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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e uma biblioteca

rabiscado pela Gaffe, em 30.09.16

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Fajã de Ovelha fica na Calheta, na Ilha da Madeira. A freguesia tem se cerca de 700 pessoas, 80% idosas. No Inverno o grupo de leitura tem cerca de 8 ou 9 participantes e no Verão não aparecem mais do que 3, chegados pelo anoitecer.

A minha querida Magda decidiu apelar às vossas asas para que nelas voem toneladas de livros e cheguem à Calheta povoando-a de universos.

 

Faz o favor de ser feliz e entrega a este voo os livros que merece.    

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A Gaffe pequenina

rabiscado pela Gaffe, em 30.09.16

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 (Para a minha pequena sobrinha)

 

Ao contrário do que pensam, o Grande Espírito dos Bosques não é grande. É bem mais pequeno do que a mais pequena das Fadas. Usa pantufas de pó de veludo onde estão colados pedaços de nuvens. Parece mais alto quando as tem calçadas, mas tornam-se incómodas para o equilíbrio. Como é distraído traz os bolsos do seu casaco às riscas cheios de Memórias. As Memórias são pequenas borboletas que volteiam, rodopiam, passam e esvoaçam sempre que o Grande Espírito dos Bosques se esquece dos sítios secretos onde guarda os óculos. Feitos de duas gotas de orvalho, os óculos quebram o espaço. É com eles que, entre muitas coisas, se está presente nos mais importantes acontecimentos e se analisa o trabalho das Fadas. De utilidade extrema, como se imagina. Com eles se corrigiu o pequeno engano que levou uma Fada a pintar de negro uma tulipa só! Com eles se apurou que as camélias não podiam ter perfume porque a Fada que delas tratava espirrava sempre que era lançado o aroma final. Com eles, enfim, se aperfeiçoam tarefas.

A tarefa das Fadas, fácil é de ver, consiste em pintar no Inverno as flores do Universo para que cintilem na estação seguinte.

Ao entardecer, mal a neblina se atenua, saem de suas casas prontos para o trabalho. Parecem envolvidos pela poeira de prata que lenta se perde pela tarde fora. As mais pequenas dançam e desfolham no ar todos os aromas. São responsáveis por flores pequeninas, como o malmequer ou a dedaleira ou a violeta que partilha as cores com amores-perfeitos. O caminho cheira a hortelã-pimenta, alecrim, cidreira, zimbro e rosmaninho, salva e manjerona. As Fadas mais crescidos seguem logo atrás, discutindo técnicas usadas, matizes e artifícios que vão descobrindo nos seus afazeres. Delas dependem as flores mais complexas ou mais caprichosas. Rosas e gladíolos, tulipas, orquídeas e lírios, camélias, begónias e dálias, junquilhos, girassóis e cravos, papoilas, nardos e nenúfares, entre tantas outras que de tantas, tantas, o Tempo se cansa de as contar a todas. Seriam pintadas pela noite dentro.

Tu és a Fada que gosta de rosas.

Começaste por pintar miosótis e eras perfeita. O azul das pequenas flores era tímido, doce e cheio de céu nos dias mais calmos. Depressa o Grande Espírito dos Bosques te responsabilizou por flores mais complexas. Passaste a pintar papoilas e de novo a tua perícia foi notável. O vermelho era intenso, como o dos rubis quando o sol lhes toca, e o brilho negro do interior da flor parecia o das penas das asas dos corvos. Cedo alcançaste as flores mais difíceis, as que exigem mais concentração e são entregues às mais experientes.  

Agora pintas as minhas rosas brancas, quando os ferrolhos e as aldrabas parecem mais suaves e uma lamparina de óleos raros derrama a cor do ouro nas paredes. Quando de noite uma estrela cai, se desprende do negro, procurando breve os braços inúteis da lua para não tombar. Um traço de medo e depois silêncio. Rápido, como a vida dos sonhos.

Agora pintas as rosas de neve e nos teus olhos a lua toca o peso do luar na sombra mais azul que as rosas inclinadas desenham sobre a terra. De nuvens transparentes, chega o orvalho e os longínquos recortes das montanhas que a noite desbotou. Longe se erguem os gigantes de pedra e de ferrugem. Longe a névoa esconde os picos mais agudos. Longe a luz desliza escura pelo dorso enrugado das vertentes. Longe as escarpas e os abismos soltam os ecos da melodia do frio.

