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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe selada

rabiscado pela Gaffe, em 12.09.16

letter to Cassandra.jpg

 Não creio haver nada de especial em todas as cartas que escrevemos.

 

As de amor são ridículas, pelo que dizem. Estranham-se umas, depois vão-se entranhando. Outras entranham-se mesmo sem estranheza. Esquecem-se outras mesmo antes de se rasgar o envelope. Existem as que não sendo abertas, estão já lidas e há ainda aquelas que, embora remetidas a nós, parecem ter sido escritas para que a posteridade as conserve e leia.

 

Acredito que estas últimas sejam as piores. Trazem o mofo do tempo que querem ver passado.

 

Há, no entanto, as cartas que não jogam com palavras. Não são cartas de jogar. São cartas de verdade. Ridículas, portanto, porque a verdade é quase tão ridícula como o amor.

 

Jane Austen escreveu várias a Cassandra num século e num lugar em que era bem difícil ser-se ridículo e a cumplicidade, a simbiose e a estranha compreensão mútua, surgem no modo com que Jane mancha o papel, escrevendo nas margens, escrevendo entre as linhas, escrevendo sobre o escrito, escrevendo voltando e revoltando o papel. Preenchendo tudo, como se nada mais houvesse para dizer depois ou como se tudo tivesse de ficar unificado.

O documento resulta quase uma espécie de palimpsesto e, no entanto, Cassandra, do outro lado, reconhece, no instante em que Jane a dobra para a enviar, o lugar exacto da assinatura da irmã.

 

Estas cartas, Senhor, são como pão.

 

Na imagem - carta de Jane Austen a sua irmã Cassandra, 8-9 Fevereiro de 1807 - Southampton

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Gavetas:

A Gaffe acrescenta

rabiscado pela Gaffe, em 12.09.16



E tenta não tropeçar nos calcanhares.

- Gaffe

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