco que me tapa os olhos escorrega e deixa-me ver o chão onde pousaram os presentes de Natal ainda nus, sem laços, sem escuros dentro.

 

Já não sei se nós, eu e a pequena rapariga que fica sempre à minha porta, gostamos de crescer. Olhamos uma para a outra muitas vezes. Ela pergunta-me por mim, como se me viesse pedir qualquer coisa. Nunca lhe respondo. Não sei se cresci para lhe dizer que nunca me encontro, que não sei de mim, que talvez ela me traga no bolso, junto das nódoas de cereja e de fitas de cetim com que juntas atávamos as prendas de Natal.

 

Às vezes fica à minha porta, como se viesse pedir para não crescer.

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Gavetas:

A Gaffe e as sete condenações

rabiscado pela Gaffe, em 04.08.16

 

Uma ruiva no meio de um grupo de veraneantes bronzeados produz o mesmo efeito que as marcas dos fatos de banho no corpo dos ditos. Torna-se facilmente o alvo de todos os olhares. Bastante maçador.

 

É mais do que sabido que as ruivas não se bronzeiam, mas este minúsculo senão tem as suas vantagens. Uma ruiva não precisa de se esbardalhar ao sol, braços estendidos, pernas abertas e boca escancarada até que a melanina cumpra o seu dever ou se entre em coma, aproximando o cérebro da vítima do sargaço apanhado por ancinhos nas praias do Norte, para que se cumpra a promessa dúbia de um corpo tisnado.

 

Uma ruiva é capaz de se manter alerta do cimo das suas esplanadas, de óculos de sol muito Jackie O., de capelina de palha finíssima ou lenços Vuitton e de esvoaçante vestido de seda estampada de fazer inveja a Delaunay.

Se está aborrecida com as páginas que vira ao sabor da brisa e do voo das gaivotas, pode observar o povo de cuecas e de lingerie fabricadas propositadamente para a saison.

 

Nestas suas panorâmicas incursões pelo areal, a ruiva é capaz de reconhecer aquilo a que chamará os sete pecados banais que os rapazes cometem sem se aperceberem que cada um deles pode ser letal ou arruinar o Verão inteiro deixando-os com a sombra da debilidade mental agarrada à imagem.

 I

Não biquineis a mulher do próximo nem a rapariga que vem ali ao longe -  Um biquíni que vos entra para o olho, rapazes, é milhares de vezes mais perigoso que um grão de areia. Normalmente infecta e muitas vezes só se consegue retirar enterrando na córnea a pá do baldinho do petiz que nos queima o sossego mesmo ali ao lado, antes, claro, de vos ser enfiado o balde nas trombas.

 II

Abanar a toalha a favor do vento e contra o nosso corpinho tocado pela brisa é tão perigoso como tentar sacudir as velas do Sagres no meio da borrasca.

Acreditem rapazes, não apreciamos um marinheiro de fraldas areadas que receia sentir picada a mimosa pele ou que com a mania das limpezas nos trata como candidatas a panados. Princesas-ervilhas só as ruivas de boas famílias.

 III

São letais os salpicos de água com que tentais provocar-nos um choque térmico, quando procuramos entrar devagarinho no frio do mar com o corpo saído debaixo dos raios que abrasam.

Não é engraçado, rapazes. Só nos apetece bater-vos com uma piranha até que o animal fique com os dentes do Paulo Portas.

 IV

Similar ao anterior, mas ainda mais grave. Consiste em suspender o corpo encharcado, saído do banho ainda a tremelicar, sobre o nosso, quase adormecido à sombra das palmeiras.

Meus queridos, se quiséssemos ter alguém a pingar o que quer que seja nos nossos corpos calientes escolhíamos o George Clooney.

 V

Ficar de boca aberta, babada, de barriga para o ar, de pernas escancaradas e bermudas a dar-a-dar ao vento, não é de todo charmoso. Se a posição for acompanhada por um ressono beatífico que confundimos com o ronco do farol, é caso para vos espetar com o primeiro casco de navio naufragado que der à costa ou  cravar na vossa testa o primeiro mastro valente que passar - e na praia sempre vão passando alguns.

 VI

Arrastar-nos pelos pés ou levar-nos ao colo para dentro do mar. É deselegante. No primeiro caso ficamos com areia enfiada em sítios inconvenientes e com vontade de vos arrancar o fígado com a pá do miúdo que já foi útil em ocasiões anteriores - a pá, porque o miúdo só serve como porta-armas. No segundo caso, ficais com as pernas arqueadas, esbaforidos e a arfar, e nunca, mas nunca, conseguireis recriar uma cena do E tudo o Vento Levou sem que a Scarlett que transportais não sinta que vai ao colo do Woody Allen.

 VII

Dizerem-nos que o guarda-sol está bem fixo para, passados instantes, o ver cravado nas maminhas da senhora a cem conservadores e pudicos metros de distância, é irritante. É claro que sabemos como o cravar convenientemente na areia. O salva-vidas deslumbrante passou todo o dia anterior a ensinar-nos o modo mais eficaz de o segurar, mas deixamos para vós as tarefas que exigem um pouco mais de esforço. Se não conseguis seduzir-nos com um sombreado seguro, é certo que nos abrigaremos à sombra dos músculos do professor da véspera.

 

O conhecimento destes sete pecados banais é imprescindível para que não vos torneis, rapazes, um daqueles bonecos insufláveis que o miúdo da pá costuma usar para apoiar o banhinho. 

 

Vá. Decorem. 

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