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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e as touradas

rabiscado pela Gaffe, em 19.09.16

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Toda a rapariga esperta sabe que por vezes um touro fechado na cozinha faz menos estragos do que um toureiro na cama.

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A Gaffe no tempo das quimeras

rabiscado pela Gaffe, em 19.09.16

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Já lá vão anos, por esta altura, aproveitando a digressão do quarteto de músicos, a minha avó ofereceu-lhes hospedagem e conseguiu um concerto bem privado. Foi montada uma parafernália de apetrechos no centro da sala, protegida dos caprichos de um Outono súbito pela lareira idosa a tossir fuligem mal acordada. O piano foi pousado no palanque onde tocou a alemã que falava português com um sotaque marcial e que criou uma empatia imediata com o meu amigo que tinha chegado de Paris ao entardecer, com a minha irmã.

 

Lembro-me que achei mais maciço o meu homem favorito ou então pareceu-me ainda maior ao lado da fragilidade enganosa da minha irmã que adquiriu há muito a postura esguia, discreta e suave dos herdeiros inevitáveis do mundo.

Chegou de botas eternas e lenço castanho ao pescoço amarrado à toa. Sisudo e de olhos cavados e escuros, imenso e silencioso, quase quieto, quase um recorte no meio da noite. Passou o tempo todo atento à pianista que cheia de entusiasmo lhe explicou as frases a que o jazz retorna depois do improviso.

 

- Meu querido, o menino precisa de cortar o cabelo. Quase não se distinguem as suas feições - ralhou a minha avó.

 

O Sr. Costa é o velho barbeiro da aldeia. Usa bata branca e não esteriliza nenhum instrumento. Tem uma cadeira digna de museu, lâminas antigas, álcool ao dispor para depois da barba e espelhos pardos cansados do tempo.

- Vocelência como quer cortar?

Como ele quiser. Curto talvez. Talvez militar, talvez marcial, a lembrar o tempo dos oficiais que vinham do quartel extinto tratar da figura?

 - Muito alemão? - sugere o Sr. Costa.

- Muito alemão.

A pianista esperou em sentido o regresso do militar que ouve as frases a que o jazz retorna depois do improviso.

 

Já lá vão anos.

 

Senti estranho, naquela altura, o modo como neguei a notória cumplicidade entre os dois, como se o som do piano fosse o elemento que faltava à partitura inacabada do homem de Paris, como se tudo se completasse finalmente, inevitavelmente, e se fechasse o tempo do degredo com uma melodia tocada pela noite dentro, solta nos dedos do jazz apaixonado.

 

Esteve, há dois dias, no patamar superior das escadas. O cabelo negro outra vez de tempestade.  

Continua soberbo.

É inegável a força essencial que possui para vergar a alma e a deixar ficar sem absorver os que nela entram.

Despedimo-nos e é manhã. Ficará ali o tempo que quiser.

 

A minha irmã esconde o corpo do frio que começa com o casaco que trespassa. Os olhos escondidos pelos óculos pretos com armação de tartaruga e o equilíbrio ameaçado pelos sapatos teimosos que encaixam na perfeição nos interstícios das pedras enquanto eu tento desesperada não me esquecer de nada. Durante todo o tempo espalhei pelos cantos os objectos que considero agora imprescindíveis. Rosno até ter a certeza que posso mergulhar no carro sem receio de memórias falhas.

 

Olho para trás. O homem acena. Ao lado tem a pianista que voltou sozinha. Vejo-a tocar no braço do meu amigo. Um gesto improvável e proibido. Não está seguro o movimento. É breve e enfraquecido, mas existe e é permitido.

Há uma imperceptível alteração na relação dos dois. Sei do exacto instante em que se operou a metamorfose. Depois do jantar, quando todos se encontravam sentados nos cadeirões da sala a espalhar tontices pelo chão e a beberricar palavras sem sentido, o homem que retornou de Paris, de lado para lado, impaciente como até ali não tinha sido, perdido em qualquer lugar fora dali, veio num rompante pousar a mão - demasiado súbito para não ser suspeito o gesto, - no ombro da mulher que faz música. Senti-a estremecer. Vi, claramente visto e cego para os outros, o emudecer repentino e a chispa minúscula de triunfo nos olhos alemães que se inquietaram de repente.

 

Tinha aquele gesto o poder imenso de estabelecer a cumplicidade até aqui negada por mim, um subtil encontro de copas de duas árvores que se ergueram sem raízes próximas. Apesar disso,  senti que havia uma estranha forma de permissão naquele toque, como se o homem de Paris tivesse repensado aquele gesto até à exaustão, até ao limite em que o pensamento já se tornou impulso, como se tivesse estado à espera que o movimento fosse autorizado ou fosse o resultado de uma atitude externa e recebida como se de recado fosse ou de um pensar alheio a ele, como se o gesto fosse comandado.

Agora que o carro avança devagar, olho o meu amigo no patamar superior das escadas. Já não acena. Tem no braço a mão da que o acompanha e que ao longe parece ser feliz, mas pode ser apenas porque o tempo é de quimeras.

 

O Tempo inclina-se. Descubro que o Tempo retorna à terra retomando os nossos gestos a uma luz que no amanhecer se espalha sobre as pedras e a esta cor de um sossego em lume. Tudo parece calmo e previsível, porque é contínuo. Os passos que pararam recomeçam e tudo existe a retomar o rumo, como se a vida numa sombra, na planura dos sentidos, recomeçasse no ponto em que tudo se quedou.

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A Gaffe dos Amigos

rabiscado pela Gaffe, em 19.09.16

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 A Gaffe não é uma rapariga implicativa. Tem é manias suspeitas. Não consegue, por exemplo, ver livros colocados nas estantes sem critério nenhum, nem quadros tortos nas paredes, nem objectos colocados de forma simétrica nos móveis, nem os vestidos da Dulce Pontes, sem lhe tremerem as pálpebras e começar a espumar de raiva e de indignação.

Em consequência torna-se difícil e acaba sempre a resmungar sozinha, sentada à mesa onde antes havia um grupo de gente alegre e risonha.


Gente alegre e risinha dá cabo dos nervos. A Gaffe prefere os deprimidos, os pessimistas e os exilados da vida. Pelo menos estes não contam anedotas foleiras que a deixam sempre a procurar debaixo dos móveis a piada que trazem e que tanto faz rir meia dúzia de patetas.


No entanto, apesar dos factos, os amigos que a Gaffe conserva desde a infância são gente feliz. Esta rapariga pensa que a banalidade tem ligações secretas com a felicidade, porque são gente banal também. Gostam de bagatelas básicas e de camisolas de gola alta que compram na Zara; discutem que se desunham assuntos que deixariam os intelectuais da praça completamente revoltados com a inutilidade do debate; falam de gatos e de cães como se deve falar de gatos e de cães, ou seja, sem os tratar como se fossem miúdos mimados, ranhosos e cheios de folhos que aprenderam um ou outro malabarismo engraçado - como usar os caixotes com areia; - gostam de dar gargalhadas alarves quando apanham alguém a dar um trambolhão; arranjam problemas sentimentais que fazem a tragédia de Inês parecer a do Capuchinho e desancam os idiotas que tentam conspurcar as vidinhas alheias; não lhes interessa um pirolito a orientação sexual de cada um e, quando a descobrem, andam uma dúzia de horas a procurar os queixos que perderam ao descobrir que o parceiro de jogging - fazem jogging, porque faz bem à saúde, mas também porque é chic correrem, feitos doidos, de toalha aos ombros, pelos bosques e relvados, - gosta de conhecer, biblicamente falando, apenas os tipos que com ele se cruzam, deixando de fora as corredoras boazonas.


São gente inteligente, mas sem a arrogância e a insolência que a inteligência desperta nos que lidam mal com o confronto ou com o embate com a inteligência dos outros.
Apesar das brutas discussões que engendram, acabam por parecer todos muito zen, quando comparados com as fúrias tresloucadas desta rapariga.


São gente saudável.


São os seus amigos. Gente feliz que transforma a infelicidade numa partilha cúmplice, numa partilha gerida com a consciência de quem sabe que o humor é uma das pouquíssimas armas que atinge certeira a mofina - a Gaffe andava ansiosa por escrever mofina!

 

São muito poucos, mas esta rapariga agarro-os e fecho-os na palma da mão, como se não houvesse amanhã ou se o amanhã fosse só de noite. 

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