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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe com prendinhas de Natal

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.16

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Perguntam com pertinência porque é que a Gaffe se atreve a focar este assunto tão absurdamente cedo.

A Gaffe refere que nunca é fora de tempo prevenir a tempo as amiguinhas de meia-idade que preparam com uma antecedência digna de dó as suas prendinhas de Natal, manufacturando os seus miminhos com um carinho tão adequado à época que se adivinha muitíssimo ao longe, quase uma miragem.

Minhas queridas, este ano evitem o mais do mesmo. Há coisinhas que elaboram com ternura infinda que deviam ser exterminadas à nascença, reduzidas a pó e depois enterradas em cocó de rena.

A Gaffe vai mencionar cuidadosamente as três mais medonhas que fazem das peúgas tradicionais uma oferta Cartier.

I

Caixinhas de madeira com decalques

 

As tabuinhas compram-se nos chineses. Por dois ou três euros ficam com o armazém repleto. As tampinhas podem não fechar em condições, mas tal é um detalhe a disfarçar com um laço. Os decalques são vendidos pelas senhoras dos workshops vocacionados e especificamente dirigidos a palonças, a matronas e às minhas queridas que adoram trabalhos manuais e que não são uma coisa nem outra. São só parvas.

Aprende-se a esbardalhar por toda a caixinha macaquinhos, florinhas, princesinhas, bonequinhas, ursinhos e casinhas e, para rematar com chave de ouro, o nome dos destinatários.

Envernizam-se e deixam-se secar. Dão guarda-jóias, biscoiteiras, pequenos baús de recordações, guarda-chaves e tudo o que nos vier à lembrança. Versáteis e mimosos e fáceis de fazer desaparecer.

A única desvantagem que apresentam são as esquinas, os vértices, os cantinhos, que nos rasgam sempre os sacos do lixo e nos deixam constrangidas quando se solta dali o passe-partout que as acompanhava e que com elas fazia pendant.

II

Imagens de gesso pintado

 

Abastecemos nas mesmas superfícies.

Há imenso por onde escolher, mas os presépios são de enorme procura.

Os workshops pululam e facilmente as senhoras ficam aptas a esbardalhar a tinta nos macacos.

Normalmente S. José fica com um ar de toxicodependente, Maria com cara de quem teve um parto brutalmente difícil e o Menino com aspecto de quem é portador de doença rara. O conjunto em tons terra parece que foi achado na sarjeta, mas as minhas queridas acham que é sempre amoroso oferecer o trio sagrado de coloridas vestes, mesmo que tenham hesitado antes em marfinar todas as peças - operação que as faz parecer moldadas em manteiga rançosa solidificada depois de exposta ao sol da Palestina.  

 III

Arranjos florais

  

As bases encontram-se nas lojas do costume.

Os elementos a alocar variam com o gosto. Há workshops que ensinam a cravar na esponja uma miríade de elementos que abarcam flores secas, raminhos e tronquinhos de madeira apodrecida, bolotas, folhinhas de azevinho, bolinhas de Natal, lacinhos de tafetá, conchinhas, pedrinhas, bichinhos, um bocadinho de hera e as inevitáveis velas perfumadas. Podem ser pequeninos e fofinhos ou do tamanho da roda de um tractor. O efeito é o mesmo.

Estão destinados a esbardalhar a mesa da Consoada. Largam estearina na toalha, deixam o ar saturado, a cheirar a morango ou a baunilha queimada, e correm o risco de desaticulação quando os retiramos muito à pressa e os largamos na varanda para arejar.

 

São três pequenos mimos que as senhoras de meia-idade devem evitar oferecer neste Natal. Para além de já não haver espaço para os armazenar nos blogs da especialidade, ficamos com sempre com uma certa nostalgia das peúgas tradicionais tricotadas à mão de modo tão empírico, antes de aparecerem os workshops.   

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