- O Longe o que será?

Perto, tão perto de mim, o longe és tu, a pintar rosas.

 

Ilustração - Daniel Merriam

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A Gaffe académica

rabiscado pela Gaffe, em 29.09.16

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Não sou fã das praxes académicas, mas acredito que uma memória das bacanais do Império ido e enterrado tenha ainda seguidores, mesmo com os seus laivos sadomasoquistas, absolutamente desagradáveis e muito pouco sofisticados.

 

O que me recuso aceitar é a pobreza pindérica dos trajes das meninas que desfilam de negro, aos pinchos e aos gritos pelas avenidas da cidade. Não há qualquer justificação plausível para comportamentos que tocam o patológico e nos levam directos aos frascos da automedicação inevitável. Tornam urgente a ingestão de relaxantes e de substâncias que nos fazem esquecer a mediocridade com que se brinca a qualquer coisa sem nexo no recreio de uma instituição criada para albergar doentes mentais no século XIX.

No entanto, mesmo sob o efeito de milagrosas pílulas, é impossível não entramos em choque com o que as universitárias se atrevem a vestir.

 

O traje feminino é escandalosamente deselegante. Os materiais com que é executado são miseráveis e o corte do tailleur é mesquinho e faz lembrar as catequistas velhas e solteironas da província onde o demo só não perdeu as botas, porque não é parvo para percorrer os trilhos das cabras e não aprecia calcar bosta.

A capa, demasiado quente para a época em que normalmente é usada, para além de favorecer odores pouco compatíveis com a flor da idade de quem a usa, chega aos tornozelos ou é várias vezes dobrada no pescoço, de acordo com a etapa académica que se frequenta. Esta mimosa obrigação transforma as doces raparigas em frascos - alguns bastante encorpados, alguns bidões, - sem gargalo ou deixa-as com os mais deselegantes ossos do corpo prontos a sofrer um escrutínio minucioso, sendo os únicos passíveis de observar.

Os sapatos de plástico, os dolorosos e patéticos sapatos de plástico, golpeiam a tragédia, encerrando a catástrofe.

O conjunto lamentável obriga necessariamente que se desvie o olhar para outras paragens mais libertas deste fado e é então que lançamos âncora nos cabelos das donzelas.

 

Este olhar fugitivo acaba quase sempre num renovado acidente. O preto total faz realçar as guedelhas e são guedelhas desgrenhadas, jubas soltas e sujas - durante o período da praxe, segundo informação obtida, não é permitido prender o cabelo, - e melenas que não sonham sequer que existe o meu muito querido, talentoso e deslumbrante amigo Miguel Viana.

 

Meninas, é valoroso e de capital importância a frequência universitária, mas citando, numa adaptação livre, o assustadoramente culto Abel Salazar, uma universitária que não percebe que de traje académico se transforma em morcego com restos de rato morto na cabeça, nem da primária deveria passar.

 

Há que renovar, minhas queridas. As touradas também são tradição e não deixam de ser macabras e ofensivas.

 

Fotografia  - René Maltête

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A Gaffe sensual

rabiscado pela Gaffe, em 29.09.16

G.Haderer.jpgEspapaçada no sofá, a Gaffe debica Sete Pecados Mortais, catrapiscando Brad Pitt, e conclui que o rapagão seria um sério candidato à capa do catálogo se os deuses decidissem criar um dedicado à sensualidade. Rubén Cortada ocuparia as páginas centrais, quer do catálogo, quer da nossa cama, e a Gaffe admira-se perante a discrepância que existe entre o número desmesurado de condições que se devem verificar para que um homem seja considerado sensual e a miséria que basta para que não o seja.

 

Tendo em conta o título da fita que lhe permite a visão de um dos animais mais interessantes do planeta, que alçou a Gaffe à mesma condição de Angelina Jolie - a de solteira, - a Gaffe decide escolher sete pecados que aniquilam de vez a sensualidade masculina.   

 I

Pensar que é cosmopolita se usar um fato muito justo porque o comprou dois números abaixo do correcto, encharcado em Hugo Boss e sapatos aguçados que terminam em bico. Faz com que pareça que saiu da fábrica sem passar pelo controlo de qualidade e corre o risco de levar com o against terrorism nas ventas, porque Hugo Boss é nitidamente uma arma química.

