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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num balanço

rabiscado pela Gaffe, em 03.09.16

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Não gosto de balanços.

 

Um balanço é como uma mulher inútil que aponta um dedo à nossa consciência. Ergue-o repetidamente em cada redescoberta de pormenores moribundos que foram promessas ou esperanças no início de cada caminhada. Acusa-nos e faz-nos lamentar o pecaminoso dano de oportunidades; o desagradável encontro com a desilusão; a facilidade vergonhosa com que deixamos escoar o tempo; o humilhante abandono dos jardins que se foram abrindo pelo sorriso dos outros; a desfaçatez com que os ignoramos; a tragédia de não termos conseguido manter um sonho erguido; a solidão aninhada numa perda e as mais minúsculas gotas de tristeza.

 

O balanço que se faz amplia quase sempre a magnitude da dor que tínhamos sentido e mostra-nos mirradas as estrelas que fomos capazes de fazer brilhar.

Estamos estranhamente destinados a enevoar a felicidade, talvez porque apenas o seu contrário seja capaz de deixar rasto. Ser-se feliz dura tão pouco que não nos permite reter a fonte. Pagamos apenas o imposto de o ser.

 

Se fixarmos os nossos olhos no espelho, se pedirmos a alguém que nos vigie e se alternadamente olharmos para o nosso olho esquerdo e em seguida para o nosso olho direito, nada no reflexo se move para nós. O nosso olhar está fixo, exactamente como no momento em que para ele nos voltamos. No entanto, quem nos vigia pode atestar que deslocamos realmente os olhos nesta alternância idiota. Não vemos. Não nos foi dado tempo para nos apercebermos destes movimentos.

Suspeito que a felicidade é o espaço que não conseguimos ver nos espelhos que somos. Às vezes nem sequer existe quem nos diga que a tivemos. Como fazer um balanço quando não raro não divisamos sequer todas as ausências e todas as chegadas?

 

Fazer um balanço é de certo modo matar um bocadinho o que vamos listando como já passado. É uma forma de extinguir bastante selectiva, porque nos fica a bater no coração aquilo que não reconhecemos como nosso já que o deixamos passar como se não o fosse.

Às vezes, riscamos na lista o item cumprido com a leveza dos sorrisos que triunfam. Fomos capazes de percorrer o caminho e atingir a meta. O traço cortou ao mesmo tempo o que não vimos na margem povoada do trilho que vencemos.   

 

Ano após ano, balançamos no balanço. Esquecemo-nos que a vida nunca tem pousio. Batemos com as asas nos muros com que a cercamos, agarramos alguns brilhos que encontramos, ferimo-nos de encontro aos vértices e por vezes conseguimos mudar de direcção, mas o túnel murado é sempre o mesmo e o mais ínfimo tremer das nossas penas pertence ao nosso voo que é contínuo.  

  

Talvez seja por isso que não gosto de mulheres inúteis que nos apontam o dedo.

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