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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a um Cantinho

rabiscado pela Gaffe, em 08.09.16

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Quando me propus a renovar o layout do Cantinho da Casa, sabia que tinha de procurar uma imagem sóbria, com uma cor e um travo vintage, subtis e quase frágeis, misturados com as certezas de planos medidos, exactos e pensados.

Não me podia esquecer que, nos cantos das salas, a presença dos gatos era essencial.

Escolhi um traço envelhecido de uma cottage vagamente vitoriana, uma maravilhosa ilustração pacífica, evocadora e sem réstia de ruído. A calma, a ponderação e o pacífico e cuidado do desenho é contrabalançado por esquemas arquitectónicos necessariamente racionais e mais frios - apesar de amornados pelo tempo que passou pelo papel onde nasceram, - da parede de fundo.   

 

Os gatos?

 

A dificuldade de os referir foi quase tão grande como usar outro template diferente daquele que consigo dominar com alguma destreza, mas estão presentes no tonto da imagem de perfil.

 

Espero, minha querida Maria, que viva tão feliz nesta sua nova morada, como me sinto agora feliz ao entregar-lhe as chaves.

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A Gaffe cronista

rabiscado pela Gaffe, em 08.09.16

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Um dos primeiros livros que me foi dado a ler pelo meu avô chegou a estar incluído no rol de obras de leitura obrigatória nas Escolas Secundárias, implicando desta forma um estudo que apesar de quase sempre tacanho, redutor e confinado a aspectos linguísticos, semânticos e sintácticos que asfixiavam a dimensão literária dos textos, tinha pelo menos a vantagem de posteriormente evitar que confundíssemos o autor com um qualquer obscuro treinador de futebol.

 

A obra foi-me entregue numa transcrição que cuidadosa, rigorosa e responsável, nos poupava os anacronismos da linguagem que nos fazia sempre tropeçar e tantas vezes perder o sentido e a paixão com que a folheávamos. Creio que esta cautela foi de Oliveira Martins, mas posso estar a cometer um erro, tendo em conta que esta versão se encontrava na estante encostada às obras deste autor e o tempo que passou sobre a biblioteca da minha adolescência.

 

Falo de Crónicas de Fernão Lopes.

 

Descobri aqui dentro algumas das mais extraordinárias figuras que protagonizaram parte da História portuguesa, descritas com a perícia e o talento de um génio literário capaz de insinuar a intriga, o escuro, a perfídia e a traição com a mesma eficácia com que nos mostra o heroísmo, a abnegação e o sentido de honra.

Foi através das Crónicas, que encontrei senhores e súbditos, condenados e incensados, poder e servidão, guerra e não guerra, doença e cura e homens e mulheres que fizeram pulsar uma época e uma época que deles se serviu para adubar futuros.

Foi ali que me encontrei com uma das mulheres mais interessantes da História portuguesa. Leonor, mulher e rainha barregã de D. Fernando e que percebi que a ambição sem medida e a capacidade de nos movermos sobre a superfície dos gumes das facas e a de invadir territórios marcados pelo macho, exige muito mais do que uma beleza estonteante, uma inteligência dominadora ou do que a habilidade consciente de manobrar o pensamento, a emoção e o destino. Exige egoísmo. Um desmesurado e ofuscante egoísmo.

Foi ali que encontrei uma das minhas tiradas favoritas que ainda hoje não me canso de repetir e que descreve de forma genial a relação de Pedro o Cru, o primeiro de Portugal, com Afonso Madeira, o jovem de alaúde, por quem o rei nutria uma amizade inusual e mais que não se diz por ser verdade e que acaba castrado, castigo que infelizmente foi posto de parte, por ter traído com uma mulher o que a frase insinua.

 

Não encontro na estante a versão que o meu avô me deu a ler, aquela que não me fez colidir com os anacronismos, mas acabo por sentir bem perto algumas das figuras que povoam as Crónicas. Para escolher o nome dos netos, privilégio que o meu avô chamou seu sem qualquer hipótese de contraditório, abria as páginas de Fernão Lopes e fazia com que as novas mulheres e os novos homens desta casa tomassem a graça que primeiro encontrasse.     

 

Infelizmente, a página que abriu quando nasci, nomeava exclusivamente D. Fernando. O meu avô hesitou, abdicou, fechou o livro e decidiu-se pela graça da Princesa Santa, irmã de D. João II, porque era mais teimosa do que o poder do Rei.

 

Foto - Ellen McDermott

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