 II 

Ficar com farpas de bacalhau nos dentes. Carne, ainda vá que não vá, porque se pode desculpar declarando que macho que é macho costuma mascar tabaco. Bacalhau nunca. Um dos maiores pesadelos das mulheres é ficar com alface colada aos dentes enquanto sorriem desprevenidas à nobreza. Podemos sempre afirmar que é de cultura biológica, mas a nossa imagem fica comprometida. Farpas de bacalhau enfiadas nos dentes de um homem, são a alface da desgraça da mulher.

III

Persistir com demasiado entusiasmo no estudo que refere que a pilinha mede afinal em média 13,2 cm. O sorriso alarve com que ilustra a insistência, leva uma rapariga a reconhecer que a alegria que demonstra o deixa muito diminuído. Todo o resquício de sensualidade fica mirrado sobretudo quando estamos a almoçar em Mirandela e a sobremesa é banane flambée.

IV

Não fazer descontos para a ADSE e atabalhoar as declarações do IRS, arrasa a sensualidade de um homem, porque o obriga, quando o vento lhe descobre a careca, a declarar que se esqueceu e a choramingar porque os outros meninos são maus. Nem sequer é sexy e faz com que nos apeteça imenso não lhe pagar o ordenado e afirmar a pés juntos que o fizemos, mas que mais uma vez o homem se esqueceu.

V

Jurar com todos os dentes - com imensas farpas - que não passa de um pindérico a armar aos cucus e que o apartamento onde vive à grande e à francesa numa luxuosa capital europeia é afinal emprestado por um amigo com muito mau aspecto. Os amigos feios devem apenas servir para fazer contraste e lhe inflacionarem o charme que acaba assim por ser maior se o apartamento for roubado.  

VI

Achar que é sedutor colar o hálito à nossa cara quando nos querem sussurrar um elogio sem que a mulher - a legítima, - perceba. Faz com que acreditemos que até mesmo Ricardo Salgado - um homem com tão fraca memória! - se recordaria da imagem dos pontos negros infectados no nariz do infractor e humilha o Fantasporto.

VII

Dizer treuze e escrever um romance com o título Madrugada Suja. Não é sensual insultar toxicodependentes nas capas dos livros.

 

Não é preciso que estes sete pecados se detectem em simultâneo. Basta que se cumpra apenas um para sentirmos que estamos tão longe da sensualidade masculina como a Merkel da mini-saia.  

 

Ilustração - G. Haderer

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A Gaffe e o caninho de medo

rabiscado pela Gaffe, em 28.09.16

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Há no Douro uma mulher madura e opulenta, com os dedos gretados a cheirar a alho esmagado e nádegas roliças que senta no banco comprido, à mesa, depois dos homens terem devorado o que ela cozinha e abalado.

Tem na frente uma malga de azeite com alho triturado, sal, cebola em rodelas finas e salsa esmagada. Vai molhando dentro pedaços de pão de milho. Atenta e sossegada.

 

- A menina quer um caninho de pão?  

Um caninho!

 

Um caninho de pão e eu com medo. Medo de não gostar do caninho de pão. Medo que ela descubra que fui eu a pecadora que no ano anterior atirou para dentro da cisterna a fatia de pão embebido em leite e polvilhadas com açúcar e canela.

 

- Mais outra, menina? Tire mais outra! Se comeu uma tão depressa é porque gostou. Tire outra e não se acanhe.

 

Eu acanhada a retirar outra, com o primeiro pedaço da primeira a empapar-me o palato, a nausear-me. Medo de não saber olhar para a mulher. Medo de a ver apenas como quero, de lhe entregar o que não é dela. Um lenço escarlate com rosas escuras e franjas sedosas ou um avental a cheirar a frutos com bolsos folhados. Ela que tem cabelo preto e encardido, preso na nuca por dois ganchos velhos e uma bata ruça aos quadrados azuis e verdes, a apertar à frente. Cheira a estrugido. É feia. Tem braços gordos e dedos papudos com gretas castanhas e a cheirar a alho, os gestos a cebola, e eu tenho medo de não gostar do caninho do pão molhado em azeite e de não saber porque tenho medo, aqui.

 

Não sei porque roubo e escondo pedaços deste espaço e me espanto porque o que fica me parece tão roído sabendo que recortei esquinas e refiz imperfeições de modo a que nada altere a medida do certo ou conspurque a elegância do brando, para que nada incomode o lugar onde fico, de maneira a que tudo seja compreendido, compreensível, sem o inquietamento, sem o desconforto, sem o inssossego do que não se entende. O modo como fico, o modo como o faço, é dócil, é aquietado. Não existe a arquitectura inquieta do desconforto. Fico como se entra numa casa que não deixa memória e onde nada vem connosco quando saímos e deixamos que a porta bata atrás de nós.

