Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no sítio das pilocas

rabiscado pela Gaffe, em 21.09.16

2.jpg

Nos meus intervalos mais longos procuro isolar-me. Normalmente aproveito para passear nestas minhas avenidas, rabiscando viagens à toa e palavras ocas como os voos dos pássaros.

 

Ontem, ao contrário do habitual, sentou-se ao meu lado uma recente aquisição deste vetusto estabelecimento, uma extraordinária loira irritantemente inteligente que sacou do seu tablet - que a avisa, a agenda, a marca, a previne, a informa, a diverte, a massacra, a tortura, a despe, a veste, a penteia, a liga à CIA e ao FBI, com passagem pela NASA e, suponho, vive por ela - e planta-me na frente um sítio absolutamente divinal que ao cabo de três minutos fez de nós duas grandes e velhas amigas.

 

O sítio era uma espécie de CARAS, mas de PILAS. Tudo em excelente forma física.

 

Convém explicar.

 

Na superfície lisa - infelizmente lisa em alguns casos - sucediam-se fotografias de estrelas masculinas conhecidíssimas que, ou pela garotice de um realizador mais afoito, ou pela afoita câmara de um paparazzi sortudo, apareciam nuas sem qualquer parra ou paninho de transtorno, para gáudio e gargalhada de duas tresloucadas de intervalo.

 

A colecção parte de Yul Brynner, passa de relance por Nureyev - que nos obrigou a diminuir a imagem para conseguirmos ver também a cara do rapaz - e vai surpreendendo com um desfile, felizmente muito cru, das pilocas de David Duchovny - que pode ser tudo, menos um ficheiro secreto, - Brad Pitt - muito oportuno, - Bruce Willis, Leonardo DiCaprio, Liam Neeson, Will Smith, Nicolas Cage, Jude Law, Matt Boomer, Channing Tatum, Dwayne Johnson, Tom Cruise, Mark Wahlberg, Hugh Jackman, Robert Downey Jr. Colin Farrell, Ryan Gosling, Matthew Mcconaughey, Fassbender, Zac Efron, Bradley Cooper, Eric Dane, Gerard Butler, Josh Holloway e de mais umas dezenas que não nos despertaram grande interesse, transformando estrelas de primeira grandeza em meros actores secundários, quando não pobres figurantes.

 

Esta divertidíssima colecção de pilas que faz a desgraça da CARAS, permitiu-nos concluir, depois de temos conseguido limpar as lágrimas e parar de gargalhar, que há, pelo menos, três regras essências que um rapaz tem de saber de cor para nos mostrar aquilo que Eva teve o privilégio de usar pela primeira vez.

 

A saber:

I

Nunca corram

Nunca se coloquem em situações de desequilíbrio. Agarrem-se aos corrimãos, aos candeeiros ou à mobília - cuidado com a da IKEA, que se esbardalha com facilidade, - mas nunca tenham pressa. Uma pila acrobata não transmite a sensação de ser segura. Não há nada mais deprimente do que uma rapariga perceber que afinal o grande amor da sua vida não vai partir os dentes quando corre nu pela praia do seu Verão mais virginal.

 

 II

Nunca nos exibam uma piloca hippie

É certo que não é necessário, nem conveniente, serem pacientes da depiladora do Ken, mas é desagradabilíssimo ver que usam as cabeleiras de Woodstock no baixo-ventre. A piloca normalmente comporta-se como Tarzan: deixamos de a ver, ouvimos só os gritos.

 

 III

Nunca verifiquem na nossa frente se a vossa pila existe

Uma piloca existe, na esmagadora maioria dos casos masculinos e mesmo em alguns mais femininos. Não é bonito curvarem-se para ver se ela lá está e iluminá-la com luzes de Hospital não a faz mais nítida. Há momentos em que o turvo pode ser a mão que vos ajuda. À luz da vela a vossa piloca é sempre mais romântica.

 

Se nenhuma destas três regras de oiro vos agrada, meus queridos rapazes, podem sempre optar pelo caminho mais árduo:

 

Dispam-se e surpreendam-nos.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe aristocrática

rabiscado pela Gaffe, em 21.09.16

Bridget Tichenor e Jean Patchett por Irving Penn para Vogue, 1949.jpg

A aristocracia é de uma estupidez e incultura total. Mas tem bons perfumes, as suas mulheres são muito bonitas e sabem rir no tom adequado. E isso é muito importante.

 

António Lobo Antunes

 

Na foto- Bridget TichenorJean Patchett por Irving Penn -Vogue, 1949

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe loira

rabiscado pela Gaffe, em 21.09.16
 

O estereótipo da loira burra, que terá o seu paradigma nas fantásticas encarnações cinematográficas de Marilyn Monroe, é a origem de imensas anedotas, na esmagadora maioria banais e sem grandes ambições.

 

É lamentável.

 

A loira burra, quando não roça o boçal ou o alarve, encaixada em qualquer casa que se deveria manter definitivamente entaipada e em segredo, é uma das mais encantadoras criaturas de que há memória.

A indiferença abissal com que olha o universo e a sua ingenuidade, terna e desprotegida, aliada à suposta ignorância que faz recair sobre aquilo que os outros, por desígnios divinos, consideram essencial conhecer ou saber, torna-a deliciosa e capaz de enfrentar os olhares engavetados e espartilhados, que a amesquinham e ridicularizam, com a superioridade indiferente e a indiferença superior que são atributos apenas dos sábios e dos loucos.

 

Subestima-se a loira burra.  

 

Não há nada mais delicioso do que a ver, por exemplo, chegar esbaforida e revolta ao hall do hotel, no Nilo, gritando que está a ser perseguida por um Lacoste ou ouvi-la declarar surpreendida que, naquela exótica paragem, viu o guia enfiar-se, durante a tarde escaldante, dentro de um saco cama da mesma marca.

 

Esta perversa inocência é muitas vezes ignorada no comportamento desta adorável figura. Valoriza-se a sua suposta estupidez e a sua abismal ignorância, fazendo-se por esquecer que, nesta inconsciência tão depreciada, existe uma miríade de pequenos mundos onde apenas alguns, dos mais libertos e arejados, conseguem vislumbrar condignamente.

Divertem-se juntos.

 

Para mal dos meus pecados, sou uma ruiva.

 

Ilustração - Redmer Hoekstra

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:





  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD