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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe escreve ao Zé Manel

rabiscado pela Gaffe, em 14.09.16

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Meu querido Zé Manel,

 

Antes de tudo quero que saiba que, aconteça o que acontecer, estarei sempre a seu lado. É evidente que esta promessa não abrange o portão da União Europeia em Bruxelas, porque o menino passou a ter de entrar pela porta das traseiras e uma rapariga esperta não prescinde dos serviçais que a acolhem, a mimam, lhe abrem a porta do Jaguar e lhe seguram o guarda-chuva - numa alusão literária a Afonso Cruz, - mal pisa a passadeira vermelha. Tirando este pormenor, conte comigo.

 

Sei que é uma criatura superior a estas manigâncias. Do Pantone, o vermelho sempre foi uma cor que o traiu ou que por si foi desfavorecida. Lembro, seu maroto, que na juventude o menino não foi de todo simpático com este tom, misturando-o com o amarelo. Encare esta imprópria interdição como uma torpe manifestação de ressentimento colorido ou como uma crise de ciúmes de Vitor Constâncio por não ter descoberto a tinta que o menino usa na sua impecável cabeleira.

 

É admirável como a sua consciência deixou de ser a sua juíza para se transformar em cúmplice.

 

Falo, meu corajoso Zé Manel, de injustiça europeia. Uma desavergonhada injustiça cometida contra si, que se limita a inverter o fluxo constante entre o Goldman Sachs e Bruxelas. Dir-se-ia ter cometido um crime ao aceitar o cargo de Director não Executivo desta impoluta Instituição depois de ter presidido ao Parlamento Europeu! Escandaloso é o facto de sermos testemunhas da deselegância histérica dos membros da União - receio que no seu caso que inverte o que é banal, tenhamos mesmo de suportar o mooning do tão bem humorado Juncker, - sobretudo quando a comparamos com a discrição, o silêncio e a mais irrepreensível distinção com que são encaradas pelo Goldman Sachs as transferências dos seus quadros para ao Parlamento Europeu. Não assistimos a um arrancar das tapeçarias e a um rasgar de vestes quando, por exemplo, Mario Draghi assumiu o cargo europeu que tão irrepreensivelmente exerce.

Gente rica é outra coisa.

 

Devo dizer, meu querido, que fico estupefacta com a sua postura de homem condescendente e compreensivo, capaz de desvalorizar estes histerismos. Sei que não lamentará jamais a reforma europeia que obterá dentro de alguns anos, mesmo reconhecendo que a miserável mal chega para as despesas correntes. Sei que, mesmo a um canto da sala da Europa, se manterá firme e com o mesmo porte com que recebeu Bush e Blair – o Aznar tinha um bigode parolo, por isso recuso referi-lo, - numa cimeira que produziu tão bons resultados na área das demolições.

 

Não acredito, Zé Manel, que fique melindrado por o considerarem lobista. O menino sabe que se tivessem de puxar a passadeira vermelha aos lobistas parlamentares, a entrada de Bruxelas seria uma performance de Spencer Tunik. Depois, meu caro, sei que, com um savoir-faire invejável, se foi transformando no peixe que outrora o simbolizou e tal como ele, meu querido, segue apenas o instinto.

 

Não se amofine. Mantenha-se sempre de pé, como as árvores, mesmo que sejam gritantes os seus problemas de coluna.

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