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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe esperada

rabiscado pela Gaffe, em 06.08.16

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Começou a contagem decrescente.

A Gaffe entra em férias dentro de muitíssimo pouco tempo e confessa que as merece.

Nunca um ano foi tão trabalhoso e lhe entregou tantos dissabores - as alegrias não deixam rasto, embora reconheça ter tido inúmeras.

A irmã decidiu ser magnânima e demonstrar que ainda há uma ténue possibilidade de ser considerada humana, agendando e marcando tudo aquilo que havia para agendar e reservar - um escândalo a GALP não se ter prontificado a apoiar a viagem. 

 

Esta rapariga acaba de ultimar as tarefas que atrasou e ouve o barulhinho do telemóvel do Segurança. Salta-lhe de súbito a imagem do rapaz. É vaga e ténue, mas a Gaffe sabe que pode ganhar corpo mais sólido.

 

Desce as escadas.

 

É quase infantil a atenção com que o mancebo vai reproduzindo e escolhendo os toques do aparelho. Carrega numa tecla e ouve-se uma buzina, toca numa outra e solta-se um pio fino, empurra a mais vermelha e sai um apito.

Assusta-se quando a vê.

 

- Ainda por aqui?! Então ainda não escapou deste manicómio? - simpático o moçoilo.

Que está à espera do carro. Sai em breve.

- Este ano vai fazer férias lá para cima?

- Não. Desta vez não. Creio que vou para os lados - sorri enquanto tenta barrar-lhe a única saída.

 

Largou o telemóvel. Está nervoso. Não sabe o que dizer e fica atento a todos os seus gestos. É este despertar de uma atenção, inútil em princípio, esta vigilância súbita dos gestos, este esquadrinhar quase assustado do que a rapariga faz, que lhe provoca e garante que aquele recear que cresce nele não é apenas o arrepio daqueles que se cruzam por acaso.

Aproxima-se e pousa-lhe a mão no ombro. Está quente, debaixo da camisa. Tamborila depois nos músculos das costas que se adivinham tatuadas e sente-os retesados, tensos e agressivos.

Debruça-se de manso sobre o balcão onde o rapaz pousou o aparelho. Há que lisonjear a compra que ele fez! A cara está a centímetros da boca dele e ela sabe que o rapagão embutiu o olhar na sua pele.

 

O ângulo é propício. A inclinação exacta.

 

A cabeça do rapaz baixou e sente-o a respirar o seu cabelo. Roda e quando percebe que tem de se escapar ouve o pavoroso estrondo da buzina.

- O carro! Agora sim, vou embora.

- Pois é. Boas férias para si e para a família  - sorri e volta a pegar no telemóvel - um dia havemos de terminar esta conversa. Fico à espera.

 

Não.

Não há modo nenhum de se acabar em linha, mas a Gaffe gosta de inocentes e ingénuos brutamontes com a fragilidade disfarçada a força de tatuagens.

Sobretudo dos que esperam.

 

Existe algures nos corpanzis dos guerreiros um minúsculo botão, despercebido, uma nuance da secreta consoante, um círculo pequeno, uma luzinha pisca, a mínima rodinha saliente, um ponto, um til, que se bem tocado os faz despejar o peito e os transforma em frágeis passarinhos distraídos.

 

... E a Gaffe gosta tanto do piu-piu!

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