 

Tudo é tão leve assim como uma frase feita ou um cliché. O que fica é tão plano e liso como o tampo da mesa onde a mulher pousa a tigela.

 

- A menina quer um caninho de pão?

Não. Não quero.

Tenho um caninho de medo do que roubo.

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Gavetas:

A Gaffe oriental

rabiscado pela Gaffe, em 28.09.16
 

Não é aconselhável avançar, pelos corredores dos gabinetes, envoltos em mistérios com sabores orientais e embora seja tentadora a hipótese de transportar à cinta o estilete capaz de apunhalar o chefe de serviço cujo único serviço é pôr-nos a servir, não convém tornar tão óbvios os anseios.

 

A única batalha que realmente vale a pena travar até à exaustão é aquela que acontece quando estamos nus.

 

Foto - Morgan Dubois   

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A Gaffe com prendinhas de Natal

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.16

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Perguntam com pertinência porque é que a Gaffe se atreve a focar este assunto tão absurdamente cedo.

A Gaffe refere que nunca é fora de tempo prevenir a tempo as amiguinhas de meia-idade que preparam com uma antecedência digna de dó as suas prendinhas de Natal, manufacturando os seus miminhos com um carinho tão adequado à época que se adivinha muitíssimo ao longe, quase uma miragem.

Minhas queridas, este ano evitem o mais do mesmo. Há coisinhas que elaboram com ternura infinda que deviam ser exterminadas à nascença, reduzidas a pó e depois enterradas em cocó de rena.

A Gaffe vai mencionar cuidadosamente as três mais medonhas que fazem das peúgas tradicionais uma oferta Cartier.

I

Caixinhas de madeira com decalques

 

As tabuinhas compram-se nos chineses. Por dois ou três euros ficam com o armazém repleto. As tampinhas podem não fechar em condições, mas tal é um detalhe a disfarçar com um laço. Os decalques são vendidos pelas senhoras dos workshops vocacionados e especificamente dirigidos a palonças, a matronas e às minhas queridas que adoram trabalhos manuais e que não são uma coisa nem outra. São só parvas.

Aprende-se a esbardalhar por toda a caixinha macaquinhos, florinhas, princesinhas, bonequinhas, ursinhos e casinhas e, para rematar com chave de ouro, o nome dos destinatários.

Envernizam-se e deixam-se secar. Dão guarda-jóias, biscoiteiras, pequenos baús de recordações, guarda-chaves e tudo o que nos vier à lembrança. Versáteis e mimosos e fáceis de fazer desaparecer.

A única desvantagem que apresentam são as esquinas, os vértices, os cantinhos, que nos rasgam sempre os sacos do lixo e nos deixam constrangidas quando se solta dali o passe-partout que as acompanhava e que com elas fazia pendant.

II

Imagens de gesso pintado

 

Abastecemos nas mesmas superfícies.

Há imenso por onde escolher, mas os presépios são de enorme procura.

Os workshops pululam e facilmente as senhoras ficam aptas a esbardalhar a tinta nos macacos.

Normalmente S. José fica com um ar de toxicodependente, Maria com cara de quem teve um parto brutalmente difícil e o Menino com aspecto de quem é portador de doença rara. O conjunto em tons terra parece que foi achado na sarjeta, mas as minhas queridas acham que é sempre amoroso oferecer o trio sagrado de coloridas vestes, mesmo que tenham hesitado antes em marfinar todas as peças - operação que as faz parecer moldadas em manteiga rançosa solidificada depois de exposta ao sol da Palestina.  

 III

Arranjos florais

  

As bases encontram-se nas lojas do costume.

Os elementos a alocar variam com o gosto. Há workshops que ensinam a cravar na esponja uma miríade de elementos que abarcam flores secas, raminhos e tronquinhos de madeira apodrecida, bolotas, folhinhas de azevinho, bolinhas de Natal, lacinhos de tafetá, conchinhas, pedrinhas, bichinhos, um bocadinho de hera e as inevitáveis velas perfumadas. Podem ser pequeninos e fofinhos ou do tamanho da roda de um tractor. O efeito é o mesmo.

Estão destinados a esbardalhar a mesa da Consoada. Largam estearina na toalha, deixam o ar saturado, a cheirar a morango ou a baunilha queimada, e correm o risco de desaticulação quando os retiramos muito à pressa e os largamos na varanda para arejar.

 

São três pequenos mimos que as senhoras de meia-idade devem evitar oferecer neste Natal. Para além de já não haver espaço para os armazenar nos blogs da especialidade, ficamos com sempre com uma certa nostalgia das peúgas tradicionais tricotadas à mão de modo tão empírico, antes de aparecerem os workshops.   

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A Gaffe "Quási"

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.16

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Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.

(...)

Mário de Sá-Carneiro - Dispersão 

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Gavetas:

A Gaffe a ouvir

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.16

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(Para a MJ)

 

Os meus dias mais perfeitos são aqueles em que ouço devagar contar histórias velhas e perdidas de pedaços dispersos de lugares onde a hera cobre a doçura longa das janelas.

Ouço e no meu ouvir há o pasmo descoberto enquanto as palavras se enrolam na placidez do que é contado, como a hera na doçura longilínea da janela.

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A Gaffe silenciadora

rabiscado pela Gaffe, em 24.09.16

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Não me apetece falar sobre nada. Seria bom que te calasses também.

- Devias falar sobre todas as coisas. Se falares sobre uma tulipa ou sobre um cão, eles tomam o lugar que desocupas na tua boca e consegues sentir o cálice da flor e ouvir os latidos do teu cão. Se te calares, se não falares de tulipas e de cães, ficas sem o tecido das pétalas e amorteces o som dos cães que chamam por ti, dentro da boca.

- Quem te disse todas essas coisas? São patéticas e estou cansada de te ouvir. Cansei-me de metáforas

- Ninguém me disse nada.

- Então não fales.

- Se tu quiseres, não falo.

- Quero.

- Fico aqui sentado. Não digo mais nada.

- Não é verdade quando dizes que se me calar amorteço todos os sentidos. Ninguém amordaça o sentir com o silêncio.

- Eu consigo.

- Então ficas com os latidos dos cães dentro da boca.

- E sem tulipas ou com tulipas a latir na vez dos cães.

 

Às vezes as metáforas são como náufragos. Entra-lhes dentro o mar inteiro. 

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Gavetas:

A Gaffe e o envelhecimento

rabiscado pela Gaffe, em 23.09.16

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Há algumas, parcas e insatisfatórias, formas de nos sentirmos menos deprimidas com o envelhecimento e que não passam pela passadeira do ginásio.

Enumeremos à toa as que nos chegam à nossa já pouca memória.

 

I

Lembrarmo-nos que a velhice de uma mulher bonita é a vingança das mulheres feias e como tal, exactamente como o ballet, é preciso começar cedo.

II

Perceber que quando uma mulher renuncia ao desejo de agradar, ainda lhe resta uma última coqueteria: a de não desagradar.

III

Sempre que nos sentimos velhas para fazer qualquer coisa, não há que hesitar - temos de a fazer.

IV

Mentir na idade.

 

Minhas queridas, seja qual for o método aplicado, devemos resignar-nos a aceitar com bonomia a crueladade dos anos que passam. É até hoje a única forma de se viver muito tempo.

 

 

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A Gaffe vedeta

rabiscado pela Gaffe, em 23.09.16

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Frente a esta rapariga esperta, ao entardecer do dia de ontem, esteve um dos mais jovens e mais recentes talentos de uma telenovela com sucesso garantido.

 

(Morrei de inveja adolescentes histéricas e inconcientes!...)

 

No centro do seu café, a Gaffe é obrigada a pestanejar em silêncio para que o taralhoco se decida perguntar embaraçado - depois de morder o lábio inferior durante alguns segundos, - qual a sua agenda para logo à noite?

 

- Entre dançar com a Ginger Rogers e com o Fred Astaire, confesso que deslizo sempre com o charuto.

 

Olha esgazeado e sorri perante a obtusa resposta cinematográfica.

Não entendeu.

 

Mas quem quer perder tempo a explicar com as letras todas a frase idiota, quando o joelho do rapagão toca a o joelho perfeito da esfinge - desculpa, sou tão desajeitado! - e na boquinha surge tímido convite para jantar e conhecer depois a Foz à noite?!

 

É irónico. Um dia disseram, de forma mesquinha, que a vida desta rapariga ruiva podia ser extraída de uma série, mas nunca lhe disseram que isso incluía uma proposta para contracenar de forma tão... nua... com um dos seus actores.

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Gavetas:

A Gaffe por vacinar

rabiscado pela Gaffe, em 22.09.16

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Voltei a vê-la.

Outra vez grávida, que tudo é natural e nada de látex a conspurcar a ara onde se oferece a nudez primária a paganismos múltiplos.

Se veio vacinar o rapazinho?

NÃO! Que não submete os filhos a essas manobras e manipulações.

 

 Estas miudezas são capazes de me esfacelar o dia e inflamar os nervos.

 

No Reino Unido, muito recentemente, o abrandamento da vacinação infantil contra a tosse convulsa provocou no ano que se seguiu um surto perigoso da doença; em França ter sido considerada desnecessária a insistência com que se vacinavam crianças contra o sarampo, fez eclodir a moléstia, muitíssimo pouco tempo depois, elevando escandalosamente a taxa de mortalidade infantil. Ambos os países reconheceram que o retorno ao plano de vacinação desprezado se tornava essencial.

 

Não vacinar uma criança em nome da folhagem e dos golfinhos, invocando a pureza natural das coisas, esbardalhando opções de vida santificadas pelo Sol e pela Mãe Poderosa de todo o planeta, é, para além de perigoso, uma tremenda insensatez reveladora de imbecilidade galopante.

 

A criança de cabeleira farta, negra madeixa ao vento, loira nuance ao lado, que escapa à invasão de piolhos que parecem pokémons perseguidos pelos pais, não é por ser imune ou por ter no couro cabeludo a Mantra certa. É apenas porque o resto da turma já rapou a cabeça.   

 

O filho não vacinado desta ecologista de pacotilha, fundamentalista do pateta, não sofre as consequências do acto irresponsável dos progenitores apenas porque vive rodeado de crianças vacinadas que, em consequência, apresentam um baixíssimo risco de contaminação digna de registo. Caso contrário, este petiz virginal, ao lado de parceiros igualmente puros, apresentaria grandes probabilidades de se tornar o paciente-zero de uma epidemia e responsável, em última análise, por um colapso na saúde pública.

 

Não existe qualquer problema em se usar trapos artesanais cosidos à mão e rematados com os dentes, desde que o cérebro não fique despido. Não existe qualquer nota contra em se escolher viver num circo de folhas, redes de lianas, madeiras e trapézios de infusões azedas a saber a Mãe Terra, desde que nas acrobacias e malabarismos não sejam usadas as vidas dos outros.

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A Gaffe com um Caso Sério

rabiscado pela Gaffe, em 22.09.16

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Devo dizer, antes de tudo, que tal como as senhoras de meia-idade vão decorando caixinhas em pauzinho com decalques de ursinhos e florinhas que oferecem no Natal, eu, pobre de mim, vou brincando com o Photoshop até entrar em pânico quando percebo que das três horas que tinha reservado para preparar o dia seguinte, já esgotei duas delas - abençoadas, - em tontices que me vão distraindo e relaxando.

É portanto com um prazer enorme que acabo com imagens que procuram insipidamente representar mulheres que leio com afinco. São uma forma de me aproximar do modo como agarram a vida e a torcem até que obedeça, do modo como enfrentam os dias que vão manuseando com garra e da coragem com que assumem a fragilidade que trazem tantas vezes como uma arma na cinta das horas que desesperam.

 

O Pequeno Caso Sério pertence a este grupo.

 

Procurei, como não podia deixar de ser, criar um imagem com cores vibrantes, mas atenuadas por um certo efeito oxidado que nos remete para um imaginário vintage de rótulo do quotidiano ou cartaz, tantas vezes com glamour, que tantas vezes olhamos com ternura. Um pitada de garotice, uma gota de humor, uma réstia de insinuação marota, uma breve alusão àquilo que se usa muitas vezes e que por isso mesmo acaba despercebido.

O Pequeno Caso Sério é exactamente isso. A recolha de pedaços curtos da vida que passa, pequenos trechos do banal, daquilo que vivemos sem atribuir grande importância, recuperados e tratado com humor, chamados à pedra, vistos como Casos Sérios. O maravilhoso post da visita à IKEA é disso exemplo.

