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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe desperdiçada

rabiscado pela Gaffe, em 13.09.16

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Conheci há alguns anos um rapaz deslumbrante.


A sensação que tive quando o conheci - passava ele por Paris numa fugida, - manteve-se quando me convidou para jantar: claridade. O homem parece ter luz e consegue que nos sintamos contagiados pela luminosidade que esbanja.


Uma rapariga esperta, mas com tendência para beber mais do que deve, não pode ficar incólume a cerca de dois metros de músculos - os peitorais do rapaz ficaram ao nível dos meus olhos e a paisagem que avistei fez com que sentisse que já tinha bebido mais do que podia para, como diz o povo  mais dos picos, segurar os sherpas. Loiro, mas com a vantagem de facilmente bronzear por ser uma mistura genética de nórdicos magníficos e de latinos fabulosos; de perigosíssimos olhos azuis acinzentados; covinhas nas bochechas; um sorriso que pode provocar catástrofes ecológicas ao derreter os icebergs e uns jeans coçados e apertados no rabinho que por si só nos destrói por dentro e nos arrasa a concentração. De fazer tresloucar de desejo a Madre Teresa.


O homem é, ainda por cima, inusitadamente culto e inteligente.

Falou-me da sua enorme paixão pela pintura flamenga, da obra de Rachmaninov para piano e dos seus desencontros com os pensadores marxistas.
Uma tontura.
Acabei por me sentir ainda mais pequerrucha, o que equivale a dizer que os meus olhos deixaram de bater nos peitorais do rapaz para se fixarem em sítios menos próprios.

 

O Porto, que é uma das cidades mais interessantes da Europa, perde todo o fascínio ao lado daquele aglomerado de beleza masculina.

Este semideus urbano, culto e sofisticado, gentil, cosmopolita, viajado e aventureiro, é reconhecidamente promíscuo. Não resiste a mais leve brisa da paixão que dos corpos se escapa mal os olhos pousam no seu andar descuidado ou no seu rabo digno de figurar nos catálogos do MET.

Como seria de esperar, os meus caracóis encarapinharam mal revi este exemplar tocado pelo divino. Morria já ali, aos pés do olhar sedutor daquele que preenche todas as fantasias, das mais puras às mais escabrosas, de todas as raparigas com dois dedos de testa e muitos mais de inconfessáveis efabulações.


Como sabemos, nós, raparigas já escaldadas pela realidade crua e dura que destrói qualquer ilusão mais trabalhada, um homem que reúne as características que descrevo, tem de ter esqueletos escondidos algures.


No caso do meu anfitrião, o pretenso esqueleto – e que esqueleto! - é um mulato espantoso, de nos fazer desmaiar ofuscadas e todas corroídas de inveja, que me foi apresentado no final do jantar.
Às vezes fico a pensar com os meus pequenos alfinetes e bonitos broches, se Deus quando fez aqueles dois, não tinha a pomba por perto a esbardalhar-lhe o discernimento.
Então não nos vai deixar, a nós que somos giras, agarradas apenas à bebida, sem poder sequer provar um bocadinho do céu?!

Os caracóis voltaram ao normal - já que a dona nunca mais se endireitou, - quando me conformei com a realidade. O rapaz tinha namorado - o O final é para manter - e que o namorado era, como se tal fosse possível, um mulato de saxofone à tiracolo, desmesuradamente belo, que rivalizava em sedução com o causador da minha mais entristecida frustração.

 

Creio que neste embate a confiança que depositava nas minhas avaliações relativas à orientação sexual dos semideuses ficou comprometida.

Não que me cruze assiduamente com diamantes com quilates difíceis de contabilizar, mas os zircões que por mim passam deixam um rasto de suspeita no elenco da minha pequena e reduzida colecção de orientações sexuais conhecidas.

 

É evidente que uma rapariga esperta não desata destrambelhada a catalogar tudo o que lhe passa pela frente. É maçador e dá uma trabalheira idiota, para além de ocupar imenso espaço necessário para assuntos de real interesse, mas convém rabiscar no nosso moleskine interior que nunca há bela sem senão e que normalmente o senão, por ínfimo que seja, impede a realização dos nossos projectos mais ousados.

 

Perante as montanhas intransponíveis ou diante dos mais irrisórios contratempos que na nossa frente entravam o percurso, o ideal é relativizar os danos e com os ingredientes que nos são oferecidos, apaziguar a voracidade implacável daquilo que mais queremos.

 

No caso presente, o prazer das horas passadas a trespassar o mundo, nele viajando sem sair do sítio, guiada por um loiro ofuscante ao som de um mulato saxofone, acabou por me gravar na memória o grafite que vi há muito tempo, numa parede baça algures em Londres e a que na altura só achei piada:

 

My sexual orientation?

A LOT!

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Gavetas:

A Gaffe engasgada

rabiscado pela Gaffe, em 13.09.16
 
Raparigas, este mocetão que entra sem contarmos no eléctrico do nosso desejo, capaz de nos fazer perder a cabeça e de nos fazer perder, em abono da verdade, tudo o que quiser, é Thomas Lanier Williams III, cujo pseudónimo é nada menos nada mais do que Tennessee Williams, fotografado por George Platt Lynes em Março de 1944.
 
Olhando muito rapidamente para a fotografia, antes de tombarmos desiludidas ao descobrir que uma rapariga por muito esperta que fosse não lhe escaldaria o zinco, suspeitamos que os títulos que deu às suas obras - que agora, muito mais do que antes, nos vai apetecer ler, - não se afastam muito daquilo que lhe sussurraríamos ao ouvido - e sejamos comedidas:   
  • Beauty Is the Word
  • Summer at the Lake
  • Candles to the Sun
  • The Eccentricities of a Nightingale
  • Talk to me like the rain and let me listen
  • Suddenly, last summer
  • You Touched Me
  • Something Unspoken
  • Sweet bird of youth
  • Clothes for a Summer Hotel

Tennessee Williams morreu, aparentemente após se ter engasgado com uma tampa de garrafa no quarto no Hotel Elysee, em Nova York.

 

Uma tragédia tendo em conta que qualquer rapariga desenvolta conhece e pratica a manobra de Heimlich, mesmo numa noite sem iguanas. 

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