Podemos em cada momento encontrar uma linha de recorte. Um picotado. Uma forma de o destacar, de o recortar e colar na nossa vida. Acaba, cada um dos escritos do Pequeno Caso Sério, por ser uma ilustração do que somos - e do quão ridículo conseguimos ser, - e exactamente por isso, basta que recortemos pelo picotado os nossos retratos e os coloquemos em local bem visível.

 

Espero, minha amiga, que nunca deixes de falar de nós.

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A Gaffe no sítio das pilocas

rabiscado pela Gaffe, em 21.09.16

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Nos meus intervalos mais longos procuro isolar-me. Normalmente aproveito para passear nestas minhas avenidas, rabiscando viagens à toa e palavras ocas como os voos dos pássaros.

 

Ontem, ao contrário do habitual, sentou-se ao meu lado uma recente aquisição deste vetusto estabelecimento, uma extraordinária loira irritantemente inteligente que sacou do seu tablet - que a avisa, a agenda, a marca, a previne, a informa, a diverte, a massacra, a tortura, a despe, a veste, a penteia, a liga à CIA e ao FBI, com passagem pela NASA e, suponho, vive por ela - e planta-me na frente um sítio absolutamente divinal que ao cabo de três minutos fez de nós duas grandes e velhas amigas.

 

O sítio era uma espécie de CARAS, mas de PILAS. Tudo em excelente forma física.

 

Convém explicar.

 

Na superfície lisa - infelizmente lisa em alguns casos - sucediam-se fotografias de estrelas masculinas conhecidíssimas que, ou pela garotice de um realizador mais afoito, ou pela afoita câmara de um paparazzi sortudo, apareciam nuas sem qualquer parra ou paninho de transtorno, para gáudio e gargalhada de duas tresloucadas de intervalo.

 

A colecção parte de Yul Brynner, passa de relance por Nureyev - que nos obrigou a diminuir a imagem para conseguirmos ver também a cara do rapaz - e vai surpreendendo com um desfile, felizmente muito cru, das pilocas de David Duchovny - que pode ser tudo, menos um ficheiro secreto, - Brad Pitt - muito oportuno, - Bruce Willis, Leonardo DiCaprio, Liam Neeson, Will Smith, Nicolas Cage, Jude Law, Matt Boomer, Channing Tatum, Dwayne Johnson, Tom Cruise, Mark Wahlberg, Hugh Jackman, Robert Downey Jr. Colin Farrell, Ryan Gosling, Matthew Mcconaughey, Fassbender, Zac Efron, Bradley Cooper, Eric Dane, Gerard Butler, Josh Holloway e de mais umas dezenas que não nos despertaram grande interesse, transformando estrelas de primeira grandeza em meros actores secundários, quando não pobres figurantes.

 

Esta divertidíssima colecção de pilas que faz a desgraça da CARAS, permitiu-nos concluir, depois de temos conseguido limpar as lágrimas e parar de gargalhar, que há, pelo menos, três regras essências que um rapaz tem de saber de cor para nos mostrar aquilo que Eva teve o privilégio de usar pela primeira vez.

 

A saber:

I

Nunca corram

Nunca se coloquem em situações de desequilíbrio. Agarrem-se aos corrimãos, aos candeeiros ou à mobília - cuidado com a da IKEA, que se esbardalha com facilidade, - mas nunca tenham pressa. Uma pila acrobata não transmite a sensação de ser segura. Não há nada mais deprimente do que uma rapariga perceber que afinal o grande amor da sua vida não vai partir os dentes quando corre nu pela praia do seu Verão mais virginal.

 

 II

Nunca nos exibam uma piloca hippie

É certo que não é necessário, nem conveniente, serem pacientes da depiladora do Ken, mas é desagradabilíssimo ver que usam as cabeleiras de Woodstock no baixo-ventre. A piloca normalmente comporta-se como Tarzan: deixamos de a ver, ouvimos só os gritos.

 

 III

Nunca verifiquem na nossa frente se a vossa pila existe

Uma piloca existe, na esmagadora maioria dos casos masculinos e mesmo em alguns mais femininos. Não é bonito curvarem-se para ver se ela lá está e iluminá-la com luzes de Hospital não a faz mais nítida. Há momentos em que o turvo pode ser a mão que vos ajuda. À luz da vela a vossa piloca é sempre mais romântica.

 

Se nenhuma destas três regras de oiro vos agrada, meus queridos rapazes, podem sempre optar pelo caminho mais árduo:

 

Dispam-se e surpreendam-nos.

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